“Nos dias mais frios, a vontade de esquentar é tão grande que a gente tem até que tomar cuidado para não botar a mão no fogo por quem não vale a pena.” A reflexão de Ana Maria Braga tem apenas uma frase, mas toca num mecanismo que a psicologia leva anos estudando: por que, justamente quando estamos mais vulneráveis, tendemos a confiar em quem menos merece essa confiança? A resposta está nos padrões emocionais que carregamos desde a infância, e entendê-los pode mudar a forma como você escolhe suas conexões.
O que significa estar no “inverno emocional” segundo a psicologia?
O frio da frase não é meteorológico. Representa a vulnerabilidade emocional: aquele estado de solidão, vazio afetivo ou instabilidade em que qualquer gesto de atenção parece imenso. Nesse estado, o cérebro não avalia a qualidade da conexão — ele busca alívio imediato. É o mesmo princípio de quem está com fome e aceita qualquer coisa no prato sem verificar se está estragado.
Segundo especialistas em psicologia clínica, padrões de repetição em relacionamentos são “comportamentos, escolhas ou dinâmicas emocionais que aparecem repetidamente em diferentes relações, muitas vezes sem que a pessoa perceba.” O inverno emocional não cria esses padrões, mas os ativa com força total.

O que Jeffrey Young descobriu sobre quem vive com esse “frio” constante?
O psicólogo americano Jeffrey Young, criador da Terapia do Esquema, identificou que certos padrões emocionais se formam na infância quando necessidades básicas de afeto, segurança e estabilidade não são atendidas. Ele chamou esses padrões de Esquemas Iniciais Desadaptativos, estruturas cognitivas e emocionais que definem como a pessoa percebe a si mesma e os outros nas relações. Dois deles explicam diretamente o mecanismo descrito na frase:
- Esquema de Abandono/Instabilidade: medo constante de ser deixado por pessoas importantes, com origem em vínculos imprevisíveis ou ausentes na infância. Quem carrega esse esquema interpreta qualquer sinal de afastamento como ameaça real de perda.
- Esquema de Privação Emocional: crença de que o desejo de apoio afetivo nunca será satisfeito adequadamente pelos outros. A pessoa sente um “frio” crônico — e qualquer atenção, mesmo superficial, parece extraordinária.
Por que esses esquemas fazem as pessoas escolherem exatamente quem as machuca?
Aqui está o ponto mais contraintuitivo da teoria de Young: os esquemas não buscam o bem-estar, buscam o familiar. Na descrição clínica dos esquemas, pessoas com o esquema de Abandono/Instabilidade “podem escolher pessoas instáveis em suas relações — parceiros amorosos descomprometidos ou não disponíveis — e costumam se apaixonar com obsessão” por esses perfis. O padrão repete o ambiente emocional da infância porque é o único que o sistema interno reconhece como “real”.
Isso explica por que alguém pode ter clareza intelectual de que uma pessoa não vale a pena e ainda assim continuar naquela relação. Não é falta de inteligência: é o esquema operando abaixo do nível consciente, confundindo familiaridade com amor e ansiedade com intensidade afetiva.

Como identificar se você está “botando a mão no fogo” por um esquema desadaptativo?
O primeiro passo é reconhecer os sinais de que um esquema está no comando, não a escolha consciente. A Terapia do Esquema é indicada especialmente para quem vive “repetição de padrões disfuncionais nos relacionamentos” e tem “histórico de traumas complexos ou negligência afetiva.” Alguns sinais práticos merecem atenção:
- Sensação de que só se apaixona por pessoas que não estão totalmente disponíveis
- Medo desproporcional de afastamento, mesmo em relações estáveis
- Tendência a defender ou justificar quem claramente te trata mal
- Confundir ciúme ou ansiedade com prova de amor intenso
- Dificuldade de encerrar relações mesmo reconhecendo que são prejudiciais
Vale buscar ajuda profissional antes de entrar em mais um ciclo?
A boa notícia trazida por Young é que esquemas não são destino. Eles se formam na infância, mas podem ser identificados e modificados na vida adulta com acompanhamento terapêutico. A Terapia do Esquema trabalha justamente na origem dessas crenças, não apenas nos sintomas, o que a torna especialmente eficaz para padrões relacionais crônicos e de difícil resolução.
O frio emocional é real, a vontade de esquentar é humana, mas a escolha de onde buscar esse calor pode mudar tudo. Se você se reconheceu em algum desses padrões, não espere mais um ciclo doloroso para agir. Busque um psicólogo especializado em Terapia do Esquema — quanto antes você entender de onde vem esse frio, mais rápido consegue parar de se queimar.




