Entre o oceano Atlântico e a imensidão da cordilheira dos Andes, um conjunto de trilhas antigas ainda provoca perguntas e pesquisas: o Peabiru. Longe de ser uma simples estrada perdida no tempo, esse caminho milenar é apontado por arqueólogos, historiadores e povos indígenas como uma vasta rede de rotas que cruzava grande parte da América do Sul muito antes da colonização europeia, conectando diferentes territórios e cosmologias.
O que é o Peabiru e por que ele ainda gera tantas dúvidas?
A palavra-chave Peabiru costuma ser associada à ideia de “trilha ancestral indígena”, mas as pesquisas indicam que não existia uma única estrada contínua. Em vez disso, havia uma rede de caminhos interligados, adaptados ao relevo, aos rios e às necessidades de cada povo, atravessando Santa Catarina, Paraná e São Paulo em direção ao interior do continente.
As dúvidas persistem porque grande parte desse sistema foi apagada ou modificada com o avanço das cidades, da agricultura e das rodovias modernas. Em muitos trechos, restam apenas referências em documentos coloniais, vestígios arqueológicos pontuais e a memória preservada por comunidades indígenas, o que permite reconstruir hipóteses, mas não um mapa definitivo.

Qual é a relação entre o Peabiru e os povos guarani?
Entre as tradições ligadas à rede de trilhas, a visão dos povos guarani tem papel central. Para segmentos desse povo, o Peabiru está ligado não apenas ao deslocamento em terra, mas também a um caminho sagrado associado ao percurso do sol e à busca da “terra sem mal”, articulando dimensões físicas e espirituais.
Nessa leitura, o trajeto funciona como eixo de orientação para a vida coletiva e para a relação com a natureza, indo muito além da categoria de “estrada antiga”. A oralidade guarani, transmitida de geração em geração, mantém viva essa camada simbólica, fundamental para a identidade de quem se reconhece herdeiro desse caminho.
Como os europeus passaram a utilizar o Caminho do Peabiru?
Quando os primeiros europeus chegaram ao litoral sul da América, muitos passaram a usar rotas indígenas já consolidadas para alcançar o interior. Um dos nomes mais citados é Aleixo Garcia, descrito como náufrago acolhido por grupos indígenas e ligado a uma expedição rumo às regiões andinas, possivelmente seguindo trechos da rede de caminhos hoje associada ao Peabiru.
Anos depois, o espanhol Álvar Núñez Cabeza de Vaca liderou uma travessia em 1541, guiado por indígenas entre a costa catarinense e Assunção, no atual Paraguai. Esses relatos mostram que os europeus não criaram o Caminho do Peabiru, mas se valeram de trilhas anteriores, deixando registros escritos que, contudo, não apagam a autoria e a anterioridade dos povos originários.
Conteúdo do canal TV Brasil, com mais de 2.7 milhões de inscritos e cerca de 36 mil de visualizações:
Onde o Caminho do Peabiru ainda pode ser percebido no Brasil?
Apesar das transformações da paisagem, alguns locais no Brasil ainda são associados à memória do Peabiru e podem conservar trechos ou indicações de seu antigo traçado. Em Santa Catarina, o município de Barra Velha é frequentemente mencionado por sua proximidade com o litoral e com o rio Itapocu, apontado por pesquisadores como parte de um dos ramais costeiros da rede.
No Paraná, a cidade de Pitanga aparece de forma recorrente em estudos e projetos locais, com vestígios que moradores e especialistas relacionam ao Caminho do Peabiru. A seguir, alguns pontos frequentemente citados em pesquisas e ações de preservação:
- Barra Velha (SC): associada ao trecho costeiro e ao Parque Natural Municipal Caminho do Peabiru, voltado à preservação ambiental e à educação patrimonial.
- Pitanga (PR): conhecida por vestígios arqueológicos, possíveis trechos de trilha, marcas no solo e inscrições rupestres em análise.
- Outras áreas do Paraná e de São Paulo: mencionadas em estudos sobre rotas indígenas de longa distância que teriam se conectado à rede do Peabiru.
Quais são os principais desafios para preservar o Caminho do Peabiru hoje?
A proteção do Peabiru envolve história, arqueologia, meio ambiente, turismo e, sobretudo, direitos dos povos originários. Estados como o Paraná passaram a reconhecer formalmente a rota como patrimônio cultural imaterial, o que abre espaço para políticas de salvaguarda, embora o avanço da urbanização, do agronegócio e das obras de infraestrutura ainda pressione áreas sensíveis.
Também é desafiador equilibrar visibilidade e preservação, já que cresce o interesse em transformar o Caminho do Peabiru em roteiro turístico histórico e de natureza. Especialistas e comunidades indígenas defendem princípios como protagonismo indígena, respeito à espiritualidade, pesquisa contínua, educação patrimonial e turismo sustentável, para que essa trilha ancestral siga como símbolo de conexão entre povos, tempos e territórios.




