Quem procura uma cidade do interior com museu de arquiteto famoso, roteiro cultural próprio e emprego industrial na porta ao lado costuma ter de escolher só um item da lista. Itabira, no Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais, entrega os três de uma vez: é a cidade natal de Carlos Drummond de Andrade, o lugar onde nasceu a atual Vale e o endereço de um museu assinado por Oscar Niemeyer.
Como uma montanha inteira desapareceu do mapa?
Aos poucos, carga por carga. Conforme registro do acervo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi aos pés do Pico do Cauê que se formou a vila que deu origem a Itabira, e no início do século XX descobriu-se que ali estava uma das maiores jazidas de ferro do mundo.
A escala mudou tudo. O mesmo registro aponta que em 1973 a Mina do Cauê se tornou a maior frente de extração do mundo ocidental, ritmo que rebaixou o relevo até transformar o pico em uma escavação a céu aberto. Quando o minério deu sinais de esgotamento, a área entrou em outra fase: desde 2011 a mineradora executa um processo de revegetação no antigo pico, com disposição controlada de material e licenciamento ambiental.

Por que a maior mineradora do país nasceu justamente aqui?
Porque a guerra transformou o ferro de Itabira em questão estratégica. Segundo o acervo do IBGE, a Companhia Vale do Rio Doce foi criada por decreto-lei do presidente Getúlio Vargas em junho de 1942, e a história da empresa remonta diretamente à extração mineral na região itabirana.
O efeito na cidade foi duplo. De um lado, décadas de emprego formal, arrecadação e infraestrutura urbana bem acima da média das cidades vizinhas do interior mineiro, muitas delas nascidas do ouro colonial, como pequenos povoados que viraram refúgio. De outro, a perda irreversível do maior símbolo geográfico local, tema que atravessa a produção cultural da cidade até hoje.

O que restou da montanha nos versos de Drummond?
Restou um roteiro urbano inteiro construído sobre poesia. Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira e cresceu vendo o Cauê, e a cidade transformou essa memória no Museu de Território Caminhos Drummondianos, um percurso a céu aberto pelo centro histórico.
De acordo com a Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), são 44 placas instaladas em pontos ligados à obra do poeta, cada uma pesando em média 240 quilos e fundida em ferro, o mesmo metal que sustentou e desfigurou a paisagem. A reformulação do conjunto foi entregue em 2009, em parceria entre a mineradora e a prefeitura, com projeto do artista plástico Léo Santana, autor do monumento a Drummond em Copacabana.
O que visitar na cidade natal do poeta?
O roteiro cabe em um fim de semana e mistura arquitetura, memória literária e serra. Confira os principais pontos:
- Memorial Carlos Drummond de Andrade: projeto de Oscar Niemeyer inaugurado em 1998 na encosta leste do Pico do Amor, com cerca de 2 mil m², segundo o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).
- Acervo do memorial: primeiras edições, cartas e a máquina de datilografia do poeta, em espaço que recebe mais de 15 mil visitantes por ano, conforme a FCCDA.
- Casa de Drummond: sobrado no centro histórico onde o autor passou a infância, hoje aberto à visitação.
- Fazenda do Pontal: propriedade ligada à família do poeta, remontada na cidade para preservar suas raízes rurais.
- Distrito de Ipoema: cachoeiras, trilhas e rampa de voo livre no trecho itabirano da Estrada Real, além do museu dedicado aos tropeiros.
Chegar é rápido para quem sai da capital: são cerca de 110 km de Belo Horizonte, pouco mais de duas horas de carro por rodovia asfaltada.
Quem tem curiosidade sobre a terra de Carlos Drummond de Andrade, vai curtir esse vídeo do canal Cidades do meu Brasil, com mais de 3,9 mil visualizações, sobre Itabira:
Como é o clima de Itabira ao longo do ano?
A altitude segura as noites frescas mesmo no verão, e a estação seca deixa o céu aberto por semanas. Veja o que esperar em cada época:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
A cidade que perdeu um pico e ganhou uma biblioteca a céu aberto
Existe algo raro na forma como Itabira lida com a própria história. Em vez de esconder a cicatriz, a cidade fez dela assunto público, espalhou versos pelas ruas em placas do mesmo ferro que financiou tudo e transformou a ausência da montanha em patrimônio literário.
Vale caminhar o centro histórico com calma, placa por placa, e perceber que a paisagem que desapareceu continua descrita com precisão por quem a viu da janela de casa.




