O nome vem do tupi e significa pedra que brilha, e o brilho era o do minério de ferro que cobria o Pico do Cauê. Em Itabira, no coração do Quadrilátero Ferrífero mineiro, essa montanha inteira virou cratera, e quem melhor narrou a perda foi um filho da cidade, Carlos Drummond de Andrade.
Como uma montanha inteira virou cratera
O Pico do Cauê erguia-se a 1.385 metros de altitude e tinha um brilho azulado que guiava viajantes desde o período colonial. A extração industrial começou em 1911, quando a Itabira Iron Ore Company obteve a concessão das jazidas de ferro.
Em 1942, durante a Segunda Guerra, o presidente Getúlio Vargas nacionalizou as minas e criou a Companhia Vale do Rio Doce, atual Vale. Décadas de exploração transformaram a montanha em uma enorme cratera, hoje estampada na bandeira do município, conforme registra a biblioteca do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O menino que via o Cauê pela janela
Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira em 31 de outubro de 1902 e viveu ali até os 13 anos. Da janela de casa, via o Pico do Cauê todos os dias, antes de a família se mudar para Belo Horizonte.
Quando voltou à cidade décadas depois, encontrou uma cratera onde havia uma montanha. Essa ferida atravessou boa parte de sua obra madura. No poema A Montanha Pulverizada, de 1973, o poeta registrou em palavras o fim do gigante de ferro que marcou sua infância.

O ferro que Drummond carregava na escrita
Nenhum verso resume melhor essa relação do que os de Confidência do Itabirano. Nele, Drummond se descreve como alguém feito de ferro, com “noventa por cento de ferro nas calçadas”, transformando o minério da cidade em metáfora da própria identidade.
A relação do poeta com a mineração era ambígua. O minério sustentava a família e a cidade, mas devorava a paisagem que ele amava. Drummond foi crítico da exploração predatória e, ao fim de um de seus poemas mais conhecidos sobre a terra natal, resume a saudade dizendo que Itabira virou apenas uma fotografia na parede, e que isso ainda dói.
A Itabira que guarda a memória do poeta
A cidade retribui o legado com uma rede de espaços geridos pela Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), criada em 1985. O destaque é o Museu de Território Caminhos Drummondianos, com 44 placas-poema em ferro fundido espalhadas pela cidade, cada uma identificando um lugar citado pelo poeta.
Entre os pontos do roteiro estão a Casa de Drummond, onde ele passou a infância, e o Memorial Carlos Drummond de Andrade, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer e inaugurado em 1998. Há ainda a Fazenda do Pontal, propriedade da família, demolida em 1973 para dar lugar a uma estrutura de minério e depois reconstruída como espaço cultural.
Quem tem curiosidade em descobrir a história e as tradições do interior mineiro, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Paulo Araújo, que conta com mais de 37 mil visualizações, onde Paulo Araújo mostra curiosidades e fatos surpreendentes sobre Itabira:
Onde fica e como conhecer Itabira
Itabira está na região central de Minas Gerais, dentro do Quadrilátero Ferrífero, a maior área de extração de minério de ferro do país. A cidade fica a cerca de 110 km de Belo Horizonte, com trajeto de aproximadamente duas horas pela BR-381 e estradas estaduais.
O município integra a Estrada Real e o Circuito do Ouro, o que facilita combinar a visita com outras cidades históricas mineiras. As visitas guiadas pelos Caminhos Drummondianos podem ser agendadas pela FCCDA.
Vá conhecer a terra do poeta
Itabira carrega uma das histórias mais paradoxais do interior mineiro: perdeu uma montanha e ganhou um poeta que a eternizou em versos. Poucos lugares no Brasil traduzem com tanta força o encontro entre paisagem, memória e literatura.
Você precisa caminhar pelas ladeiras de Itabira e enxergar a cidade pelos olhos de Drummond, onde cada esquina guarda um verso e uma lembrança da montanha que sumiu.




