Foi no fim da tarde que a família Prado ouviu um barulho na varanda. Um macaco pequeno, aparentemente machucado numa das patas, se encolhia perto das plantas. As crianças se aproximaram, encantadas e preocupadas ao mesmo tempo. O primeiro impulso de todos foi o mesmo: oferecer comida, começando por duas bananas e um pote de água.
A intenção era boa. O animal parecia assustado, e dar de comer soava como o gesto mais natural do mundo. Alguém pegou o celular para filmar de perto, outro tentou estender a mão para “acalmar”. A varanda virou, em minutos, um pequeno teatro de boas intenções perigosas.
O que a família não sabia é que quase tudo ali funcionava ao contrário do imaginado. Aproximar-se, tocar e alimentar um animal silvestre ferido tende a piorar a situação: estressa o bicho, atrai mais indivíduos ao local, pode transmitir doenças em ambos os sentidos e ainda atrapalha o trabalho de quem sabe resgatar. Cuidar, nesse caso, é fazer menos, e não mais.
A virada de entendimento veio quando um vizinho avisou que oferecer comida à fauna silvestre não é só arriscado; pode ser infração. Foi aí que a curiosidade deu lugar à cautela.
Enquanto discutiam o que fazer, o macaco se agitou e mostrou os dentes ao sentir a aproximação. Ninguém foi mordido, mas o susto escancarou o óbvio: um animal ferido e acuado se defende, e uma mordida ou arranhão de bicho selvagem não é incidente banal. O carinho imaginado poderia terminar em pronto-socorro.
Por que menos contato é a atitude correta

A Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/1998), no artigo 29, trata como infração perseguir, apanhar ou utilizar espécimes da fauna silvestre sem a devida permissão, e a lógica de proteção alcança também condutas que interferem no animal. Traduzindo para a varanda dos Prado: capturar, prender em caixa, criar como bicho de estimação ou habituar à comida humana são caminhos que prejudicam o animal e podem gerar responsabilização. O resgate é tarefa de quem tem estrutura para isso.
Alimentar também desorienta. Um macaco que aprende a receber comida de gente perde o medo, volta, se aproxima de fios e telhados e passa a viver um conflito permanente com a vizinhança. O gesto que parecia carinho vira armadilha para o próprio bicho.
Passado o susto, a família fechou a porta que dava para a varanda e observou pela janela. Reduzir o movimento e as vozes fez o macaco se acalmar um pouco, prova de que o ambiente silencioso ajuda mais do que qualquer tentativa de aproximação bem-intencionada.
Quem chamar e o que fazer enquanto ajuda não chega

O caminho oficial é acionar o Cetas, ligado ao Ibama, ou o órgão ambiental do seu município ou estado, que orientam sobre o resgate de fauna. Se houver risco imediato às pessoas ou ao animal, o Corpo de Bombeiros, pelo 193, é a referência para emergências. Enquanto a ajuda não chega, o melhor é manter distância, recolher crianças e animais domésticos, não oferecer comida nem água, reduzir barulho e observar de longe para informar a localização exata.
Convém lembrar que o que serve para um pet não serve para a fauna: dieta, manejo e cuidados são completamente diferentes. Sobre alimentação de bichos, aliás, o EM Foco já listou 3 alimentos comuns que podem ser tóxicos para cães e gatos, segundo veterinários — mais um lembrete de que boa vontade sem informação faz estrago.
Há ainda a questão da saúde de todos. Animais silvestres podem carregar agentes que causam doenças transmissíveis, e o contato próximo, sem qualquer proteção, expõe a família a um risco desnecessário. Se alguém for mordido ou arranhado, lavar bem o local e procurar atendimento médico é indispensável, e o socorro de urgência pode ser acionado pelo Samu, no 192.
Depois que o animal é resgatado
Registrar fotos à distância, anotar horário e comportamento do animal e passar essas informações aos profissionais facilita a avaliação. Não se deve tentar medicar, dar leite ou “soltar em outro lugar” por conta própria, porque a destinação correta depende da espécie, do tipo de ferimento e das regras ambientais. Cada situação é única e precisa da análise do órgão competente.
O aprendizado dos Prado cabe em uma frase: diante de um animal silvestre ferido, o cuidado se mede pela distância mantida, não pela comida oferecida. Chamar quem entende, afastar-se e proteger as crianças é o que dá ao bicho a chance real de voltar para onde ele pertence, e mantém a casa segura no processo.
Fontes: Ibama — Cetas e Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/1998).




