Ladeiras de pedra, casarões coloridos e igrejas barrocas que despontam no alto de cada colina. Olinda, em Pernambuco, guarda quase cinco séculos de história em pouco mais de um quilômetro quadrado de centro histórico. Foi a vila mais rica do Brasil Colônia e hoje atrai turistas do mundo inteiro, no Carnaval e fora dele.
O que poucos brasileiros sabem sobre a história da cidade
Conta a tradição que o donatário português Duarte Coelho, ao avistar as colinas verdejantes do alto, exclamou: “Ó, linda situação para se construir uma vila!”. A frase teria batizado o lugar, fundado em 1535 e logo enriquecido pela cana-de-açúcar. No século XVI, a vila ficou tão próspera que cronistas como Pero de Magalhães Gândavo a apelidaram de “pequena Lisboa”.
Em 1630, os holandeses invadiram a capitania. Um ano depois, considerando a cidade mal posicionada para seus interesses portuários, retiraram os materiais nobres das edificações e incendiaram quase tudo, transferindo a sede para o Recife. Restou pouco do casario original, mas foi justamente a reconstrução nos séculos seguintes que deu ao destino sua identidade barroca, com cerca de 1.500 imóveis preservados em apenas 1,2 km² de sítio histórico, segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
Há ainda um capítulo que poucos lembram: em 1827, a cidade abrigou uma das duas primeiras faculdades de Direito do país, ao lado da de São Paulo. Em 2006, tornou-se a primeira Capital Brasileira da Cultura.

Reconhecimento nacional e internacional
O conjunto arquitetônico foi tombado pelo IPHAN em 1968 e declarado Monumento Nacional pelo Congresso em 1980. Em 14 de dezembro de 1982, recebeu o título de Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Foi a segunda cidade brasileira a entrar na lista, atrás apenas de Ouro Preto, em Minas Gerais.
A Prefeitura de Olinda registra que o processo durou quatro anos e foi articulado pelo designer pernambucano Aloisio Magalhães. O reconhecimento internacional coloca o centro histórico ao lado de monumentos como a Catedral de Notre-Dame e a Cidade do Vaticano.
A cultura local também ganhou destaque mundial, conforme registra a Fundação Joaquim Nabuco. O frevo, ritmo dançado nas ladeiras durante o Carnaval, foi reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2012.

O que fazer no destino pernambucano
Caminhar é o melhor jeito de conhecer o sítio histórico, já que as ruas estreitas e as ladeiras de pedra revelam novas paisagens a cada esquina. A cidade combina turismo cultural e religioso com mirantes naturais e oficinas de arte popular:
- Alto da Sé: mirante mais famoso da cidade, com vista panorâmica do Recife, do mar e do centro histórico.
- Catedral Sé de Olinda: igreja-símbolo do destino, construída originalmente em 1535 e dedicada a Nosso Senhor Salvador do Mundo.
- Basílica e Mosteiro de São Bento: fundado em 1586, abriga o famoso altar-mor folheado a ouro, um dos mais ricos do barroco brasileiro.
- Convento de São Francisco: o primeiro convento franciscano do Brasil, fundado em 1585, com azulejos portugueses originais.
- Museu de Arte Sacra de Pernambuco: instalado no antigo Palácio Episcopal e em funcionamento desde 1977.
- Mercado da Ribeira: ponto de artesanato local, com os tradicionais bonecos de Olinda em miniatura e peças em barro.
A gastronomia mistura raízes indígenas, africanas e portuguesas em sabores marcantes da culinária pernambucana:
- Tapioca do Alto da Sé: vendida nas barracas das tradicionais tapioqueiras, é considerada patrimônio imaterial da cidade.
- Bolo Souza Leão: cremoso, à base de massa de mandioca, leite de coco e gemas, tem status de Patrimônio Cultural Imaterial de Pernambuco.
- Bolo de rolo: doce fino de massa enrolada e recheio de goiabada, também tombado como patrimônio estadual.
- Cartola: sobremesa quente de banana com queijo coalho assado, canela e açúcar.
- Caldinho de sururu: servido em copinhos pelos bares do sítio histórico, com sabor intenso de molusco e coentro.
Quem quer descobrir as riquezas culturais de um roteiro histórico inesquecível, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Tesouros do Brasil, que conta com mais de 92 mil visualizações, onde João Vitor faz uma imersão completa no sítio histórico de Olinda:
A maior corrida de bonecos gigantes do mundo
Nenhum símbolo traduz melhor o Carnaval olindense que os bonecos gigantes. A tradição chegou a Pernambuco no início do século XX e ganhou as ladeiras da cidade em 1932, com o nascimento do Homem da Meia-Noite.
Hoje a folia reúne centenas dessas figuras de até quatro metros na Corrida dos Bonecos Gigantes, que desfila pelo sítio histórico e arrasta multidões. Ao lado do frevo e dos blocos que ensaiam o ano inteiro nas ladeiras do Carmo e do Amparo, eles fazem do Carnaval de Olinda um dos mais populares do país, gratuito e dançado a pé.
Qual a melhor época para visitar Olinda?
A melhor época vai de setembro a fevereiro, período menos chuvoso que coincide com o Carnaval, principal atração da cidade. O clima é tropical quente o ano inteiro, com duas estações bem definidas, conforme a tabela:
Temperaturas aproximadas conforme o Climatempo. Condições podem variar ao longo do ano.
Como chegar até a cidade histórica
O acesso mais comum é pelo Aeroporto Internacional do Recife (Guararapes), a cerca de 18 km do centro histórico. O trajeto leva de 30 a 50 minutos de carro, por aplicativo, táxi ou transfer. Para quem está hospedado no Recife, a viagem é ainda mais curta: pouco mais de 6 km separam a capital do sítio olindense, e linhas regulares de ônibus conectam as duas cidades ao longo do dia.
Vale a pena conhecer Olinda
Poucos destinos no Brasil reúnem tanta história, cor e cultura popular em um espaço tão pequeno. As ladeiras coloridas, os casarões coloniais e o som constante do frevo fazem da cidade uma experiência que mistura herança colonial e vida pulsante.
Você precisa subir as ladeiras do sítio histórico e ver, do Alto da Sé, o mesmo horizonte que Duarte Coelho avistou em 1535, para sentir como uma cidade de quase 500 anos pode estar tão viva.




