O que é a cetamina, seus perigos e como o uso inadequado levou à morte do ator Matthew Perry
O uso da cetamina ganhou destaque nos últimos anos, tanto em ambientes hospitalares quanto em clínicas com especialização em saúde mental. Saiba o que é, seus perigos e como uso inadequado levou à morte do ator Matthew Perry.
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O uso da cetamina ganhou destaque nos últimos anos, tanto em ambientes hospitalares quanto em clínicas com especialização em saúde mental. A substância, antes mais conhecida como anestésico de uso controlado, passou a ser alvo de discussões também em tratamentos para depressão resistente e outras condições. Ao mesmo tempo, cresceram as preocupações com o uso recreativo e sem supervisão, que associa-se a riscos importantes para a saúde física e mental.
Atualmente, o debate sobre a cetamina envolve médicos, pesquisadores, autoridades de saúde e famílias. Há relatos de benefícios em pacientes que não respondiam a medicamentos tradicionais. Porém, também notificações de intoxicações graves, uso abusivo e aumento da oferta ilegal. O caso do ator Matthew Perry, cuja morte teve relação com efeitos da cetamina, reforçou a atenção sobre o tema e levou a uma discussão mais ampla sobre segurança e limites no uso dessa droga. Autópsia no corpo do astro da série “Friends”, morto em 2023 por afogamento acidental em sua banheira de hidromassagem, em Los Angeles, revelou altos níveis da substância
O que é cetamina e para que serve na medicina?
A cetamina é um medicamento que tem a classificação de anestésico dissociativo. Criada na década de 1960, tornou-se ferramenta importante em cirurgias. Em especial, nas situações de emergência, por manter a respiração relativamente preservada em comparação com outros anestésicos. No ambiente hospitalar, utiliza-se em doses calculadas para sedação, anestesia e controle de dor intensa, sempre com monitorização com rigor de sinais vitais.
Nos últimos anos, estudos científicos apontaram que doses menores de cetamina podem ter efeito rápido na redução de sintomas de depressão grave e pensamentos suicidas em alguns pacientes. Em 2019, derivados da cetamina passaram a ser aprovados em alguns países para uso controlado em depressão resistente, geralmente em formato de spray nasal, sob supervisão de equipes especializadas. Em contextos assim, são realizados protocolos padronizados, avaliação psiquiátrica prévia e acompanhamento contínuo para reduzir riscos.
Uso recreativo de cetamina: quais são os principais riscos?
Fora do ambiente médico, usa-se a cetamina de forma recreativa em festas e ambientes noturnos, muitas vezes sob o nome de special K ou simplesmente k. Nesses casos, não há controle de pureza, dose ou combinação com outras drogas, o que aumenta de forma significativa os perigos. Afinal, o efeito dissociativo pode causar sensação de distanciamento do corpo, alterações intensas na percepção e perda de coordenação motora, o que favorece acidentes e comportamentos de risco.
Os efeitos no sistema nervoso central incluem desorientação, confusão, alucinações, alterações de memória e, em doses mais altas, o chamado K-hole, estado em que a pessoa pode ficar praticamente imóvel, com percepção distorcida da realidade. Em uso repetido, há relatos de problemas de memória, dificuldade de concentração e alterações de humor. Estudos também apontam possível impacto em estruturas cerebrais envolvidas em aprendizado e controle emocional, especialmente quando o consumo é frequente e em altas doses.
Além do cérebro, a cetamina pode causar danos físicos relevantes. Há descrições de lesões graves na bexiga e no trato urinário em usuários crônicos, com dor, urgência urinária e, em casos extremos, necessidade de cirurgias. O coração também pode ser afetado, com aumento de pressão arterial e frequência cardíaca, o que representa risco maior para pessoas com doenças cardiovasculares. Esses efeitos são menos prováveis em protocolos médicos controlados, mas tornam-se muito mais comuns no uso abusivo e repetido.
Dependência, overdose e combinação com outras substâncias
Embora a cetamina não seja tão clássica quanto outras drogas no desenvolvimento de dependência, há registro de uso compulsivo, desejo intenso de repetir a experiência e dificuldade de interromper o consumo. Afinal, a tolerância pode aumentar com o tempo, levando a doses cada vez mais altas para obter o mesmo efeito, o que amplia o risco de intoxicação. Assim, esse padrão de uso problemático pode comprometer relações pessoais, trabalho e saúde geral.
O risco de overdose de cetamina cresce quando se combina a substância com álcool, opioides, benzodiazepínicos ou outros depressores do sistema nervoso central. A interação pode provocar queda acentuada do nível de consciência, depressão respiratória, arritmias cardíacas e, em situações extremas, parada respiratória ou cardíaca. Em contextos de uso recreativo, é comum que a pessoa não saiba exatamente o que está consumindo, o que dificulta ainda mais qualquer controle de dose.
- Confusão mental intensa e perda de consciência.
- Respiração lenta ou irregular.
- Vômitos com risco de aspiração.
- Quedas e traumas por falta de coordenação.
- Necessidade de atendimento de urgência e suporte respiratório.
Casos de morte que se associam à cetamina geralmente envolvem múltiplos fatores, como presença de outras drogas, condições médicas prévias e falta de socorro rápido. Assim, o falecimento do ator Matthew Perry, em 2023, chamou atenção exatamente por essa combinação de elementos. De acordo com o laudo divulgado à época, a cetamina teve papel relevante no quadro que levou à sua morte, reforçando os alertas de especialistas sobre o uso inadequado da substância, mesmo em pessoas com acesso a cuidados de saúde.
Como reduzir danos e buscar ajuda em relação à cetamina?
Diante do cenário atual, diferentes países têm discutido formas de redução de danos relacionadas à cetamina. Em ambientes clínicos, recomenda-se que o medicamento seja utilizado apenas em serviços autorizados, com profissionais treinados e protocolos claros de segurança. Isso inclui monitorização de pressão, frequência cardíaca, oxigenação e acompanhamento psicológico, além de explicação prévia ao paciente sobre riscos e limites do tratamento.
No contexto do uso recreativo, órgãos de saúde ressaltam que qualquer consumo fora de prescrição eleva significativamente o risco de eventos graves. Campanhas informativas costumam destacar alguns pontos básicos:
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- Evitar misturar cetamina com álcool ou outras drogas.
- Não usar sozinho, pois pode haver perda de consciência.
- Reconhecer sinais de alerta, como dificuldade para respirar ou responder a estímulos.
- Procurar ajuda imediata em caso de sintomas intensos.
- Buscar orientação especializada se o uso se tornar frequente ou difícil de controlar.
Serviços de saúde mental, centros de atenção psicossocial, clínicas de dependência química e linhas telefônicas de apoio podem oferecer acolhimento e encaminhamento adequado. Em 2026, o desafio das autoridades de saúde é equilibrar o potencial terapêutico da cetamina em contextos bem definidos com o alerta sobre seus riscos quando usada sem controle. A informação clara, acessível e baseada em evidências continua sendo uma das principais ferramentas para que a população compreenda a complexidade que envolve essa substância.