A primeira invenção humana capaz de criar suas próprias mentiras
Publicado em setembro de 2024, Nexus: Uma Breve História das Redes de Informação da Idade da Pedra à IA é o novo livro do historiador israelense Yuval Noah Harari, autor de Sapiens. A obra parte de uma premissa que desconforta: informação não é sinônimo de verdade. Harari argumenta que, ao longo de toda a história humana, as redes de comunicação serviram principalmente para criar ordem e cooperação em massa, e não para aproximar as pessoas da realidade factual. É nesse contexto que ele analisa o que a inteligência artificial representa: não apenas uma ferramenta nova, mas o primeiro sistema capaz de gerar suas próprias ideias e agir de forma independente, segundo o site oficial de Harari.

Qual é o argumento central do livro?
Harari propõe que os Sapiens dominaram o planeta não por serem os mais racionais, mas por serem os mais capazes de criar e compartilhar ficções coletivas: mitos, religiões, leis, moedas e burocracias. Essas ficções constroem as chamadas realidades intersubjetivas, que existem porque muita gente acredita nelas ao mesmo tempo. É o que une impérios, mercados e movimentos políticos.
O problema, segundo o autor, é que as mesmas redes que criam cooperação facilitam a disseminação de desinformação em escala. Grupos humanos se unem mais facilmente em torno de narrativas simples e emocionais do que de verdades complexas. Isso explica, na visão de Harari, por que uma espécie inteligente toma decisões políticas e ecológicas autodestrutivas com tanta regularidade.
Como Harari traça a história das redes de informação?
O livro percorre milênios para mostrar que cada salto tecnológico na comunicação gerou tanto cooperação quanto destruição. A imprensa de Gutenberg, por exemplo, permitiu a Reforma Protestante e também alimentou as caças às bruxas do século XVI. Cada nova rede amplificou tanto a capacidade humana de construir quanto de destruir.
A linha do tempo central do livro segue esta progressão:
Por que a IA é um ponto de virada diferente de todos os anteriores?
Porque, ao contrário da imprensa ou do rádio, a inteligência artificial não é apenas uma ferramenta que amplifica a voz humana. É a primeira tecnologia capaz de criar ideias originais e tomar decisões de forma independente, sem intervenção de um ser humano a cada passo. Harari a chama de “inteligência alienígena”, não porque seja marciana, mas porque opera com uma lógica que não é humana e pode perseguir objetivos que nós mesmos não definimos claramente.
Os principais riscos identificados no livro são:
- Algoritmos de redes sociais que transformam toda emoção humana em “engajamento”, priorizando raiva e ódio por gerarem mais cliques.
- Sistemas de vigilância que permitem a regimes autoritários monitorar e controlar o comportamento individual em tempo real.
- A possibilidade de a IA gerar suas próprias realidades intersubjetivas, histórias e crenças, fora do controle de quem a criou.
- O que Harari chama de “Cortina de Silício”, uma divisão entre humanos e sistemas algorítmicos que pode superar até a divisão entre democracias e ditaduras.

Qual é a saída proposta por Harari?
O autor não termina o livro em tom apocalíptico. A proposta central é construir mecanismos autocorretivos nas democracias, instituições que combinem o poder dos computadores com supervisão humana e garantam que as ferramentas algorítmicas sejam seguras e justas. Para Harari, a chave está justamente no que diferencia democracias de regimes totalitários: a capacidade de reconhecer erros e se corrigir, segundo resenha do Australian Book Review.
A ciência e a democracia têm isso em comum: ambas operam por revisão constante, aceitam que estavam erradas e ajustam o curso. É esse modelo que Harari sugere aplicar à regulação da IA, antes que sistemas capazes de criar suas próprias narrativas passem a escrever a história no lugar dos humanos.
Para quem o livro é indicado?
Para quem quer entender a IA não apenas como fenômeno tecnológico, mas como capítulo de uma história muito mais longa sobre como os humanos constroem e destroem o mundo com palavras, mitos e dados. Nexus é uma leitura densa, que exige disposição para questionar certezas, mas oferece um dos quadros históricos mais abrangentes já escritos sobre o papel da informação na civilização humana.
Se você já se perguntou por que uma espécie tão inteligente parece tão incapaz de evitar suas próprias catástrofes, este livro tenta responder à pergunta com 100.000 anos de evidências, e a resposta não é tranquilizadora. Mas é, segundo a crítica especializada, urgente e necessária.




