Era quase meio-dia quando a dúvida surgiu. A senhora, de 78 anos, olhou a cartela de comprimidos e não conseguiu lembrar se havia tomado o remédio da manhã. A rotina era corrida, o café havia sido interrompido por uma ligação, e a memória do gesto simplesmente não estava lá. A pergunta que passou pela cabeça dela foi direta: “tomo de novo, só para garantir?”.
A filha, ao lado, hesitou. De um lado, o medo de a mãe ficar sem o efeito do medicamento; de outro, o receio de dobrar a dose sem necessidade. A tentação de improvisar era grande, porque “repetir para não esquecer” parece inofensivo. Só parece.
Repetir uma dose por conta própria pode transformar um esquecimento em intoxicação. Dependendo do medicamento, o excesso provoca queda de pressão, sonolência intensa, alterações no coração ou no açúcar do sangue. O que era uma incerteza banal vira um risco concreto, sobretudo em quem usa vários remédios ao mesmo tempo.
Por que não dobrar a dose

Campanhas oficiais sobre uso racional de medicamentos são claras: remédio não deve ser tomado sem orientação de um profissional de saúde, e alterar dose ou horário por iniciativa própria é justamente o tipo de conduta que causa acidentes. A bula existe para orientar, e muitas delas trazem instruções específicas sobre o que fazer diante de uma dose esquecida, sem recomendar simplesmente somar duas de uma vez.
* Lista de controle atualizada: Mantenha nome, dosagem e horários impressos na geladeira ou junto às caixas.
* Rede de apoio familiar: Divida o acompanhamento entre os parentes para certificar-se de que a medicação não foi ofertada em duplicidade.
Em idosos, o cuidado é ainda maior. É comum haver polifarmácia, o uso simultâneo de vários medicamentos, o que aumenta a chance de interação e de erro. Nesse contexto, a decisão de “reforçar” a dose sem checar pode ter efeitos que a pessoa não percebe de imediato.
Alerta: quando buscar ajuda na hora
Se, após tomar o remédio, surgirem sinais como confusão, tontura forte, vômito, batimentos irregulares, dificuldade para respirar ou sonolência excessiva, a orientação é acionar o SAMU pelo 192 ou procurar um serviço de saúde imediatamente. Na dúvida sobre uma possível superdosagem, não espere piorar para pedir socorro; leve consigo as embalagens dos medicamentos para que a equipe saiba exatamente o que foi ingerido.
Como evitar o esquecimento
Prevenir é mais simples do que remediar. Algumas estratégias ajudam a organizar a rotina:
- use um organizador semanal de comprimidos, dividido por dia e horário;
- anote em uma tabela o momento em que cada dose é tomada;
- configure alarmes no celular para os horários dos remédios;
- em caso de dúvida sobre uma dose específica, consulte o farmacêutico ou o médico antes de repetir.
Essas medidas reduzem a insegurança e tiram da pessoa idosa o peso de confiar apenas na memória. O farmacêutico da unidade de saúde ou da farmácia costuma orientar sobre o que fazer em caso de esquecimento, sem custo. Situações que envolvem a relação entre consumidores e farmácias aparecem também em esta reportagem sobre direitos de quem compra remédio.
O que a bula costuma orientar

Boa parte das bulas traz um item específico sobre a dose esquecida. A recomendação frequente é tomar assim que lembrar, desde que ainda esteja longe do horário seguinte; se já estiver perto da próxima dose, muitas orientam pular a que foi esquecida e seguir o horário normal, sem duplicar. Como cada remédio é diferente, ler esse trecho antes de agir evita tanto a falta quanto o excesso. Guardar a bula junto da caixa, em vez de descartá-la, poupa a família de decisões no escuro.\n
Vale ainda manter uma lista atualizada de tudo que a pessoa idosa usa, com nome, dose e horário de cada item. Essa lista ajuda o farmacêutico e o médico a orientar com precisão e é especialmente útil em uma emergência, quando a equipe de saúde precisa saber rapidamente o que foi tomado. Um cuidado tão simples quanto anotar pode ser o que evita uma internação. Envolver mais de um familiar na organização dos horários também distribui a responsabilidade e reduz a chance de a mesma dose ser oferecida duas vezes por pessoas diferentes.\n
O recado desta cena imaginada é de prudência: na dúvida, não dobre a dose por conta própria. Consultar a bula, ligar para o farmacêutico ou o médico e, diante de mal-estar, acionar o 192 são respostas mais seguras do que improvisar. Cada medicamento tem particularidades, e orientação profissional é o que garante o uso correto, especialmente para quem cuida de pessoas idosas em casa.
Fontes: Anvisa — uso racional de medicamentos e Anvisa — informações de bula.




