Alimentação

Do alimento dos deuses à erva daninha — um tesouro nutricional esquecido

Descubra por que a chufa passou de alimento dos deuses a erva daninha, seus usos atuais e se é mais nutritiva que milho e trigo

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A história da chufa mostra como a percepção sobre um alimento pode mudar ao longo do tempo. Já foi cultivada e valorizada em antigas civilizações, associada a rituais e à alimentação de classes dirigentes. Hoje, em diversas regiões agrícolas do mundo, é tratada como planta invasora que compete com culturas comerciais importantes. Esse contraste desperta dúvidas sobre o que explica essa mudança de status e qual é, afinal, o papel da chufa na alimentação contemporânea.

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Apesar de ser considerada uma erva daninha em muitos sistemas agrícolas, a chufa continua presente em usos tradicionais e em novos nichos de mercado, principalmente ligados a bebidas vegetais e produtos especiais. Sua composição nutricional chama a atenção de pesquisadores e consumidores interessados em diversidade alimentar. O debate atual gira em torno de dois pontos principais: o impacto da chufa no manejo das lavouras e o potencial desse tubérculo como alimento alternativo a grãos como milho e trigo.

O que é e por que virou erva daninha em tantas lavouras?

A chufa, também conhecida como Cyperus esculentus, tiririca-de-tubérculo ou “tigernut” em alguns países, é uma planta que produz pequenos tubérculos comestíveis. Em condições controladas, pode ser cultivada como cultura agrícola. No entanto, em áreas extensivas de milho, soja, trigo, algodão e hortaliças, ela se dispersa facilmente, ocupa espaços entre as fileiras e compete por água, nutrientes e luz.

Esse comportamento agressivo no campo explica por que muitos agricultores classificam a chufa como erva daninha. Os tubérculos ficam enterrados em diferentes profundidades no solo, o que dificulta o controle mecânico. Além disso, muitos deles permanecem viáveis por longos períodos, germinando em safras futuras. Em regiões com irrigação ou clima quente, a chufa encontra condições favoráveis para se multiplicar rapidamente, elevando custos de manejo e reduzindo a produtividade de outras culturas.

Outro fator que reforça a imagem de planta indesejada é a resistência relativa a alguns métodos de controle químico. Em certas áreas, o uso repetido de herbicidas pouco eficientes favoreceu sua persistência. Assim, um tubérculo antes valorizado em contextos tradicionais passou a ser visto, em sistemas agrícolas intensivos, como um entrave econômico que precisa ser combatido.

Pouca gente sabe, mas a chufa — vista como planta invasora no campo — é a base da tradicional horchata espanhola e de produtos sem glúten que ganham espaço no mercado atual – depositphotos.com / luismolinero

Chufa ainda é usada como alimento? Onde ela aparece hoje em dia?

Mesmo com a fama de erva daninha, a chufa continua sendo utilizada em diferentes regiões do mundo. Em países do Mediterrâneo, especialmente na Espanha, os tubérculos são a base de uma bebida conhecida como horchata de chufa, preparada com água, chufa triturada e adoçante. Essa bebida vegetal faz parte da cultura alimentar local e é consumida principalmente em períodos quentes.

Além da horchata, também é usada de outras formas:

  • como tubérculo seco para consumo direto, após hidratação ou torra;
  • na produção de farinha de chufa, empregada em panificação e confeitaria;
  • como ingrediente em barras, granolas e misturas de cereais;
  • em formulações de bebidas vegetais alternativas ao leite de origem animal.

Em alguns países africanos, a chufa ainda integra a alimentação tradicional, sendo consumida fresca, seca ou transformada em pastas e bebidas locais. Há também interesse crescente em mercados especializados, como produtos sem glúten e alimentos destinados a públicos com restrições alimentares. Apesar do uso relativamente restrito quando comparado a milho ou trigo, a chufa mantém um espaço constante em nichos específicos de consumo.

A chufa é nutritiva? Como se compara ao milho e ao trigo?

Em termos nutricionais, a palavra-chave é chufa nutritiva. Os tubérculos apresentam composição diferente da maioria dos grãos. Em geral, a chufa contém:

  • teor relevante de gorduras, em especial gorduras insaturadas;
  • quantidade considerável de fibras alimentares;
  • carboidratos de absorção moderada;
  • pequenas quantidades de proteínas;
  • minerais como potássio, fósforo e magnésio.

Ao comparar chufa, milho e trigo, não há um alimento universalmente “superior”, mas perfis distintos. O milho é fonte importante de carboidratos, alguns carotenoides e, em determinadas variedades, de fibras e pequenas quantidades de proteínas. O trigo se destaca pelo teor de carboidratos complexos e proteínas, além do glúten, que contribui para a estrutura de pães e massas. Já a chufa oferece mais gordura e fibra que muitos grãos, porém costuma ter menos proteína em comparação direta.

Quando se fala em “mais nutritiva”, é preciso considerar o contexto. Para quem busca alimentos ricos em fibras e gorduras insaturadas, a chufa pode ser interessante. Por outro lado, para atender demandas de proteína e energia em larga escala, milho e trigo seguem predominando. Cada um dos três apresenta vantagens e limitações, e são complementares em uma dieta diversificada.

A chufa compete com culturas como milho e trigo, mas também desperta interesse como tubérculo nutritivo e alternativa vegetal – depositphotos.com / asimojet

Quais vantagens e desafios a chufa traz para a alimentação moderna?

A chufa ganhou visibilidade recente em segmentos que buscam variedade de ingredientes, sobretudo em produtos sem glúten e bebidas vegetais. A farinha de chufa, por exemplo, pode ser utilizada em formulações para pessoas que evitam o trigo. Já os tubérculos inteiros ou triturados podem integrar receitas doces e salgadas, contribuindo com sabor levemente adocicado e textura característica.

Entre as possíveis vantagens da chufa no contexto atual, podem ser citados:

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  1. diversificação de fontes vegetais de energia e fibras;
  2. ausência de glúten, o que favorece pessoas com restrições específicas;
  3. potencial uso em bebidas e produtos plant-based;
  4. resiliência da planta em solos e climas variados, quando manejada como cultura.

Por outro lado, há desafios claros. Em muitas áreas agrícolas, o foco principal segue sendo o controle da chufa como planta invasora, não o seu cultivo planejado. A transição de “erva daninha” para “cultura rentável” exige manejo técnico, seleção de áreas adequadas e cadeias de produção e processamento estruturadas. Enquanto isso não se consolida em larga escala, a chufa tende a permanecer, ao mesmo tempo, como problema de manejo nas lavouras e como ingrediente de nicho em mercados específicos.

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