No norte de Minas Gerais, no coração do Vale do Jequitinhonha, Araçuaí entrou para a história em 19 de novembro de 2023 ao registrar 44,8°C, a maior temperatura já medida no Brasil. A marca, divulgada pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), transformou a pequena cidade no símbolo do calor extremo no país e revelou ao mundo um lugar onde a rotina se desenha em torno do sol.
Como o termômetro chegou a 44,8°C em uma tarde de domingo?
O recorde foi medido pela estação automática do INMET na cidade durante a oitava onda de calor de 2023, intensificada pelo fenômeno El Niño. Segundo o portal oficial do INMET, a marca superou os 44,7°C registrados em Bom Jesus, no Piauí, em 21 de novembro de 2005, que detinham o recorde absoluto havia 18 anos.
A combinação de fatores explica o termômetro fora de escala. Araçuaí fica em uma região de transição entre Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica, com clima que varia do semiárido ao subúmido. O solo exposto, a baixa umidade e a altitude modesta, de cerca de 307 metros, fazem o calor subir e demorar para dissipar.

O Vale do Jequitinhonha que aprendeu a viver com o sol
O calor é tão antigo quanto a cidade. Araçuaí foi elevada à categoria de município em 1871, segundo a Prefeitura de Araçuaí, e nasceu nas margens do rio Araçuaí, afluente do Jequitinhonha, em uma área que sempre conviveu com longos períodos secos.
O nome de origem indígena significa rio das araras grandes, e a região guarda traços de povos Botocudo e Tocoió que habitavam a área antes da chegada dos europeus. Os 600 a 1.600 milímetros anuais de chuva, segundo dados oficiais, se concentram entre outubro e março, deixando praticamente metade do ano em secura intensa. As atividades cotidianas, da feira ao trabalho no campo, foram historicamente moldadas para acompanhar o sol.
O que o calor extremo muda na vida de quem mora?
O dia em Araçuaí começa cedo e termina cedo. As feiras abrem às quatro da manhã e os comerciantes do Mercado Municipal ajustam o expediente para o período mais fresco. A construção das casas segue padrões adaptados, com telhados altos, varandas amplas e paredes de adobe que ajudam a abafar a temperatura interna.
O abastecimento de água nas zonas rurais virou política pública permanente. O município integra o semiárido mineiro e mantém cisternas de captação de chuva, segundo registros do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG). Essa convivência com o clima rendeu à região um dos artesanatos mais celebrados do país, baseado no barro vermelho que só existe em locais como esse.
Quem quer saber como é viver na cidade mais quente do Brasil, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Boa Sorte Viajante, que conta com mais de 900 mil inscritos, onde Matheus Boa Sorte mostra os extremos e as tradições de Araçuaí (MG):
Pequena no mapa, gigante na cultura popular
Com 35.185 habitantes em 2025, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Araçuaí ocupa 2.236 km² e tem densidade demográfica de apenas 15,34 hab/km². O PIB per capita gira em torno de R$ 31.544,84, e a escolarização entre 6 e 14 anos chega a 99,77%.
A cidade é considerada a capital cultural do médio Jequitinhonha. Abriga o Museu Frei Chico, fundado pela artista Maria Lira Marques e pelo frei holandês Francisco van der Poel, e é sede do Coral Trovadores do Vale, criado em 1970 para preservar cantos tradicionais. As cerâmicas das oleiras locais, com bonecas e máscaras de barro, são exportadas para Bélgica, Holanda, França e Estados Unidos, segundo registro do BDMG Cultural.
O que ver e provar quando o sol baixa
O turismo em Araçuaí é cultural e exige planejamento de horário. As visitas concentram-se no fim da tarde e nas manhãs, quando a temperatura cede:
- Mercado Municipal de Araçuaí: prédio histórico inaugurado em 1961, polo cultural com cerâmica do Vale, queijos, geleias e doces caseiros.
- Museu Frei Chico: acervo de cultura popular, religiosidade afro-indígena e peças de Maria Lira Marques, mantido pela artista na própria cidade.
- Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário: construção do século XIX no centro histórico, ponto de partida para caminhadas pelo casario antigo.
- Encontro dos rios Araçuaí e Jequitinhonha: a confluência marca o ponto onde a cidade nasceu e oferece um pôr do sol cinematográfico no Vale.
- Micareta de Araçuaí: carnaval fora de época realizado em setembro, no aniversário da cidade, com trios elétricos e blocos tradicionais.
A gastronomia carrega o jeito sertanejo do Vale, com pratos pensados para suportar o calor:
- Peixes do Jequitinhonha: surubim, dourado e curimatá servidos fritos ou ensopados com pirão de farinha de mandioca.
- Geleia de mocotó: doce escuro vendido nas bancas do Mercado Municipal há décadas, especialidade das doceiras locais.
- Queijo serenado: amadurecido ao relento, com sabor mais intenso que o queijo mineiro tradicional.
- Cachaças artesanais: produção familiar do Vale do Jequitinhonha, com alambiques que abastecem feiras de toda a região norte mineira.
Quando ir e como chegar à terra do recorde?
O período mais ameno vai de maio a agosto, quando a temperatura à tarde costuma ficar entre 28°C e 32°C. Entre outubro e março, o termômetro frequentemente passa dos 38°C ao meio-dia.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
O acesso é pela BR-367, que liga a cidade a Diamantina e à capital mineira. A viagem de carro a partir de Belo Horizonte leva cerca de oito horas. Os aeroportos mais próximos ficam em Teófilo Otoni, a 220 km, e Montes Claros, a 280 km.
Conheça a cidade que carrega o termômetro do Brasil
Araçuaí é mais do que o ponto onde os 44,8°C entraram para a história. É um Vale inteiro condensado em ruas que respiram cerâmica, canto e resistência ao sertão.
Você precisa visitar Araçuaí ao fim de uma tarde de inverno e ouvir o Coral Trovadores do Vale para entender por que o calor, ali, virou identidade.




