A 6 km do Recife, no topo de colinas que olham direto para o Atlântico, Olinda conserva um centro histórico com cerca de 1.500 imóveis protegidos, casarões pintados em cores vivas e ladeiras que revelam uma igreja a cada curva. Fundada em 1535, a cidade foi a mais rica do Brasil Colônia e carrega, desde 1982, o título de Patrimônio Mundial da Unesco.
A Lisboa pequena que os holandeses incendiaram
Duarte Coelho, primeiro donatário da Capitania de Pernambuco, escolheu as colinas de Olinda para erguer a sede administrativa da colônia. A riqueza da cana-de-açúcar fez a vila crescer tão rápido que cronistas da época a comparavam a uma versão reduzida de Lisboa. Em 1630, os holandeses invadiram a capitania. Um ano depois, considerando o terreno elevado difícil de defender, saquearam e incendiaram a cidade antes de transferir a capital para o Recife.
Após a expulsão dos invasores em 1654, Olinda foi reconstruída ao longo do século XVIII. Das edificações originais quase nada restou, mas o novo traçado preservou a lógica colonial das ruas e deu origem ao conjunto barroco que existe hoje. Em 1827, a cidade abrigou uma das duas primeiras faculdades de Direito do Brasil, ao lado da de São Paulo, e em 2006 tornou-se a primeira Capital Brasileira da Cultura.

Como gigantes de papel machê viraram símbolo do carnaval
A tradição dos bonecos gigantes nasceu na Europa medieval, em procissões religiosas com figuras de santos católicos. Chegou a Pernambuco por meio de um padre belga, na pequena Belém do São Francisco, onde surgiu em 1919 o primeiro boneco do país, o Zé Pereira. A brincadeira ganhou as ladeiras de Olinda em 1932, quando estreou o Homem da Meia-Noite, calunga de quase 4 metros de altura, de fraque e cartola, que até hoje abre oficialmente o carnaval à meia-noite de sábado.
O Homem da Meia-Noite não é tratado apenas como boneco. Na cultura afro-brasileira, é considerado um calunga, figura mística ligada ao candomblé. Sua primeira saída foi em 2 de fevereiro, dia de Iemanjá. Depois dele vieram a Mulher do Dia (1967) e o Menino da Tarde (1974). O casal chegou a se “casar” em 1990, em cerimônia simbólica acompanhada por milhares de foliões. O Iphan reconhece os bonecos como parte do patrimônio cultural de Olinda, e o frevo que os acompanha foi declarado Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco em 2012.

O que visitar além das ladeiras no sítio histórico
O centro histórico ocupa 1,2 km² e pode ser percorrido a pé em poucas horas. As atrações se concentram entre a Cidade Baixa e o Alto da Sé, ponto mais elevado, de onde se avista o Recife e o mar.
- Basílica e Mosteiro de São Bento: construção iniciada em 1599, com altar folheado a ouro que já foi exposto no Museu Guggenheim de Nova York em 2002. Missas com canto gregoriano.
- Convento de São Francisco: o mais antigo convento franciscano do Brasil (1585), com 18 painéis de azulejos portugueses no claustro e a primeira biblioteca pública de Pernambuco.
- Catedral da Sé: erguida no ponto mais alto da cidade, serviu como observatório contra ataques de navios. Do mirante, a vista alcança os arrecifes do litoral.
- Mercado da Ribeira: antigo mercado do século XVIII transformado em centro de artesanato e gravura, com bonecos gigantes em exposição permanente.
- Museu do Mamulengo: acervo dedicado ao teatro de bonecos popular, tradição forte no interior de Pernambuco.
Quem busca uma imersão cultural em Pernambuco, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Tesouros do Brasil, que conta com mais de 82 mil visualizações, onde João Vitor apresenta um roteiro histórico por Olinda, passando pela Catedral da Sé, o Mosteiro de São Bento e as ladeiras do carnaval:
Uma cidade que merece cada ladeira
Olinda reúne em pouco mais de um quilômetro quadrado quase cinco séculos de história brasileira, 20 igrejas barrocas, casarões de azulejos e uma tradição cultural que vai do canto gregoriano ao frevo. Poucas cidades do país entregam tanta beleza em tão pouco espaço.
Você precisa subir as ladeiras de Olinda e ver, do Alto da Sé, o Atlântico se estender até onde a vista alcança, com o mesmo horizonte que Duarte Coelho avistou em 1535.




