Doença pouco conhecida no Brasil pode afetar pulmões e boca
No meio rural, homens adultos que lidam diariamente com o solo enfrentam maior exposição ao fungo causador da paracoccidioidomicose.
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Embora poucas pessoas fora dos círculos médicos conheçam a paracoccidioidomicose, essa doença impacta de forma relevante a saúde de populações rurais no Brasil e em outros países da América Latina. Trata-se de uma infecção fúngica que compromete principalmente pulmões, mucosas da boca e pele. Quando a equipe de saúde não identifica o problema a tempo, o quadro se torna prolongado e incapacitante. Em um cenário em que doenças infecciosas continuam a desafiar os sistemas de saúde, essa micose sistêmica aparece como um problema silencioso. Além disso, ela se liga diretamente ao modo de vida e às condições de trabalho no campo.
No meio rural, homens adultos que lidam diariamente com o solo enfrentam maior exposição ao fungo causador da paracoccidioidomicose. Muitas vezes, a pessoa passa anos sem saber que teve contato com o microrganismo. Somente quando surgem sinais respiratórios, feridas na boca ou perda de peso o quadro começa a chamar a atenção. O desconhecimento da população sobre essa doença favorece o atraso no diagnóstico. Desse modo, serviços de referência ainda observam casos avançados com frequência.
O que é paracoccidioidomicose e como ocorre a infecção?
A paracoccidioidomicose corresponde a uma micose sistêmica causada por fungos do gênero Paracoccidioides. Esses fungos vivem no solo, especialmente em áreas úmidas e de clima tropical ou subtropical. A infecção acontece principalmente pela inalação de partículas fúngicas muito pequenas. A pessoa aspira essas partículas quando alguém revolve a terra em atividades como plantio, colheita, capina ou construção. Essa doença não se transmite de pessoa para pessoa. Portanto, ela se diferencia de muitas infecções respiratórias conhecidas pelo público.
Depois de entrar pelas vias respiratórias, o fungo se instala nos pulmões. Em alguns casos, ele permanece em estado latente por longos períodos. Em determinadas situações, como queda de imunidade ou exposição intensa, a infecção se reativa ou progride. Então, o fungo se espalha da região pulmonar para outros órgãos. Assim, a micose paracoccidioidomicótica assume formas clínicas variadas. Os quadros vão desde manifestações leves e localizadas até apresentações mais extensas, com acometimento de mucosas, pele, gânglios linfáticos e órgãos internos.
Paracoccidioidomicose: quais são os sintomas mais comuns?
Os sinais da paracoccidioidomicose costumam se desenvolver de maneira lenta. Esse comportamento contribui para a demora na procura por atendimento médico. Na forma mais frequente em adultos, os sintomas respiratórios chamam atenção. Tosse persistente, catarro, falta de ar aos esforços e dor torácica aparecem e se confundem com outras doenças. Entre elas, destacam-se a tuberculose e a bronquite crônica. Em muitos casos, a pessoa relata histórico prolongado de tabagismo, o que torna o quadro clínico ainda mais complexo.
Além das manifestações pulmonares, o paciente frequentemente apresenta lesões na boca e na região da garganta. Essas alterações surgem como feridas que não cicatrizam, sangram com facilidade e dificultam a alimentação e a fala. Em paralelo, o indivíduo pode apresentar emagrecimento acentuado, febre baixa, cansaço contínuo e aumento de gânglios no pescoço, axilas ou virilha. Em crianças e adolescentes com infecção ativa, costuma predominar o comprometimento de linfonodos e órgãos do sistema linfático. Nesses casos, várias partes do corpo apresentam aumento de volume.
- Sintomas respiratórios: tosse crônica, escarro, falta de ar.
- Lesões de mucosa: feridas na boca, gengivas, lábios e garganta.
- Manifestações gerais: perda de peso, febre prolongada, fadiga.
- Comprometimento linfonodal: gânglios aumentados e dolorosos.
Quem são os grupos mais afetados por essa micose?
A doença acomete principalmente trabalhadores rurais de áreas endêmicas, com destaque para homens entre 30 e 60 anos. Estudos indicam a exposição ocupacional como um dos fatores mais relevantes. Essa exposição envolve atividades como agricultura, pecuária, extração de madeira e construção em zonas rurais. Em muitas regiões, profissionais de saúde consideram a paracoccidioidomicose uma doença ocupacional. Ela se relaciona diretamente ao contato repetido com o solo.
Mulheres também podem apresentar a micose, embora apareçam em menor frequência. Crianças e adolescentes, quando afetados, tendem a manifestar uma forma mais aguda, com evolução rápida. Nesses casos, o comprometimento do sistema imune se torna mais intenso. Pessoas com condições que diminuem as defesas do organismo, como desnutrição, consumo abusivo de álcool ou outras doenças crônicas, correm maior risco de desenvolver quadros mais graves. Além disso, a urbanização de áreas rurais e a migração de trabalhadores favorecem o surgimento de casos em centros urbanos. Muitas vezes, esses casos aparecem longe do local onde ocorreu a exposição inicial.
Qual é a situação da paracoccidioidomicose no Brasil e na América Latina?
A paracoccidioidomicose se caracteriza como uma micose endêmica da América Latina. Países como Brasil, Colômbia, Venezuela, Argentina e Paraguai concentram o maior número de casos. O Brasil responde por uma parcela significativa das notificações, especialmente nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Nesses locais, a combinação de clima, tipo de solo e atividades agrícolas favorece a presença do fungo. Apesar dessa realidade, a população ainda conhece pouco a doença. Em muitos lugares, gestores de saúde nem sempre incluem essa micose entre as prioridades em saúde pública.
Estudos epidemiológicos estimam que milhares de pessoas convivam com a micose paracoccidioidomicótica, muitas vezes sem diagnóstico definido. A ausência de um sistema de notificação universal em todos os estados dificulta a construção de um panorama preciso. Mesmo assim, hospitais universitários e centros de referência registram carga importante de internações e afastamentos do trabalho. Em áreas rurais com menor acesso a serviços de saúde, o impacto tende a ser maior. Nesses contextos, ocorre demora no atendimento e dificuldade para manter o tratamento prolongado.
Por que o diagnóstico precoce da paracoccidioidomicose é tão importante?
Quando a equipe de saúde identifica a doença nas fases iniciais, ela consegue iniciar o tratamento antes que surjam danos extensos. Assim, o profissional evita lesões mais graves nos pulmões, nas mucosas e em outros órgãos. O diagnóstico se baseia em um conjunto de elementos. Entre eles, destacam-se o histórico de exposição ao meio rural, a avaliação clínica detalhada, exames de imagem e testes laboratoriais. Muitas vezes, o médico também solicita análise microscópica de amostras de secreções ou fragmentos de lesões. Quando o profissional levanta a suspeita logo nas primeiras consultas, o caminho até a confirmação costuma ser mais rápido.
O tratamento da paracoccidioidomicose utiliza medicamentos antifúngicos, que o paciente precisa tomar por vários meses. Em alguns casos, o uso se estende por mais de um ano, dependendo da gravidade e da resposta clínica. A pessoa deve manter adesão rigorosa ao esquema prescrito para evitar recaídas. Dessa forma, ela também reduz o risco de sequelas, como fibrose pulmonar e dificuldades respiratórias permanentes. Nesse contexto, o acompanhamento ambulatorial, o acesso regular aos remédios e a orientação clara sobre a doença fazem grande diferença na evolução clínica. Profissionais de saúde também podem integrar ações educativas para estimular a procura precoce por diagnóstico.
- Reconhecimento precoce de sintomas em áreas endêmicas.
- Busca de atendimento médico em caso de tosse crônica ou feridas na boca.
- Realização de exames específicos quando surgir suspeita de micose sistêmica.
- Início rápido do tratamento antifúngico e seguimento regular.
Impactos sociais e desafios para a saúde pública
Os efeitos da paracoccidioidomicose ultrapassam o campo individual e alcançam a esfera social. Como a doença atinge em grande parte trabalhadores rurais em idade produtiva, ela pode resultar em afastamentos prolongados do trabalho, perda de renda e dependência econômica de familiares. Em casos com sequelas respiratórias, a pessoa enfrenta dificuldade para realizar tarefas físicas intensas. Assim, a participação em atividades agrícolas e em outras ocupações que exigem esforço fica bastante limitada.
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Do ponto de vista da saúde pública, a doença impõe desafios adicionais. A necessidade de tratamento longo, o acompanhamento periódico e a possibilidade de internações sucessivas exigem estrutura de atendimento contínuo. Além disso, gestores precisam planejar oferta estável de medicamentos antifúngicos no sistema público. Especialistas apontam a ampliação da informação sobre a paracoccidioidomicose entre profissionais da atenção primária e entre comunidades rurais como estratégia central para reduzir diagnósticos tardios. A integração entre vigilância em saúde, programas voltados a doenças tropicais negligenciadas e políticas de proteção ao trabalhador rural representa um caminho importante. Dessa forma, a região pode diminuir o impacto dessa micose sistêmica na população.