No Terminal 2 do Aeroporto Internacional Tom Jobim, no Rio de Janeiro, um Honda Civic EX-L Coupé 2008 ocupa a mesma vaga há pelo menos seis anos. Coberto por uma camada espessa de poeira, sem placas, com pneus ressecados e travas nas rodas, o veículo virou um dos maiores enigmas do estacionamento de um dos aeroportos mais movimentados do Brasil. As inscrições deixadas por curiosos na lataria suja, como “me lave”, resumem bem a situação: ninguém sabe quem é o dono, ninguém veio buscar o carro, e a conta segue correndo.
O que torna esse Civic tão incomum no Brasil?
O modelo é raro no país por uma razão simples: nunca foi vendido oficialmente aqui. O Honda Civic EX-L Coupé é a versão de duas portas da oitava geração do Civic, fabricada no Canadá e voltada ao mercado norte-americano. Com motor 1.8 i-VTEC de quatro cilindros e cerca de 140 cavalos, ele acelerava de zero a 100 km/h em menos de dez segundos. O acabamento EX-L incluía bancos de couro, teto solar elétrico, airbags laterais, freios ABS e painel digital considerado futurista para a época.
No Brasil, a Honda só vendia o Civic sedã de quatro portas. O coupé esportivo nunca teve representação oficial por aqui. O estado de abandono completo transformou o carro em um fenômeno nas redes sociais e na imprensa especializada.

Como o carro chegou ao Galeão vindo dos Estados Unidos?
O veículo foi originalmente registrado em Nova York. No painel, visível de fora, há adesivos de seguro obrigatório de Belize e registro de controle aduaneiro da Guatemala, dois países da América Central. A teoria mais aceita é que o carro cruzou cerca de 20 mil quilômetros por terra, dos Estados Unidos ao Brasil, antes de ser estacionado no Galeão.
As pistas encontradas no interior do veículo alimentam as teorias sobre a jornada do carro até o Rio. Entre os itens mais intrigantes estão:
- Adesivo de seguro obrigatório de Belize: comprova passagem pelo país centro-americano
- Controle aduaneiro da Guatemala: visível no para-brisa, indica rota terrestre pela América Central
- Ticket de estacionamento de Cabo Frio (2019): prova que o carro circulava pelo Rio antes do abandono
- Chaves sobre o banco do motorista: detalhe que mais intriga: o dono foi embora sem o carro e sem as chaves
A partir de 2020, a história para. O proprietário nunca mais apareceu e nenhuma informação sobre sua identidade foi confirmada até hoje.
Por que o carro ainda está lá e não pode ser simplesmente removido?
A resposta é jurídica. Um carro abandonado em via pública tem tratamento previsto no Código de Trânsito Brasileiro, com prazos de notificação e recolhimento ao pátio. Em estacionamento privado, as regras são diferentes. Conforme explicado pelo responsável do estacionamento do Galeão, precisa identificar a titularidade do veículo, realizar notificações formais e seguir procedimentos legais antes de qualquer remoção.
A empresa também alegou que a LGPD, a Lei Geral de Proteção de Dados, impede a divulgação de informações sobre o caso. O resultado prático é que o carro permanece parado enquanto a burocracia não avança. A situação é ainda mais complicada pela ausência de placas e pela documentação estrangeira do veículo, que dificulta a identificação do proprietário e qualquer ação extrajudicial ou judicial.

Quanto o estacionamento está cobrando por seis anos de dívida?
O valor acumulado é expressivo. Considerando a diária cobrada pelo estacionamento do Galeão, estimada em R$ 82, e o período de aproximadamente 2.192 dias de abandono, a dívida total chega a cerca de R$ 180 mil. Esse montante, naturalmente, segue crescendo a cada dia que o carro permanece na vaga. O cenário abaixo resume os elementos do caso e ilustra por que ele virou um fenômeno de atenção:
- Modelo: Honda Civic EX-L Coupé 2008, versão canadense nunca vendida no Brasil
- Estado: sem placas, pneus ressecados, coberto por poeira espessa desde pelo menos 2020
- Origem estimada: registrado em Nova York, passou por Belize e Guatemala antes de chegar ao Rio
- Dívida acumulada: aproximadamente R$ 180 mil em diárias de estacionamento
- Paradeiro do dono: desconhecido; empresa não pode divulgar informações pela LGPD
O que vai acontecer com esse carro no fim das contas?
O destino mais provável é o leilão, mas o caminho passa por etapas demoradas. Identificar o proprietário e aguardar prazos legais já leva meses. Com documentação estrangeira e sem placas, cada etapa é mais complicada. O valor de mercado, mesmo em condições precárias, pode ser alto pela raridade do modelo.
O Civic do Galeão é mais do que um carro parado. É um mistério com pneus. Enquanto a burocracia tenta resolver o que o proprietário abandonou, o veículo segue acumulando poeira, dívida e especulações. Se você passar pelo Terminal 2 do Galeão, provavelmente vai encontrá-lo exatamente onde está. Só que com mais poeira e mais R$ 82 na conta.




