Poucas cidades brasileiras conseguem reivindicar o título de pioneira em um movimento migratório inteiro. Na região serrana do Espírito Santo, a 78 km de Vitória, Santa Teresa é reconhecida por lei federal como a primeira colônia italiana do Brasil, com identidade construída a partir da chegada de 388 imigrantes em 1874.
Por que Santa Teresa é considerada a primeira colônia italiana do Brasil?
O reconhecimento veio depois de mais de um século e meio de história. Segundo o Governo do Espírito Santo, o navio à vela La Sofia chegou ao Porto de Vitória em 17 de fevereiro de 1874, com 388 imigrantes italianos vindos majoritariamente da província de Trento.
O status oficial veio pela Lei Federal nº 13.617, de 11 de janeiro de 2018, sancionada pelo Palácio do Planalto, que instituiu o Dia do Reconhecimento do Município de Santa Teresa como Pioneiro da Imigração Italiana no Brasil, comemorado em 26 de junho. A data marca a distribuição dos lotes aos colonos, em 1875, ato considerado a fundação formal do núcleo urbano.

Como é o cotidiano na Itália Brasileira?
A escala compacta é o primeiro atrativo para quem procura moradia tranquila. A sede fica a 655 metros de altitude, com clima ameno o ano inteiro, e o centro histórico foi tombado em 2019, com processo finalizado em 2025. As ruas de casario colonial cortam vales verdes, e o ritmo urbano é ditado pelo calendário agrícola das pequenas propriedades italianas remanescentes.
Para quem se muda, a rotina combina comércio local ativo, presença cultural forte e proximidade com Vitória, que resolve o que a cidade não oferece em porte, hospitais especializados, aeroporto internacional e universidade federal. O trajeto até a capital dura pouco mais de 1h30 de carro pela BR-101 e ES-080, o que transforma Santa Teresa em opção viável para trabalho remoto, aposentadoria ativa e segunda residência.
O que a herança italiana deixou na paisagem e na mesa?
A gastronomia é o traço mais visível da colonização. Massas frescas, polentas, embutidos artesanais, queijos, doces caseiros e vinhos produzidos em pequenas cantinas familiares compõem a base de restaurantes que ocupam antigos sobrados coloniais.
Segundo a Secretaria de Estado de Turismo do Espírito Santo (Setur-ES), o principal roteiro é o Circuito Caravaggio, com mais de 30 empreendimentos ligados ao agroturismo. O nome homenageia a padroeira, Nossa Senhora do Caravaggio, também venerada na região italiana de mesmo nome. O percurso reúne vinícolas, cervejarias artesanais, destilarias e cafeterias que oferecem tour guiado da produção.

Quem foi Augusto Ruschi e por que ele importa para a cidade?
Um dos maiores nomes da ciência ambiental brasileira nasceu na cidade. Augusto Ruschi, considerado Patrono da Ecologia no Brasil, classificou cerca de 80% das espécies brasileiras de colibris e catalogou mais de 600 espécies de orquídeas, segundo os registros do Museu de Biologia Professor Mello Leitão, que ele próprio fundou em 1949.
O museu funciona no centro da cidade e integra atualmente o Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), órgão federal vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações. A área verde do museu preserva jardins, viveiros, coleções científicas e alimentadores de beija-flores, e virou parada obrigatória para quem quer entender por que a cidade é chamada de Terra dos Beija-flores.
O que fazer em Santa Teresa em um fim de semana?
O núcleo turístico é compacto, o que permite conhecer os principais pontos em dois dias. A maioria fica a poucos minutos umas das outras, entre o centro histórico e o Circuito Caravaggio, na zona rural.
- Museu de Biologia Mello Leitão: sede do INMA, com jardins, viveiros e a famosa varanda de beija-flores, na antiga casa de Augusto Ruschi.
- Igreja Matriz de Santa Teresa: templo central com arquitetura colonial ligada à padroeira do município.
- Circuito Caravaggio: cerca de 14 km de via rural com vinícolas, cervejarias, restaurantes e pousadas de agroturismo.
- Cantina Mattiello: uma das vinícolas mais tradicionais do circuito, pioneira na produção de vinhos e espumantes de jabuticaba.
- Vinícola Ziviani: propriedade familiar com atendimento próximo aos proprietários e degustação guiada.
- Rampa de Voo Livre: mirante natural com vista do Vale do Caravaggio e das montanhas da serra capixaba.
- Rua do Lazer: reduto gastronômico e cultural do centro, com música ao vivo aos fins de semana.
Quem quer descobrir como é a Itália Brasileira no Espírito Santo, vai curtir este vídeo do canal Boa Sorte Viajante – Matheus Boa Sorte, com mais de 986 mil visualizações, sobre Santa Teresa:
Como é o clima na serra capixaba ao longo do ano?
A altitude e a Mata Atlântica preservada moldam um clima ameno o ano inteiro, com noites frescas no inverno e verões quentes suavizados pela vegetação. A cidade é conhecida pelo microclima que favorece a produção de vinhos, cafés especiais e frutas de clima temperado.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Santa Teresa?
De Vitória, o trajeto tem cerca de 78 km pela BR-101 em direção a Fundão, entrando na ES-080 rumo à serra. O tempo médio é de pouco mais de 1h30 de carro, com trecho final em estrada de serra e paisagem de Mata Atlântica.
De Belo Horizonte, a distância é de aproximadamente 590 km pela BR-262, e do Rio de Janeiro, cerca de 600 km pela BR-101. Não há aeroporto na cidade, o mais próximo é o Aeroporto de Vitória (VIX), com voos regulares diários para as principais capitais do país.
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Onde o italiano virou capixaba sem deixar de ser italiano
Santa Teresa é o caso raro de município do interior que preservou tanto a herança dos imigrantes que virou lei federal. O sotaque das cantinas, a arquitetura dos sobrados e o calendário de festivais gastronômicos mantêm viva uma identidade construída em cima do encontro entre a floresta atlântica e a cultura vinda de Trento, Lombardia e Vêneto.
Você precisa reservar pelo menos dois dias na cidade, dividir o tempo entre uma vinícola do Caravaggio e a varanda de beija-flores do Museu Mello Leitão, e entender por que a serra capixaba virou refúgio de quem procura o interior sem abrir mão da mesa italiana.




