Restaurar uma ponte suspensa exige cuidar da estrutura antes de retirar justamente as peças que a mantêm no ar. Em Florianópolis, a Ponte Hercílio Luz ficou totalmente interditada de 1991 a 2019. Para recuperar suas raras barras de olhal, engenheiros apoiaram temporariamente o vão central e transferiram milhares de toneladas para uma estrutura auxiliar montada sobre a baía.
Por que a Ponte Hercílio Luz foi fechada em 1991?

A interdição total ocorreu porque a deterioração das barras de olhal, chapas metálicas articuladas que trabalham em conjunto como correntes, comprometia a segurança. A ponte havia sido fechada em 1982, reaberta parcialmente em 1988 para usuários leves e novamente interditada em 1991. A cronologia é preservada pelo projeto Ponte Viva da Prefeitura de Florianópolis.
Na última interdição, a retirada do piso asfáltico do vão central aliviou cerca de 400 toneladas. Sem tráfego e com a estrutura envelhecida, a ponte permaneceu como uma silhueta sobre a baía, visível todos os dias, mas sem cumprir a função para a qual havia sido inaugurada.
Como foi possível trocar peças que sustentavam o vão central?
A solução foi instalar apoios provisórios sob a ponte e transferir para eles o peso que antes passava pelas barras de olhal. Assim, elementos críticos puderam ser reparados ou substituídos sem deixar o vão central sem sustentação. Depois, a carga precisou voltar gradualmente ao sistema original, com medições e ajustes a cada etapa.
Em 2019, uma das operações devolveu a carga a 360 barras de olhal, conforme o registro do Governo de Santa Catarina. Meses depois, a etapa final transferiu os últimos 20% e deixou a ponte novamente sustentada por sua própria estrutura. O momento invisível para quem vê a ponte de longe foi um dos pontos decisivos da restauração.
O que torna a Ponte Hercílio Luz rara na engenharia?
A Hercílio Luz é a maior ponte suspensa do Brasil e a mais longa ainda existente com suspensão por barras de olhal. Possui 821 metros de extensão total e foi inaugurada em 13 de maio de 1926, números reunidos pela Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina (Alesc) no centenário da obra.
Diferentemente dos cabos formados por milhares de fios, as barras são peças planas e rígidas ligadas por pinos nas extremidades. O conjunto transmite o peso do tabuleiro às torres e às ancoragens. Preservá-lo manteve a identidade técnica do projeto e evitou transformar a ponte histórica em uma réplica com aparência semelhante, mas funcionamento diferente.
Por que a primeira ligação rodoviária mudou Florianópolis?
A ponte eliminou a dependência exclusiva de balsas entre a Ilha de Santa Catarina e o continente. As obras começaram em 1922, e cerca de 5 mil toneladas de aço foram importadas dos Estados Unidos em quatro navios. Quando inaugurada, a ligação ajudou a consolidar Florianópolis como capital e mudou o movimento de pessoas e mercadorias.
O nome também guarda uma virada. O projeto seria chamado Ponte da Independência, mas recebeu o nome do governador Hercílio Pedro da Luz, que morreu em 1924 e não viu a obra concluída. A estrutura nasceu como infraestrutura de mobilidade e, com o tempo, tornou-se uma imagem inseparável da cidade.
Quanto da ponte precisou ser substituído na restauração?

Aproximadamente 40% da estrutura metálica foi substituída até a reabertura, de acordo com a Alesc. O percentual mostra por que a obra foi maior do que pintura e manutenção superficial, mas também revela que uma parcela considerável do material histórico permaneceu integrada ao conjunto recuperado.
A ponte voltou ao tráfego em 30 de dezembro de 2019, após 28 anos de interdição total. O retorno não encerrou a necessidade de inspeções, controle de uso e manutenção contínua. Estruturas metálicas expostas à atmosfera marinha exigem acompanhamento permanente, especialmente quando também são patrimônio histórico.
A recuperação precisou conciliar duas metas que podem entrar em tensão. Substituir tudo por peças novas facilitaria algumas decisões técnicas, mas reduziria a autenticidade material do monumento. Manter componentes deteriorados sem reforço, por outro lado, comprometeria a segurança. O resultado preserva elementos históricos onde foi possível e incorpora materiais novos onde os cálculos, ensaios e inspeções indicaram necessidade.
A ponte que voltou sem apagar o passado
A restauração da Hercílio Luz resolveu um problema incomum: devolver função a uma obra quase centenária sem eliminar o sistema estrutural que a tornou rara. O apoio provisório assumiu o peso apenas pelo tempo necessário para que as barras históricas voltassem a trabalhar. A solução temporária permitiu recuperar uma permanência desejada pela cidade.
Hoje, atravessar a baía pela ponte significa passar sobre duas histórias simultâneas. Uma começou em 1926, com a primeira ligação rodoviária da ilha; a outra em 2019, quando a cidade recuperou uma estrutura que durante quase três décadas parecia destinada apenas a ser contemplada de longe.




