O ar frio bate no rosto de quem sobe a serra pela BR-262 e logo aparecem fachadas em estilo enxaimel, placas bilíngues em português e alemão e um maciço rochoso que domina o horizonte. Domingos Martins, na região serrana do Espírito Santo, abriga a famosa Pedra Azul a 1.822 metros de altitude, parte de um conjunto de monólitos formado quando uma cordilheira parecida com o Himalaia ainda erguia a costa sul-americana. Hoje, o vilarejo de pouco mais de 34 mil habitantes mistura a herança alemã do século 19 com um dos parques estaduais mais visitados do país.
A primeira colônia alemã do Espírito Santo nasceu aqui
Em 27 de janeiro de 1847, trinta e nove famílias de imigrantes alemães vindos da região do Hunsrück subiram as margens do Rio Jucu e fundaram a Colônia de Santa Isabel na Serra da Boa Vista. Conforme o portal da Prefeitura de Domingos Martins, foi a primeira colônia alemã do Espírito Santo e o marco inicial da imigração europeia no estado.
A herança ainda molda o cotidiano. As fachadas em estilo enxaimel, técnica construtiva alemã que entrelaça vigas de madeira e preenchimentos de barro ou tijolo, marcam o centro histórico e a entrada da cidade. A Igreja Evangélica de Confissão Luterana, fundada em 1866 na Praça Arthur Gerhardt, é apontada como a primeira igreja protestante do Brasil com torre, em uma época em que apenas templos católicos podiam construir campanários.
O município mudou de nome em 1921, em homenagem ao revolucionário capixaba Domingos José Martins, executado em 1817 por liderar a Revolução Pernambucana.

O monólito de 515 milhões de anos que muda de cor o tempo todo
A Pedra Azul é o cartão-postal da serra capixaba. O afloramento de gnaisse com 1.822 metros de altitude faz parte de um conjunto rochoso que inclui também a Pedra das Flores, com 1.909 metros, e a Pedra do Lagarto, batizada pela saliência em forma de réptil que parece subir pela encosta.
Conforme o Instituto Estadual de Meio Ambiente (IEMA), os monólitos se formaram há cerca de 515 milhões de anos durante a fase final da estruturação de uma cordilheira similar ao Himalaia. A erosão natural ao longo de bilhões de anos esculpiu os desníveis no relevo até as torres rochosas que se veem hoje da BR-262.
A coloração dá o nome à formação. Os líquens que cobrem a superfície reagem à incidência solar e à umidade, e estima-se que a pedra mude de tom cerca de 36 vezes ao longo do dia, variando entre o azul profundo do amanhecer, o verde-musgo da tarde e o dourado do entardecer. Os tons branco-acinzentados predominam quando o céu fecha.

O que fazer no Parque Estadual e na Rota do Lagarto
O Parque Estadual da Pedra Azul (Pepaz) ocupa 1.240 hectares de Mata Atlântica preservada entre Domingos Martins, Alfredo Chaves e Vargem Alta. Foi criado em 3 de janeiro de 1991 e funciona de terça a domingo, das 8h às 16h, com capacidade de 150 visitantes por dia.
- Trilha das Piscinas Naturais: aproximadamente 3 horas de caminhada com guia até nove piscinas naturais escavadas na rocha pela ação da água.
- Trilha do Lagarto: cerca de 1 hora, permite avistar de longe o vizinho Parque Estadual de Forno Grande.
- Escalada ao topo da Pedra Azul: acesso só com agendamento prévio pelo Agenda ES, limitado a 21 pessoas por dia em três grupos de sete, das 6h às 8h.
- Rota do Lagarto: estradinha turística de cerca de 8 km entre pousadas, cafés, vinícolas e restaurantes de culinária alemã e italiana, com a Pedra Azul ao fundo em quase toda a extensão.
- Centro histórico de Domingos Martins: Praça Arthur Gerhardt, Igreja Luterana, Casa da Cultura e construções em estilo enxaimel a poucos passos uns dos outros.
A gastronomia segue a tradição germânica e italiana: massas frescas, vinho colonial, socol, pão de queijo capixaba, cucas e a famosa moqueca, vendida nos restaurantes ao longo da serra.
Quem busca descobrir a influência alemã e pomerana nas montanhas capixabas, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Balanço Geral MG, que conta com mais de 19 mil visualizações, onde Luciana Cataíra mostra os encantos, a arquitetura típica e a culinária tradicional de Domingos Martins, ES:
Quando vale subir a serra capixaba
A altitude garante temperaturas amenas em quase todas as estações, e o inverno chega a registrar madrugadas próximas de 7°C nas partes mais altas do parque.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à Suíça capixaba
O acesso principal é pela BR-262. A 42 km do centro de Vitória, o trajeto leva cerca de uma hora de carro pela rodovia que sobe a serra. O distrito de Aracê, onde fica o parque, está a 50 km do centro de Domingos Martins, no km 89 da BR-262.
De Belo Horizonte, a distância é de cerca de 473 km pela mesma BR-262, em viagem de aproximadamente sete horas que cruza o leste mineiro até desembocar nas montanhas capixabas.
Conheça o pedaço da Europa no Espírito Santo
Poucos vilarejos brasileiros reúnem em um único endereço um monólito de meio bilhão de anos, uma colônia alemã viva e estradas de montanha que parecem cenário de filme europeu. Domingos Martins entrega tudo isso a menos de uma hora da capital capixaba.
Você precisa subir a serra pela BR-262 e ver a Pedra Azul trocar de cor diante dos seus olhos, do azul-profundo do amanhecer ao dourado do fim da tarde.




