Vista à distância, a muralha parece sustentar um pedaço de chão suspenso no céu. O Monte Roraima é uma montanha de topo plano compartilhada por Brasil, Venezuela e Guiana, cercada por paredões e nuvens que escondem seu cume. No alto, rochas muito antigas, chuvas constantes e isolamento geográfico criaram ambientes encontrados em poucos lugares do planeta.
Por que o Monte Roraima tem formato de mesa?

O Monte Roraima é um tepui, nome usado para as montanhas tabulares do Escudo das Guianas. Seu topo quase horizontal é formado por camadas resistentes de arenito e outras rochas sedimentares. Ao longo de um tempo imenso, vento, chuva e rios removeram materiais mais frágeis ao redor, deixando blocos elevados com escarpas quase verticais.
O Serviço Geológico do Brasil situa essas rochas siliciclásticas no fim do Paleoproterozoico. Isso significa que o material é muito antigo, mas não que a mesa tenha permanecido com a mesma forma por bilhões de anos. O relevo visível resulta de uma erosão prolongada, e continua sendo esculpido.
A paisagem também não é uma superfície perfeitamente lisa. Fendas, vales rasos, torres de pedra, poças e campos rochosos quebram o platô. A água ácida e carregada de matéria orgânica escava canais escuros, enquanto a areia liberada do arenito se acumula em pequenas faixas claras.
Como o Monte Roraima marca a fronteira de três países?
O platô atravessa territórios venezuelano, guianense e brasileiro. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística registra que a maior parte fica na Venezuela e cerca de 15% da área está no Brasil. O ponto de encontro das três fronteiras é sinalizado sobre o topo.
Em 2005, uma expedição do IBGE e do Instituto Militar de Engenharia usou GPS para revisar a altitude do ponto culminante em território brasileiro. A campanha também instalou uma estação geodésica no alto. O trabalho mostra que transformar uma montanha em referência cartográfica depende de medições, marcos e acordos, não apenas da aparência da paisagem.
A porção brasileira está protegida pelo Parque Nacional do Monte Roraima, criado em 1989. Do lado venezuelano, a montanha integra a região de Canaima, reconhecida como Patrimônio Mundial. A Unesco informa que cerca de 65% dos 3 milhões de hectares do Parque Nacional Canaima são ocupados por formações de tepuis.
De onde vem tanta água no topo da montanha?
Nuvens encostam nas paredes e no platô, onde o ar úmido esfria e se transforma em chuva ou neblina. O solo é raso, pobre em nutrientes e incapaz de armazenar toda a precipitação. Assim, a água se reúne em poças e canais antes de despencar pelas bordas em cachoeiras que aparecem, mudam de volume ou desaparecem conforme o tempo.
O plano de manejo do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade descreve cursos d’água que seguem em várias direções. Eles alimentam drenagens ligadas às grandes bacias do Orinoco, do Essequibo e do Amazonas. Uma chuva sobre a mesa pode, portanto, iniciar trajetos para sistemas fluviais distintos.
Quais seres vivos conseguiram ocupar o Monte Roraima?
O topo impõe frio relativo, vento, umidade, radiação intensa e pouca matéria disponível no solo. Plantas de pequeno porte ocupam fendas e superfícies encharcadas. Algumas capturam insetos para complementar nutrientes, como a Heliamphora nutans, planta carnívora cuja distribuição entre Venezuela, Guiana e norte do Brasil é registrada pelo Plants of the World Online, do Jardim Botânico de Kew.
Musgos, líquens, orquídeas e arbustos baixos formam comunidades adaptadas a nichos muito próximos. O plano de manejo brasileiro estima mais de duas mil espécies vegetais na região do Monte Roraima e apresenta uma estimativa histórica de 50% de endemismo. O número deve ser lido como estimativa do documento, não como contagem definitiva do platô.
O isolamento favorece diferenças entre populações, mas a imagem de ecossistemas totalmente fechados é simplificadora. Sementes, esporos e animais podem alcançar outras altitudes ou tepuis. Ainda assim, as paredes e as condições do cume reduzem trocas para muitas espécies, criando linhagens de distribuição restrita e tornando cada alteração ambiental especialmente importante.
Por que o topo exige proteção mesmo parecendo vazio?

A rocha domina a vista, porém a vida pode estar concentrada em tapetes vegetais finos, margens de poças e áreas que parecem apenas lama. Pisoteio repetido rompe plantas de crescimento lento e amplia trilhas. Resíduos, sabão e matéria orgânica levados por visitantes alteram ambientes pobres em nutrientes, nos quais pequenas adições têm efeito desproporcional.
Em 2019, uma expedição relatada pelo ICMBio retirou resíduos do platô, instalou estruturas de manejo e levou material para uma ponte suspensa sobre vegetação endêmica. A iniciativa buscou reduzir o pisoteio e organizar o uso público numa área onde a recuperação natural pode ser lenta.
A proteção também envolve povos indígenas. O monte e suas paisagens vizinhas possuem significados culturais que antecedem parques, mapas e fronteiras nacionais. Tratar o lugar somente como formação geológica ou cenário de aventura apaga parte essencial de sua identidade.
O mundo suspenso do Monte Roraima
O Monte Roraima reúne quatro surpresas numa mesma mesa de pedra: rochas do Paleoproterozoico, uma tríplice fronteira, águas que seguem para grandes bacias e comunidades biológicas adaptadas ao isolamento. Nenhuma delas precisa de lendas exageradas para tornar o lugar singular.
As nuvens escondem e revelam o platô em poucos minutos. Quando abrem, mostram que o chamado mundo perdido nunca esteve parado no tempo. Erosão, chuva, evolução e presença humana continuam transformando o alto, uma lembrança de que até as paisagens mais antigas permanecem em movimento.




