Antes da eletricidade, iluminar uma cidade significava acender lampiões a gás, um por um, todas as noites. Em 1889, enquanto Paris inaugurava a Torre Eiffel e o Rio de Janeiro proclamava a República, Juiz de Fora ligava a primeira grande hidrelétrica da América do Sul. A cidade mineira passou a ter luz elétrica nas ruas antes da capital do próprio estado.
Por que uma hidrelétrica nasceu em Juiz de Fora em 1889?
A usina começou como solução particular de um industrial têxtil. Segundo a Prefeitura de Juiz de Fora, a Usina de Marmelos foi idealizada por Bernardo Mascarenhas para atender às suas fábricas de tecidos, como a Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas, e também para substituir o gás na iluminação pública da cidade.
O detalhe que costuma escapar é o tamanho da ambição. Mascarenhas não montou um gerador para a própria fábrica e parou por aí: fundou uma companhia de eletricidade que abasteceu a cidade e parte da Zona da Mata, conforme o Cadastro Nacional de Museus. A Companhia Mineira de Eletricidade forneceu energia até 1980, quando foi incorporada pela Cemig, quase um século de operação a partir de uma queda d’água.

Como a energia elétrica criou a Manchester Mineira?
Energia barata atraiu fábrica, e fábrica atraiu gente. O apelido de Manchester Mineira veio da comparação com a cidade inglesa que era referência industrial no século XIX, conforme o portal de turismo da Prefeitura de Juiz de Fora, que lista tecelagens, cervejarias e a própria usina entre os marcos do pioneirismo local.
A geografia ajudou antes mesmo da eletricidade. A cidade nasceu como ponto de descanso no Caminho Novo, a estrada aberta pela Coroa portuguesa para escoar ouro até o porto do Rio, e o nome curioso vem dos juízes de fora, magistrados enviados pela Corte que não eram dali. Em 1861, chegou a Estrada União e Indústria, primeira rodovia pavimentada do país, que barateou drasticamente a viagem ao Rio. Foi às margens dela que a usina se instalou.
O que restou da primeira usina hidrelétrica da América do Sul?
Restou o conjunto inteiro, protegido por tombamento. De acordo com o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA), o tombamento estadual de 2005 abrange a antiga usina, a barragem, as passarelas, o trecho de rio com a queda d’água, a vila operária e as usinas Marmelos I, I-A e II, sendo duas delas ainda em funcionamento.
A pioneira, batizada Marmelos Zero, teve vida curta como geradora: parou em 1896, superada pelas irmãs mais eficientes construídas ao lado. O prédio virou o Museu da Usina de Marmelos, com acervo cuidado pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em convênio com a Cemig, segundo a Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (Funalfa). Guarda a mesa de trabalho de Mascarenhas, o rascunho da planta da obra, o painel de controle e uma réplica do gerador Westinghouse. A Cemig informa que o museu está fechado, sem previsão de reabertura, então quem quiser visitar deve confirmar antes.
Por que a cidade da indústria também é chamada de Atenas Mineira?
Porque o segundo apelido é mais antigo que a universidade. Conforme a UFJF, a cidade já era conhecida como Atenas Mineira pela força intelectual que concentrava, reunindo cinco faculdades isoladas de Direito, Farmácia e Odontologia, Engenharia, Medicina e Economia antes de ter uma universidade federal.
A federalização veio em 23 de dezembro de 1960, por ato de Juscelino Kubitschek, numa época em que o ensino superior público se concentrava nas capitais. Juiz de Fora tornou-se a segunda universidade federal do interior do Brasil, atrás apenas da de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. A Cidade Universitária foi inaugurada em 1969, com projeto do engenheiro Arthur Arcuri, que se inspirou no relevo de Ouro Preto para encaixar o campus na topografia.
O que ver na cidade entre Minas e o Rio?
A herança industrial e universitária deixou museus e teatros no centro, a maioria a poucos quarteirões um do outro. Um dia dá conta do circuito principal.
- Centro Cultural Bernardo Mascarenhas: instalado no prédio da antiga fábrica têxtil que motivou a construção da usina, na Avenida Getúlio Vargas.
- Museu de Arte Murilo Mendes: acervo do poeta juiz-forano, ligado à UFJF, com coleção trazida de sua casa em Portugal.
- Museu Ferroviário: aberto em 1985 na antiga estação, conta a história dos trilhos que serviram à indústria local.
- Cine-Theatro Central: casa de espetáculos histórica no coração do centro, também sob gestão da UFJF.
- Parque da Lajinha: área verde com trilhas e lago, o respiro da cidade fora do circuito de concreto.
Quem quer descobrir os melhores passeios de Juiz de Fora, vai curtir este vídeo do canal De fora em Juiz de Fora, que apresenta 10 atrações da cidade, entre parques, museus, mirantes e gastronomia:
Como é o clima de Juiz de Fora durante o ano?
A altitude segura o calor mesmo no verão, e o inverno tem manhãs de frio seco. Julho é o mês mais seco, com média histórica de 26 mm de chuva, contra 257 mm em fevereiro.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Juiz de Fora
A cidade fica a 180 km do Rio de Janeiro e a 272 km de Belo Horizonte, pela BR-040, que segue aproximadamente o traçado do antigo Caminho Novo. A BR-267 liga às cidades vizinhas da Zona da Mata. O Aeroporto Regional da Zona da Mata fica a 40 km do centro.
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A cidade que aprendeu a acender a própria luz
Juiz de Fora acumulou dois apelidos que parecem brigar entre si: a Manchester das fábricas e a Atenas das faculdades. A usina de 1889 explica os dois, porque a energia que moveu as tecelagens também sustentou a cidade que viraria referência de ensino.
Você precisa parar na Zona da Mata e conhecer a cidade onde o Brasil aprendeu a acender a luz, a três horas do Rio e no meio do caminho de tudo.




