Alimentação

Umami: a descoberta japonesa que criou o quinto sabor e derrubou os mitos sobre o glutamato monossódico

O termo umami descreve um gosto específico, diferente do doce, salgado, azedo e amargo. Esse quinto sabor se liga à sensação de algo saboroso e encorpado, típico de caldos, queijos curados e molhos de carne.

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O termo umami descreve um gosto específico, diferente do doce, salgado, azedo e amargo. Esse quinto sabor se liga à sensação de algo saboroso e encorpado, típico de caldos, queijos curados e molhos de carne. No centro dessa história, o glutamato monossódico (MSG) ocupa lugar de destaque. Esse sal deriva de um aminoácido que aparece naturalmente em diversos alimentos, e a ciência de alimentos o estuda há mais de um século.

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Ao longo do tempo, o glutamato passou de descoberta científica a alvo de boatos, especialmente ligados à chamada Síndrome do Restaurante Chinês. No entanto, pesquisas recentes em química, fisiologia do paladar e saúde pública apontam para uma realidade distinta. Em síntese, diversos estudos mostram que o MSG funciona como um componente seguro e regulado por órgãos internacionais. Além disso, cozinheiros do mundo todo utilizam o glutamato em preparações industriais e também em receitas caseiras.

Como Kikunae Ikeda descobriu o umami nas algas kombu?

A história do umami começa em 1908, no Japão, com o químico Kikunae Ikeda, professor da Universidade Imperial de Tóquio. Intrigado com o sabor característico de caldos preparados com algas kombu, Ikeda percebeu que aquela sensação gustativa não se encaixava em nenhum dos quatro gostos básicos conhecidos na época. A partir dessa observação, ele decidiu investigar quimicamente o que explicava aquele perfil sensorial tão marcante.

Ikeda extraiu componentes das algas kombu, realizou processos de purificação e cristalização e, por meio de análises laboratoriais, identificou o principal responsável por aquele sabor. Ele descobriu o ácido glutâmico, um aminoácido abundante em proteínas. Quando neutralizou esse ácido com sódio, Ikeda obteve o glutamato monossódico. Essa forma se mostrou estável e reproduziu de forma intensa o mesmo gosto do caldo de kombu. Assim, Ikeda propôs o termo umami, que podemos traduzir como sabor gostoso ou sabor agradável, para nomear esse novo gosto básico.

Umami_depositphotos.com / niphon

Glutamato monossódico: como o quinto sabor funciona na língua?

MSG atua diretamente em receptores específicos que se localizam nas papilas gustativas. Estudos em fisiologia do paladar mostram que o glutamato se liga a receptores acoplados a proteínas G e a um tipo particular de receptor chamado mGluR. Além disso, outros receptores também participam da percepção do gosto umami. Esse mecanismo envia sinais ao cérebro e indica a presença de compostos nitrogenados, geralmente associados a alimentos ricos em proteínas. Dessa forma, o cérebro interpreta o caráter substancioso que marca o umami.

Esse processo não mascara outros gostos; ao contrário, ele tende a realçar o sabor de ingredientes já presentes no prato. Por isso, cozinheiros utilizam o glutamato para intensificar o perfil de caldos, carnes, cogumelos, tomates e queijos maturados. A mesma molécula de glutamato aparece naturalmente em alimentos comuns, como tomates, molhos de soja, parmesão, anchovas, carnes curadas e alguns vegetais. A diferença entre o glutamato natural e o glutamato de origem industrial envolve principalmente o processo de produção, não a estrutura química da substância.

Por que ainda existe desconfiança em relação ao glutamato monossódico?

preconceito histórico contra o glutamato monossódico ganhou força na década de 1960, quando surgiram relatos de desconfortos atribuídos a refeições em restaurantes chineses nos Estados Unidos. Com o tempo, pesquisadores e jornalistas passaram a chamar esses relatos de Síndrome do Restaurante Chinês. Essa expressão se associou a sintomas vagos como dor de cabeça, formigamentos e sensação de calor após o consumo de comida oriental.

No entanto, revisões sistemáticas e ensaios clínicos controlados realizados desde então indicam outra conclusão. Pesquisadores não encontram evidência científica robusta de que o MSG, em quantidades usuais na alimentação, cause problemas de saúde em pessoas saudáveis. Muitos dos primeiros relatos ignoravam outros fatores, como alto teor de sal, gordura, álcool ou a própria expectativa dos participantes. Quando pesquisas mais rigorosas passaram a utilizar testes duplo-cegos, com placebos e doses controladas, os resultados mudaram. Em geral, a maior parte das pessoas não consegue distinguir, de forma consistente, quando consome glutamato ou não.

Além disso, o corpo humano produz e utiliza glutamato como neurotransmissor e como componente do metabolismo celular. Dietas comuns incluem porções significativas de glutamato livre proveniente de tomates, queijos e outros ingredientes, sem registro de efeitos adversos generalizados. As reações relatadas parecem restringir-se a indivíduos muito sensíveis ou a situações de consumo excessivo. Essa lógica também vale para sal, açúcar ou outros aditivos alimentares. Em alguns casos, profissionais de saúde sugerem teste controlado de exclusão e reintrodução para confirmar possível sensibilidade.

O que dizem os órgãos internacionais de saúde sobre o MSG?

Organizações de referência em saúde e segurança alimentar mantêm posicionamentos consistentes sobre o glutamato monossódico. O Comitê Conjunto de Especialistas em Aditivos Alimentares da FAO/OMS (JECFA), a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) e a Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos classificam o MSG como seguro nas doses recomendadas. Em muitos países, autoridades regulatórias consideram esse ingrediente geralmente reconhecido como seguro (GRAS, na sigla em inglês).

Essas avaliações consideram décadas de estudos toxicológicos, epidemiológicos e experimentais. Entre os critérios, especialistas analisam potenciais efeitos sobre o sistema nervoso, alergias, pressão arterial e metabolismo. A literatura científica indica que o MSG não se acumula no organismo e segue o mesmo caminho metabólico do glutamato natural ingerido em alimentos comuns. Como princípio geral, a orientação de saúde pública reforça a moderação, a exemplo do que ocorre com sal e gorduras. Em outras palavras, o uso permanece seguro, desde que a pessoa mantenha um padrão alimentar equilibrado.

Como o umami e o glutamato influenciam a culinária global?

O reconhecimento do quinto sabor transformou a forma como chefs e pesquisadores observam a gastronomia. Cozinhas de diferentes regiões já utilizavam, de forma intuitiva, fontes naturais de glutamato para intensificar sabores, muito antes de Ikeda propor o termo umami. Na culinária asiática, molhos fermentados à base de soja, peixes e crustáceos concentram glutamato e nucleotídeos. Esses compostos reforçam ainda mais a sensação de sabor e criam preparações complexas.

Na gastronomia mediterrânea, tomates cozidos, queijos duros, azeitonas e carnes curadas também compõem um repertório rico em compostos umami. Em outras tradições culinárias, caldos preparados lentamente com ossos, vegetais e ervas liberam glutamato durante o cozimento e constroem profundidade de sabor. Paralelamente, a indústria de alimentos utiliza o MSG para reduzir a quantidade de sódio em alguns produtos. Como o umami mantém a percepção de sabor agradável, fabricantes conseguem formular itens com menos sal comum, sem perder a aceitação sensorial.

Onde o umami aparece no dia a dia e quais cuidados são recomendados?

O umami aparece em diversas situações cotidianas, muitas vezes sem que alguém identifique o nome. Alguns exemplos de fontes naturais de glutamato livre incluem:

  • Tomates maduros e molhos de tomate concentrados;
  • Queijos curados, como parmesão e grana padano;
  • Molho de soja, missô e outros produtos fermentados;
  • Cogumelos, especialmente shiitake desidratado;
  • Caldos de carne, frango ou vegetais reduzidos;
  • Algas marinhas, como kombu e wakame.

Quando o tema envolve saúde, vale observar alguns pontos básicos:

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  1. Controlar o consumo total de sódio na dieta, incluindo o que vem do sal de cozinha e de produtos industrializados.
  2. Verificar a lista de ingredientes e identificar o glutamato monossódico ou outros sais de glutamato, como E620 a E625 em alguns rótulos.
  3. Consultar profissionais de saúde em casos de condições específicas, como hipertensão, insuficiência renal ou sensibilidade autodeclarada a determinados aditivos.
  4. Priorizar uma alimentação variada, com alimentos in natura e minimamente processados, utilizando fontes naturais de umami, como tomates e queijos.

Ao reunir a história da descoberta de Kikunae Ikeda, a química dos aminoácidos e as avaliações de órgãos reguladores, a ciência constrói um panorama consistente. De modo geral, as evidências indicam que o glutamato monossódico atua como aliado na construção de sabor. O entendimento do umami como gosto fundamental ajuda a explicar por que tantos pratos tradicionais ao redor do mundo exploram esse perfil. Por fim, a informação de qualidade permite separar mitos e fatos na alimentação diária e favorece escolhas mais conscientes.

Umami_depositphotos.com / javierjmt

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