Batatas que atravessaram mais de cinco séculos sem virar pó estão ajudando arqueólogos a entender como os incas enfrentavam um problema ainda atual: conservar comida por longos períodos e levá-la a regiões distantes. Encontradas em um depósito no Peru, duas unidades de chuño, batata desidratada pelo frio dos Andes, revelam uma tecnologia alimentar sofisticada usada antes da invasão espanhola.
Batatas de 500 anos foram achadas no Peru
As duas batatas foram encontradas em 2024 no centro provincial inca de Tambo Viejo, na costa sul do Peru. Segundo o estudo publicado em maio no Journal of Field Archaeology, os alimentos têm mais de 500 anos e são anteriores ao período da invasão espanhola.
O achado chama atenção porque alimentos comuns costumam se decompor rapidamente pela ação de microrganismos. Neste caso, a técnica de conservação transformou as batatas em chuños, um produto seco, resistente e capaz de sobreviver por longos períodos em depósitos antigos.

Como os incas conservavam alimentos por décadas?
A conservação era feita por liofilização natural, processo em que as batatas eram expostas às geadas noturnas de regiões muito altas dos Andes. Com o frio extremo, a água congelava e depois era eliminada, deixando o alimento desidratado e mais estável.
Os autores do estudo explicam que, no período de expansão do Império Inca, centenas de variedades de batatas eram cultivadas. Algumas eram amargas e precisavam ser processadas antes do consumo, o que tornava o chuño uma solução prática, nutritiva e estratégica.
O que o chuño revela sobre a tecnologia andina
O chuño mostra que os povos andinos dominavam técnicas complexas de produção e armazenamento muito antes da chegada dos europeus. A prática unia conhecimento climático, agricultura em altitude e organização social para reduzir perdas e garantir alimento em diferentes épocas do ano.
Essa tecnologia dependia de condições específicas e seguia etapas bem planejadas, que ainda ajudam a explicar por que o alimento resistiu tanto tempo:
- Uso de batatas adaptadas ao ambiente andino;
- Exposição às geadas noturnas em grandes altitudes;
- Desidratação gradual para remover a umidade;
- Armazenamento em depósitos ligados à rede inca.

Por que a descoberta é considerada rara?
Apesar de o chuño continuar sendo produzido e vendido em mercados tradicionais andinos, exemplares arqueológicos são raros. Segundo informações citadas pela cobertura do Live Science, esta é apenas a segunda vez que um alimento desse tipo foi identificado em um sítio inca.
A raridade torna o achado ainda mais importante para a arqueologia. Ele ajuda a confirmar que os incas não apenas produziam alimentos em grande escala, mas também criavam métodos eficientes para preservá-los e distribuí-los por áreas distantes do império.
O passado ainda tem algo urgente a ensinar
O fato de as batatas terem sido encontradas em Tambo Viejo, longe dos 3.600 metros de altitude necessários para produzir chuños, indica que o alimento foi transportado por rotas de abastecimento. Isso reforça a dimensão logística do Império Inca e sua capacidade de mover recursos.
Para Lidio Valdez, um dos autores do estudo, ainda há muito a aprender com os povos do passado. Em um mundo que desperdiça comida enquanto discute segurança alimentar, essas batatas preservadas por 500 anos deixam um recado direto: olhar para antigas soluções pode ser urgente demais para esperar.




