Do palanque à panela: como a campanha de Eduardo Gomes criou o brigadeiro e um ícone nacional brasileiro
Mais do que um simples doce de festa, o brigadeiro tem uma origem que se associa diretamente à campanha eleitoral de 1945 do Brigadeiro Eduardo Gomes. Conheça essa história.
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Entre panelas de alumínio e cartões de votação, o brigadeiro surgiu em meio a uma disputa presidencial e a um país em transição. Mais do que um simples doce de festa, o brigadeiro tem uma origem que se associa diretamente à campanha eleitoral de 1945 do Brigadeiro Eduardo Gomes, que, concorrendo pela UDN, perderia o pleito para o general Eurico Gaspar Dutra, eleito presidente pelo PSD. Na época, o Brasil saía da Segunda Guerra Mundial, enfrentava racionamento de alimentos e testava novos sabores e estratégias de marketing político. Assim, a mistura de leite condensado e chocolate em pó, enrolada em pequenas porções, acabaria se transformando em um símbolo nacional da doçaria.
No fim da década de 1940, o cenário urbano, especialmente no Rio de Janeiro, passava por mudanças profundas. Afinal, havia entusiasmo com a redemocratização, mas também dificuldades materiais, como a falta de açúcar e de leite fresco em quantidade. Nesse ambiente, a campanha do candidato Eduardo Gomes, oficial da Aeronáutica e famoso pela atuação na luta contra o Estado Novo, encontrou nas cozinhas cariocas um espaço estratégico. As mulheres que apoiavam o candidato começaram a produzir um doce prático, barato e vendável, que ajudaria a financiar comícios, materiais de propaganda e atividades eleitorais.
Como o brigadeiro virou ferramenta de marketing político em 1945?
De acordo com pesquisas de historiadores da alimentação e de estudiosos da política brasileira, o doce que ganharia o nome de brigadeiro foi criado e popularizado por comitês femininos de apoio ao candidato. Assim, em vez de grandes doações empresariais, a campanha contava com eventos domésticos e festas beneficentes, nos quais o doce era vendido em pequenas porções para arrecadar recursos. Portanto, a associação direta entre o apelido militar do candidato e o produto ajudou a fixar o nome nas conversas de rua e nos salões da elite carioca.
Estudos da historiografia brasileira mostram que, naquelas eleições, a participação das mulheres ainda era recente. Afinal, o voto feminino passou a vigorar apenas em 1932. Assim, a figura das moças do brigadeiro passou a representar um novo tipo de engajamento político, em que o trabalho culinário ganhava dimensão pública. Ademais, fontes jornalísticas da época mencionam festas, chás e encontros sociais em que oferecia-se o doce como forma de apoio à campanha. Ou seja, reforçando a imagem do candidato e criando um elo afetivo entre a figura do brigadeiro e o sabor da nova iguaria.
Por que o leite condensado foi essencial para o nascimento do brigadeiro?
O contexto de racionamento no pós-guerra teve papel decisivo na fórmula do doce. Afinal, a dificuldade de acesso a leite fresco e açúcar refinado abriu espaço para o uso do leite condensado, produto que já circulava no país, mas ainda não ocupava o lugar central que viria a ter nas sobremesas brasileiras. O chocolate em pó, mais fácil de armazenar do que o chocolate em barra, completava a combinação. Com poucos ingredientes, o preparo se tornava viável em cozinhas domésticas e podia haver reprodução em grande quantidade para venda nos eventos políticos.
Do ponto de vista da ciência dos alimentos, a mistura cozida de leite condensado e gordura (seja manteiga ou margarina) até o ponto de enrolar resulta em um tipo específico de caramelo de leite. Nesse processo, a alta concentração de açúcar, unida às proteínas e gorduras do leite, passa por reações de escurecimento conhecidas na química de alimentos, como a caramelização e a reação de Maillard. É essa combinação que cria a textura densa, lisa e elástica, característica do brigadeiro. Ou seja, diferente de fudges anglo-saxões ou de caramelos clássicos ocidentais, tanto em sabor quanto em composição.
O que a gastronomia e a historiografia dizem sobre a verdadeira origem do brigadeiro?
Ao longo das décadas, diversas lendas se formaram em torno do nascimento do doce de brigadeiro. Entre as versões principais, aparecem histórias que o relacionam a outras cidades, a diferentes campanhas políticas ou até a personagens anônimos. Pesquisadores de gastronomia e de cultura popular, porém, apontam que a associação mais consistente, com apoio em registros de época e em depoimentos posteriores, remete justamente à campanha de Eduardo Gomes no Rio de Janeiro, em 1945.
Livros de culinária publicados entre o fim da década de 1940 e os anos 1950 começam a registrar receitas com nomes próximos, como docinho de brigadeiro ou brigueiro, sempre baseadas em leite condensado e chocolate em pó. Em paralelo, documentos de campanhas políticas e reportagens antigas mencionam a venda de doces em prol do candidato. Assim, utiliza-se essa convergência de fontes para sustentar a tese de que a origem mais provável do brigadeiro está nesse cruzamento entre culinária doméstica, sociabilidade feminina e estratégia de financiamento eleitoral.
Qual foi o papel das mulheres da sociedade carioca na difusão do doce?
Nesse período, as mulheres da classe média e da elite urbana, embora ainda enfrentassem restrições políticas e sociais, passaram a atuar em associações, clubes e comitês de apoio a candidatos. No caso de Eduardo Gomes, grupos femininos organizaram campanhas que misturavam eventos sociais e militância eleitoral. A cozinha doméstica foi convertida em espaço de mobilização: panelas, colheres de pau e pratos de servir tornaram-se ferramentas a serviço da propaganda política.
Relatos de época apontam que esses grupos produziam grandes quantidades de brigadeiros para chás beneficentes, bailes e encontros partidários. O gesto de enrolar pequenas porções, acomodá-las em forminhas de papel e vendê-las em bandejas ajudava a criar uma identidade visual e um ritual em torno do doce. Assim, o brigadeiro não era apenas um alimento, mas também um símbolo de engajamento, um modo de participar da vida pública em um momento em que a presença feminina ainda era limitada em outros espaços de decisão.
Como o brigadeiro se consolidou como patrimônio cultural do Brasil?
Com o passar dos anos, o resultado eleitoral de Eduardo Gomes deixou de ser o foco, mas o doce que levava seu posto militar permaneceu nas mesas. A partir da década de 1950, o brigadeiro ganhou terreno em aniversários infantis, festas escolares e comemorações familiares, reforçado pela praticidade da receita. A relação entre história política e identidade culinária foi se diluindo na memória popular, enquanto o doce se tornava parte do repertório afetivo e festivo do país.
Pesquisas em cultura alimentar, realizadas por instituições brasileiras ao longo das últimas décadas, passaram a resgatar esse passado, mostrando como o brigadeiro funciona como um caso emblemático de interação entre indústria alimentícia, contexto histórico e criatividade doméstica. A transformação de um caramelo de leite de campanha em ícone nacional exemplifica como receitas podem nascer da necessidade no caso, o racionamento e a busca por fundos eleitorais e se fixar como patrimônio cultural imaterial, transmitido entre gerações sem perder a conexão com suas origens documentadas.
Quais elementos explicam a força simbólica do doce de brigadeiro hoje?
A permanência do brigadeiro no imaginário brasileiro pode ser compreendida pela combinação de fatores históricos, sensoriais e sociais. O sabor marcado pelo leite condensado e pelo chocolate em pó, a textura característica de caramelo de leite e a simplicidade dos ingredientes facilitaram sua adoção em todo o território. Ao mesmo tempo, sua origem ligada a um momento chave da redemocratização incorporou, ainda que de forma discreta, uma camada política à sua história.
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Hoje, versões gourmet, recheadas ou reinterpretadas em sobremesas elaboradas coexistem com o brigadeiro tradicional de festa. Em publicações acadêmicas e em estudos de gastronomia, o doce aparece como exemplo de como práticas culinárias podem nascer de campanhas eleitorais, de grupos sociais específicos e de condições econômicas restritivas, e, ainda assim, alcançar caráter nacional. Dessa forma, o brigadeiro segue sendo não apenas o doce mais conhecido do Brasil, mas também um registro comestível de um capítulo particular da história política e cultural do país.