No extremo sul de Minas Gerais, na divisa com São Paulo, Extrema tinha 53.482 habitantes no Censo 2022 e fechou 2023 com Produto Interno Bruto per capita de R$ 377.790,63, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A cidade aparece em 10º lugar no ranking nacional e é a única do top 10 que não depende de extração ou refino de petróleo.
Como uma cidade pequena ficou rica sem ter petróleo embaixo do solo?
A explicação está no que a cidade construiu sobre o solo, e não embaixo dele. Enquanto nove das dez cidades mais ricas do Brasil em PIB por habitante dependem de petróleo, gás ou refino, segundo a Agência IBGE, Extrema entrou na lista pelo peso do comércio e da indústria de transformação. Saquarema (RJ) liderou o ranking, com R$ 722,4 mil por habitante, seguida por São Francisco do Conde (BA) e Maricá (RJ).
Na prática, o número de Extrema é cerca de sete vezes maior do que a média nacional, que ficou em R$ 53,9 mil em 2023. O resultado coloca a cidade mineira à frente de capitais como Belo Horizonte (R$ 56,2 mil) e Salvador, e perto de São João da Barra (RJ), que tem extração de petróleo. A diferença é que Extrema, em vez de campos de pré-sal, tem campus logísticos.

O que transformou Extrema em hub logístico do Sudeste?
A geografia ajudou a desenhar a vocação. A cidade fica às margens da Rodovia Fernão Dias (BR-381), em ponto que forma um triângulo com São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, a menos de 110 km da capital paulista. Esse posicionamento, somado a incentivos fiscais oferecidos pelo governo de Minas Gerais, atraiu centenas de empresas para a região.
Hoje, a região soma mais de 650 mil m² de estruturas logísticas, segundo dados da Cushman & Wakefield citados pelo setor de e-commerce. A DHL Supply Chain opera cinco unidades na cidade, incluindo um campus logístico de 91 mil m² e centros de distribuição da Sanofi, Ajinomoto e clientes de saúde, tecnologia e e-commerce. A Sanofi previu investimento de R$ 333 milhões em Minas Gerais até 2032 com foco logístico em Extrema.
O que Extrema entrega que outras cidades não conseguem oferecer?
O incentivo fiscal é o eixo da estratégia. Empresas que se instalam em Extrema podem pagar menos Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) do que em São Paulo, com diferenças que chegam a 40% em alguns setores, segundo a Superintendência de Tributação de Minas Gerais. Para empresas de e-commerce, a redução por pedido fica entre 12% e 22% em operações de médio e grande porte.
Some-se a isso a velocidade de entrega para os principais centros consumidores do Brasil. Saindo de Extrema, é possível alcançar a Grande São Paulo em até 2 horas, a Grande Rio em cerca de 4 horas e a Região Metropolitana de Belo Horizonte em pouco mais de 5 horas. O conjunto fez com que a cidade saltasse de uma economia local para o radar de empresas globais.
O que esse modelo significa para o resto do Brasil?
Extrema mostra que é possível alcançar o topo da renda por habitante sem extrativismo. As outras nove cidades do top 10 nacional dependem de combustíveis fósseis, refino ou commodities agrícolas, atividades sujeitas a oscilações de preço internacional. Em 2023, a queda do petróleo fez Maricá, Niterói, Saquarema, Ilhabela e Campos dos Goytacazes perderem participação no PIB nacional, segundo o IBGE.
O modelo da cidade mineira, ancorado em logística, indústria de transformação e comércio, depende mais de infraestrutura, tributação e mão de obra qualificada do que de variáveis externas. Não é um caso isolado: Louveira (SP), em 8º lugar nacional, segue o mesmo padrão, e cidades como Indianópolis, Catas Altas e São Gonçalo do Rio Abaixo, em Minas Gerais, também integram a lista dos 100 maiores PIBs per capita do Brasil.
Quem busca conhecer o sul de Minas Gerais, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal De fora em Juiz de Fora, que conta com mais de 159 mil visualizações, onde Tati Marmon mostra as surpresas de Extrema, uma cidade pequena mas altamente desenvolvida na divisa com São Paulo:
Por que vale acompanhar a trajetória dessa cidade?
Extrema reúne uma combinação rara no Brasil: cidade pequena, posição geográfica estratégica, regime tributário diferenciado e ecossistema logístico maduro. O salto que levou pouco mais de 53 mil habitantes ao top 10 nacional em PIB per capita aconteceu em pouco mais de duas décadas, com forte aposta em atrair indústria e comércio em vez de exportar minério.
Vale ficar de olho nos próximos dados do IBGE: cada nova edição do PIB dos Municípios mostra como cidades pequenas e bem posicionadas podem ditar o futuro da economia regional, mesmo sem riqueza natural debaixo do solo.




