Uma fêmea de 5 metros ajudou a revelar que um tubarão pode atravessar séculos vivo. O tubarão-da-Groenlândia cresce tão lentamente que cientistas recorreram às proteínas dos olhos para estimar sua idade, chegando a uma faixa de 272 a 512 anos para o maior exemplar analisado, com ampla margem estatística.
Por que é tão difícil descobrir a idade desse tubarão?
A espécie Somniosus microcephalus não oferece estruturas rígidas com anéis anuais fáceis de contar, como ocorre em alguns peixes. Seu esqueleto é cartilaginoso e o crescimento é lento, então métodos comuns de estimativa de idade não resolvem bem o problema.
Essa dificuldade levou pesquisadores a procurar uma parte do corpo que preservasse material antigo. A solução apareceu no cristalino dos olhos, cuja região central contém proteínas formadas muito cedo na vida e que permanecem relativamente estáveis ao longo das décadas.

Como proteínas do olho podem indicar uma idade de séculos?
Como aquelas proteínas foram produzidas antes do nascimento, elas funcionam como uma espécie de marcador temporal. A análise mede carbono radioativo presente nesse material e compara o resultado com referências conhecidas, produzindo uma estimativa estatística para o momento em que o animal começou a vida.
A técnica aplicada a 28 fêmeas mostrou que o maior exemplar, com cerca de 5 metros, tinha idade central estimada em 392 anos, com intervalo de 272 a 512 anos. Essa faixa expressa incerteza, não uma data de nascimento exata.
O que os olhos revelaram sobre o crescimento da espécie?
O resultado combina com outro traço do animal: crescimento muito lento. Quanto maior o corpo encontrado, maior tende a ser a idade estimada, o que ajuda a explicar por que exemplares com vários metros podem ter vivido por períodos muito superiores a uma vida humana.
Os principais sinais reunidos foram:
- Proteínas antigas: ficam preservadas no centro do cristalino.
- Datação por carbono: fornece uma faixa provável de idade.
- Corpo muito grande: combina com décadas ou séculos de crescimento lento.
- Ampla incerteza: impede tratar o número como idade exata.

Por que a estimativa de 272 anos já é tão impressionante?
Mesmo usando o limite inferior do intervalo, o maior animal analisado teria vivido por pelo menos cerca de 272 anos. Isso coloca a espécie em um patamar extremo entre vertebrados e mostra como ambientes frios podem abrigar ciclos de vida muito diferentes dos observados em animais mais familiares.
O método também indicou maturidade sexual em idade avançada. A explicação do uso das proteínas do cristalino ajuda a entender por que uma estrutura tão pequena do olho pode registrar informações que o restante do esqueleto não preserva.
O que essa longevidade muda na forma de olhar para a espécie?
Uma vida que pode atravessar séculos significa que cada geração demora muito para ser substituída. O animal cresce devagar, amadurece tarde e depende de um ciclo biológico longo, combinação que torna sua população diferente de espécies capazes de se reproduzir rapidamente.
O dado mais importante, portanto, não é imaginar um indivíduo com idade exata de 512 anos, mas compreender a escala. A longevidade estimada em séculos transforma o animal em um dos exemplos mais extremos conhecidos de crescimento lento e vida prolongada entre vertebrados.
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