Em cidades litorâneas da França, toneladas de conchas de ostras se acumulam todos os anos depois das festas de fim de ano e de grandes eventos gastronômicos. Durante muito tempo, esse resíduo foi enviado para aterros ou simplesmente abandonado em áreas afastadas. Nos últimos anos, porém, uma startup francesa passou a tratar esse material como fonte de matéria-prima para pavimentos permeáveis e outras soluções de construção sustentável, mudando a forma como esse descarte é enxergado.
Como a startup Alegina transforma conchas de ostras em infraestrutura verde?
A empresa Alegina integra o grupo de negócios que apostam na economia circular para reduzir o desperdício. Em vez de considerar as conchas como um problema de gestão de resíduos, a startup as utiliza como insumo para produtos de infraestrutura verde voltados à construção sustentável.
Esse movimento envolve coleta organizada, triagem e processamento das conchas de ostras recicladas, que depois se transformam em revestimentos de piso, componentes para telhados verdes e até peças de design. Assim, resíduos de ostras ganham valor econômico e ambiental, fortalecendo cadeias de materiais sustentáveis.

O que torna os pavimentos permeáveis da Alegina diferentes?
O carro-chefe da empresa é um pavimento drenante conhecido comercialmente como Vivaway. Ao contrário do asfalto tradicional, essa solução é projetada para permitir a passagem da água entre seus poros, reduzindo o escoamento superficial e favorecendo a infiltração no solo.
A base é composta por agregados derivados das conchas moídas, combinados com outros materiais que garantem estabilidade mecânica e resistência ao uso cotidiano. O resultado é um tipo de piso que suporta circulação de pedestres e veículos leves e, ao mesmo tempo, contribui para a drenagem urbana de forma mais eficiente.
Onde os pavimentos permeáveis podem ser aplicados nas cidades?
Os pavimentos permeáveis da Alegina têm sido aplicados em estacionamentos, calçadas, áreas de lazer e acessos internos de empreendimentos. Em cada um desses pontos, parte da água da chuva deixa de correr para o sistema público de drenagem e é absorvida localmente, aliviando a pressão sobre galerias.
Esse tipo de superfície é especialmente útil em cenários de chuvas intensas, quando bocas de lobo e canais operam no limite. A cor clara dos agregados de concha também reflete mais radiação solar do que o asfalto escuro, ajudando a mitigar o fenômeno da ilha de calor urbana em grandes áreas pavimentadas.
De que forma pavimentos permeáveis contribuem para a drenagem urbana?
A gestão de drenagem urbana envolve uma combinação de soluções distribuídas pelo território. Dentro desse conjunto, o uso de pavimentos drenantes funciona como uma “válvula de escape” para a água da chuva, aproximando o funcionamento das cidades do ciclo hídrico natural.
No caso da Alegina, o uso de resíduos de ostras adiciona uma camada extra de benefício ambiental. Ao empregar conchas de ostras recicladas como agregado, o pavimento Vivaway substitui parte de recursos minerais extraídos de pedreiras, reduzindo impactos da mineração e o volume de resíduos enviados a aterros.
Quais são os principais benefícios ambientais e urbanos dessa solução?
Para que a redução de enchentes seja perceptível em escala urbana, o pavimento drenante precisa ser combinado com outras medidas de sustentabilidade urbana. A seguir, alguns benefícios que surgem quando essas superfícies são integradas a um conjunto mais amplo de soluções.
- Redução do escoamento superficial e alívio da carga sobre redes de drenagem.
- Diminuição da impermeabilização do solo em estacionamentos e vias internas.
- Menor necessidade de extração de brita e cascalho, graças às conchas de ostras recicladas.
- Contribuição para mitigar ilhas de calor urbanas, devido à cor clara do pavimento.
- Reforço de estratégias para cidades resilientes a eventos climáticos extremos.

Como funciona o processo de reciclagem de conchas de ostras na Alegina?
O processo industrial começa na coleta junto a criadores de ostras, restaurantes e centros de processamento de frutos do mar. As conchas chegam misturadas a restos orgânicos e são encaminhadas para triagem e limpeza, garantindo qualidade e segurança para uso na construção ecológica.
Depois de secas e livres de impurezas, passam por etapas de trituração que geram granulometrias variadas. Os grãos mais grossos são usados em pavimento drenante, enquanto partículas mais finas são incorporadas a outros tipos de produtos, como componentes leves para substratos e peças de design.
Qual é o impacto da nova fábrica de materiais sustentáveis em Vendée?
Desde 2018, a Alegina vem ampliando sua escala e já trabalha com centenas de toneladas de conchas por ano. A empresa planeja uma nova unidade industrial na região de Vendée, no oeste da França, com capacidade projetada de processamento em torno de 150 mil toneladas anuais.
O local escolhido é uma antiga fundição contaminada por chumbo, que passará por descontaminação e requalificação. Com orçamento estimado em 12 milhões de euros, incluindo subsídios públicos e financiamentos, o projeto combina recuperação de área degradada e expansão da cadeia de materiais de base biológica.
Como telhados verdes e outros produtos complementam os pavimentos permeáveis?
Além dos pisos, a Alegina desenvolve sistemas que utilizam as conchas como parte da base técnica para telhados verdes. Nessas coberturas, as camadas precisam oferecer drenagem, suporte para o substrato e proteção da estrutura do edifício, equilibrando peso, retenção de água e ventilação das raízes.
Os telhados verdes ajudam a reduzir o aquecimento das superfícies, melhorar o isolamento térmico dos prédios e criar pequenos habitats para insetos e plantas. Combinados com pavimentos permeáveis, jardins de chuva e valas de infiltração, formam redes de infraestrutura verde que apoiam cidades mais equilibradas.
A startup também explora o uso desse insumo em objetos de mesa, peças decorativas e joias, valorizando a estética da madrepérola. Embora esses itens tenham escala menor em comparação aos produtos para construção, reforçam a mensagem de que o reaproveitamento de resíduos pode gerar linhas diversas de produtos. Na prática, o caso da Alegina mostra que pavimentos permeáveis, telhados verdes e design podem nascer do mesmo resíduo marinho, articulando inovação industrial, economia circular e gestão ambiental em um único modelo de negócio.




