O deserto de Nazca acaba de revelar que ainda guardava muito mais do que seus famosos beija-flores e macacos vistos do alto. Um estudo publicado em 2024 na Proceedings of the National Academy of Sciences identificou, com apoio de inteligência artificial, 303 geoglifos até então desconhecidos no Peru, incluindo lhamas, figuras humanas, cenas cerimoniais e até orcas segurando facas.
A inteligência artificial revelou novos desenhos de Nazca
As Linhas de Nazca são conhecidas por seus desenhos gigantes feitos no solo do deserto peruano, muitos atribuídos à cultura Nazca, que floresceu aproximadamente entre 200 a.C. e 600 d.C. Antes do novo levantamento, pesquisadores já haviam identificado cerca de 430 geoglifos figurativos na região.
No estudo liderado por Masato Sakai, da Universidade de Yamagata, no Japão, um modelo de inteligência artificial analisou imagens de satélite em busca de traços quase apagados. Em apenas seis meses, a equipe encontrou 303 novos desenhos, um avanço considerado expressivo para a arqueologia da região.

O que os novos geoglifos mostram?
Os desenhos recém-identificados incluem figuras humanas, animais domésticos, peixes, aves, felinos, pessoas interagindo com animais e possíveis cenas cerimoniais. Muitos são menores, mais antigos e menos nítidos do que os geoglifos já famosos, o que explica por que passaram despercebidos por tanto tempo.
Entre as imagens mais surpreendentes estão orcas empunhando armas. Segundo Sakai, cerâmicas do período Nazca já mostravam orcas com facas cortando cabeças humanas, o que permite associar essas figuras a rituais, sacrifícios e ao universo simbólico dessa antiga civilização.
Como os Nazca criavam essas imagens no deserto?
Os geoglifos eram feitos com uma técnica simples e impressionante: os Nazca removiam a camada superficial avermelhada de pedras do deserto, revelando um solo mais claro por baixo. O contraste formava linhas visíveis, preservadas por séculos graças ao clima seco e à baixa erosão da região.
Alguns desenhos figurativos chegam a dezenas ou centenas de metros, enquanto formas geométricas podem alcançar extensões ainda maiores. Entre os elementos mais citados pelos pesquisadores estão:
- Lhamas e outros animais ligados ao cotidiano andino.
- Figuras humanas em posições simbólicas.
- Aves, felinos, peixes e possíveis cenas rituais.
- Orcas com armas, associadas a imagens de sacrifício em cerâmicas Nazca.

Por que a descoberta tem tanto peso arqueológico?
O estudo mostrou que a IA conseguiu detectar contornos cerca de 20 vezes mais rápido do que a análise humana tradicional. Depois das indicações do modelo, os pesquisadores realizaram mais de 2.600 horas de inspeção manual, além de registros com drones e verificações em campo.
Esse cuidado foi essencial porque a tecnologia aponta possibilidades, mas a confirmação depende do olhar arqueológico. Para especialistas, o avanço ajuda a mapear uma área vasta e difícil, onde ainda não existe um registro completo de todos os geoglifos preservados no deserto.
O que Nazca ainda pode nos revelar?
A UNESCO reconheceu as Linhas de Nazca como Patrimônio Mundial em 1994 e descreve o conjunto como uma manifestação notável de religião comum e organização social. Mesmo assim, o objetivo exato das figuras permanece em debate, com hipóteses ligadas a rituais, espiritualidade, território e memória coletiva.
A nova descoberta prova que o passado ainda fala, mas exige atenção antes que desapareça. Se a IA já sinalizou cerca de 250 possíveis geoglifos ainda não verificados, cada nova linha pode mudar o que sabemos sobre os Nazca. Preservar esse patrimônio agora é proteger respostas que ainda estão enterradas no deserto.




