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Pesquisadores estão acompanhando ao vivo a abertura da Terra e a formação de um novo leito oceânico por uma quantidade inimaginável de lava

André Rangel  Por André Rangel 
19/07/2026
Em Curiosidades, Notícias
Erupção submarina cria novo fundo do mar diante dos cientistas

Erupção submarina cria novo fundo do mar diante dos cientistas

Em abril de 2024, a crosta oceânica no sul do Oceano Índico rachou ao longo de uma dorsal meso-oceânica e derramou uma quantidade de lava equivalente a 64 mil piscinas olímpicas no fundo do mar. O evento não foi incomum em escala geológica, mas foi radicalmente inédito em outro sentido: pela primeira vez na história da ciência, uma equipe de pesquisadores tinha instrumentos no local e gravou tudo em tempo real. O estudo, liderado pelo geofísico Jean-Yves Royer da Universidade de Brest e do Ifremer, foi publicado na revista Nature em 8 de julho de 2026 e descreveu pela primeira vez como um evento de expansão do fundo oceânico se desenrola em detalhe, segundo a segundo.

O que é a Dorsal do Índico Sudeste e por que ela cria novo fundo oceânico?

As dorsais meso-oceânicas são cadeias de montanhas submarinas que percorrem cerca de 65 mil quilômetros pelo fundo dos oceanos, marcando os limites onde as placas tectônicas se afastam lentamente. Na Dorsal do Índico Sudeste, as placas Australiana e Antártica se separam a uma taxa de alguns centímetros por ano. Quando a tensão acumulada supera a resistência da crosta, ela racha, o magma abaixo sobe, preenche a fissura e esfria, formando nova crosta oceânica. Mais de dois terços da superfície do planeta foram criados exatamente dessa forma ao longo de bilhões de anos.

Nenhum cientista havia observado um desses eventos em tempo real com instrumentação direta. As dorsais ficam em águas profundas em regiões remotas e os eventos são imprevisíveis. A equipe de Royer teve a sorte rara de ter instalado os instrumentos semanas antes do evento.

Erupção submarina cria novo fundo do mar diante dos cientistas
Erupção submarina cria novo fundo do mar diante dos cientistas

Como os pesquisadores gravaram o evento em tempo real?

Em fevereiro de 2024, o grupo instalou o observatório submarino OHA-GEODAMS próximo à Ilha Amsterdã. O sistema incluía sismômetros, sensores de pressão, balizas de posicionamento acústico e equipamentos de mapeamento de alta resolução, rastreando simultaneamente movimentos do terreno, atividade sísmica e mudanças de topografia.

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Os dados revelaram uma sequência de eventos com precisão nunca antes registrada. O que os instrumentos captaram, etapa por etapa, foi:

  • Abertura da crosta: as duas placas se separaram cerca de 2 metros em poucos dias, a maior parte nas primeiras 16 horas
  • Colapso do assoalho: o fundo do vale submarino afundou 4,2 metros à medida que a câmara de magma subjacente se esvaziava
  • Erupção de lava: o magma atingiu o assoalho oceânico e se acumulou em camadas de até 90 metros de espessura em algumas áreas
  • Falhas silenciosas: além dos terremotos esperados, os instrumentos detectaram deslizamentos de falha sem tremores, fenômeno que explica por que as dorsais produzem menos sismos do que modelos anteriores previam

Quanto de lava o evento produziu e quão raro foi em escala geológica?

O evento liberou aproximadamente 160 milhões de metros cúbicos de lava em 16 dias. Para tornar esse número tangível: é o suficiente para encher 64 mil piscinas olímpicas, ou para cobrir a cidade de São Paulo com uma camada de lava de cerca de 12 centímetros de espessura. O mapeamento realizado um ano depois mostrou que a nova lava se acumulou em algumas áreas com mais de 90 metros de espessura, formando um novo trecho de fundo oceânico que não existia antes de abril de 2024.

Esse volume coloca o evento entre as grandes erupções submarinas. No contexto das dorsais, é um dos inúmeros episódios regulares ao longo dos 65 mil quilômetros do sistema global, mas agora, pela primeira vez, temos dados reais de como esses episódios funcionam.

Erupção submarina cria novo fundo do mar diante dos cientistas
Erupção submarina cria novo fundo do mar diante dos cientistas

O que o estudo revela sobre a formação do planeta que não se sabia antes?

O achado mais inesperado foi a extensão do deslizamento assísmico, o movimento de falhas sem gerar terremotos. O estudo publicado na Nature via Phys.org mostrou que proporção significativa do movimento das falhas adjacentes ocorreu sem tremores, explicando por que as dorsais geram menos sismos do que o tamanho dos movimentos sugeriria.

O reservatório de magma também se revelou muito mais ativo do que se imaginava. Em vez de apenas preencher a fissura passivamente, ele se esvazia ativamente e impulsiona tanto a abertura da crosta quanto os movimentos das falhas adjacentes.

Esse tipo de evento pode causar tsunamis ou riscos para a superfície?

Erupções em dorsais de grande profundidade raramente geram tsunamis significativos porque a coluna d’água absorve a maior parte da energia. O que esse estudo oferece de mais imediato para a ciência aplicada inclui:

  • Modelos sísmicos mais precisos: ao documentar quanto movimento ocorre sem terremoto, os dados melhoram a avaliação de risco em bordas de placas divergentes
  • Mapeamento do Oceano Índico: dados de geodinâmica das placas Australiana e Antártica com precisão sem precedentes
  • Design de futuros observatórios submarinos: o OHA-GEODAMS se torna o modelo de referência para monitoramento de dorsais

O valor está exatamente em calibrar melhor os modelos de risco. Os dados sobre o movimento da placa Australiana em relação à Antártica vão aprimorar a geodinâmica do Oceano Índico por décadas.

Tags: Erupção submarinaLavaoceanoOceano ÍndicoTerraTerremoto

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