Quem caminha pelas ladeiras de Ouro Preto pisa, sem saber, sobre centenas de túneis escavados por mãos escravizadas no século XVIII. A antiga Vila Rica, primeira cidade brasileira reconhecida como Patrimônio Mundial pela UNESCO em 1980, guarda sob o centro histórico cerca de 350 galerias subterrâneas. Pesquisadores da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) tentam encontrá-las desde 1994, e a contagem ainda não acabou.
Quantas minas existem sob o centro histórico?
O professor Hernani Mota de Lima, engenheiro de minas do Departamento de Engenharia de Minas da UFOP, lidera o mapeamento há mais de duas décadas. Um estudo de 1937 já apontava centenas de minas no perímetro urbano. Até agora, 270 estruturas foram catalogadas, a maioria datada do período colonial. O total estimado chega a 350, somando galerias de extração, caminhos de ventilação e túneis de desvio de água.
O trabalho tem três frentes: avaliar riscos de desabamento sob ruas e construções, identificar potencial turístico e monitorar a captação de água subterrânea. Um plano da Fundação João Pinheiro, de 1982, revelou que 40% da água consumida na cidade vinha dessas minas. O percentual caiu, mas a captação clandestina persiste.

A geologia que transformou morros em cofres de ouro
Ouro Preto está no coração do Quadrilátero Ferrífero, região formada por rochas do Supergrupo Minas. O ouro aparecia associado a veios de quartzo dentro dos itabiritos, formações ferríferas bandadas. O metal extraído dos riachos era escurecido por uma camada de óxido de ferro, o que originou o nome “ouro preto” e diferenciava o material de qualquer outro encontrado nas colônias.
Quando o ouro de superfície escasseou, a mineração avançou para dentro dos morros. Escravizados abriam galerias com picaretas, cunhas e marretas, seguindo os filões de quartzo no escuro. A ventilação era precária e os desabamentos, frequentes. O bairro Taquaral foi erguido sobre escavações a céu aberto que comprometeram a estabilidade do solo até hoje.

O que esperar ao descer nas galerias coloniais?
A Prefeitura de Ouro Preto lista sete minas abertas à visitação no perímetro urbano, cada uma com extensão, profundidade e narrativa próprias.
- Mina de Chico Rei: 175 galerias abertas em três níveis de profundidade, com 325 metros iluminados. Ligada à história oral de Galanga, rei congolês escravizado que teria comprado a própria alforria e depois a mina inteira.
- Grande Mina Central: a 350 metros da Praça Tiradentes, com mais de 600 metros de galerias e afloramentos de minério de ferro visíveis nas paredes.
- Minas do Palácio Velho: percurso guiado de 80 metros a 108 metros de profundidade, com cascata subterrânea e marcas originais da escavação, como orifícios nas paredes e estacas de braúna.
- Mina do Bijoca: passeio de 45 minutos com artefatos do século XVIII e explicações sobre os métodos de extração colonial.
A 10 minutos de Ouro Preto, já no distrito de Passagem de Mariana, a Mina da Passagem complementa a experiência. A descida de trolley percorre 315 metros até 120 metros de profundidade, onde um lago de águas cristalinas ocupa os túneis que deixaram de ser bombeados. Dali saíram cerca de 35 toneladas de ouro desde o século XVIII.
Quem sonha em conhecer Minas Gerais, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Tesouros do Brasil, que conta com mais de 21 mil visualizações, onde João Vitor mostra um roteiro histórico e gastronômico por Ouro Preto:
O ouro que saiu da terra e subiu para os altares
O metal extraído dessas galerias não foi apenas embarcado para Portugal. Parte revestiu os altares que tornaram a cidade famosa. A Basílica de Nossa Senhora do Pilar ostenta mais de 400 kg de ouro na ornamentação interna. A Igreja de São Francisco de Assis, obra-prima de Aleijadinho iniciada em 1766, nasceu da riqueza que brotava dos morros ao redor.
Tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1938, Ouro Preto mantém intacto o traçado colonial de ladeiras, becos e travessas. A estagnação econômica do século XIX ajudou a preservar o que a mineração construiu. O casario branco, as esquadrias coloridas e as telhas de barro sobreviveram porque a cidade parou no tempo quando o ouro acabou.
Um labirinto que ainda está sendo escrito
Ouro Preto tem duas camadas: a que se vê nas ladeiras e a que se esconde sob elas. As minas coloniais não são relíquias inertes. São parte viva da estrutura urbana, da memória da escravidão e da identidade de um lugar que nasceu do trabalho dentro da terra.
Reserve pelo menos um dia para descer às galerias, sentir a umidade das paredes e imaginar o que significava carregar pedra nas costas a mais de 100 metros de profundidade, porque Ouro Preto só se revela por inteiro quando você conhece o que existe debaixo dos seus pés.




