Em um cenário em que a construção sustentável deixa de ser tendência e passa a ser exigência, a chamada porta de micélio surge como um exemplo concreto de como os interiores podem mudar nos próximos anos. Em vez de depender apenas de madeira extraída de florestas ou de painéis industriais de alta pegada de carbono, essa porta é literalmente cultivada a partir de resíduos vegetais e da estrutura dos fungos, apontando para uma nova geração de materiais biofabricados e circulares.
O que é uma porta de micélio e por que ela se destaca na construção sustentável?
A porta de micélio tem como base a rede de filamentos que forma o “corpo oculto” dos fungos, o micélio. Esse micélio é cultivado em resíduos agrícolas, como fibras vegetais e sobras de cultivo, dentro de um molde com o desenho da porta, criando uma matriz rígida, leve e naturalmente porosa.
Em vez de serrar placas prontas, o material nasce praticamente no formato final, reduzindo perdas e etapas produtivas. Combinado a molduras de madeira reaproveitada, o núcleo cultivado reforça a lógica de economia circular na construção, transformando restos agrícolas e sobras de madeira em um produto arquitetônico funcional e de baixo impacto.

Como funciona o processo de produção de uma porta de micélio?
O processo de produção da porta feita de cogumelos começa com a preparação do substrato, composto por resíduos vegetais limpos e triturados. Esse material é inoculado com micélio e colocado em moldes que definem o formato e a espessura do núcleo, que se consolida em cerca de duas semanas.
Após esse período, o crescimento é interrompido por secagem ou aquecimento controlado, estabilizando o biomaterial. Em seguida, o núcleo é envolvido por uma estrutura de madeira de reaproveitamento e, em alguns protótipos, recebe uma superfície interna “biossoldada”, que melhora a resistência sem recorrer a adesivos sintéticos convencionais.
Quais são as principais vantagens da porta de micélio na construção civil?
A combinação de micélio com resíduos agrícolas e madeira reaproveitada traz benefícios ambientais, técnicos e até logísticos para projetos de construção sustentável. Além de reduzir o uso de recursos virgens, o material cultivado pode ser produzido mais perto do local de uso, diminuindo transporte e emissões.
Entre as principais vantagens discutidas por especialistas em micélio na construção civil, destacam-se benefícios ligados ao desempenho, ao ciclo de vida e ao conforto nos ambientes internos:
- Tempo de produção curto em comparação com o crescimento de árvores.
- Uso de resíduos agrícolas na construção, evitando que sejam queimados ou descartados.
- Redução de emissões associadas à extração e ao transporte de matérias-primas tradicionais.
- Possível menor intensidade energética no processo de fabricação.
- Propriedades acústicas interessantes, devido à estrutura porosa do material.
Como o micélio contribui para interiores mais sustentáveis e confortáveis?
A aplicação da porta feita de cogumelos em ambientes internos está ligada à busca por interiores sustentáveis, nos quais cada componente é pensado para ter baixo impacto ao longo de seu ciclo de vida. O foco está em espaços habitacionais ou corporativos que demandem materiais renováveis, de baixa massa, com bom desempenho acústico e potencial de descarbonização.
O micélio forma uma estrutura com muitos vazios microscópicos, o que contribui para a absorção de som e redução de ecos. Em apartamentos compactos, escritórios de planta aberta ou habitações de baixo impacto, esse tipo de porta pode melhorar o conforto acústico, complementando outras soluções e ajudando a criar ambientes internos mais silenciosos e saudáveis.

Quais são os principais desafios técnicos e econômicos da porta de micélio?
Apesar do entusiasmo em torno da porta de micélio, ainda existem desafios centrais para sua adoção ampla. A resistência ao fogo e à umidade é um ponto sensível, exigindo estudos de acabamentos, camadas internas de reforço e testes padronizados para atender às normas de segurança vigentes na construção civil.
Outro ponto crucial é a durabilidade em uso cotidiano, já que portas internas sofrem impactos, manuseio constante e variações de umidade relativa. Além disso, há desafios econômicos, como garantir custo competitivo frente a portas tradicionais, padronizar processos para produção em massa e superar barreiras culturais ligadas ao uso de fungos como material construtivo.
Quais possibilidades o micélio abre para o futuro da construção sustentável?
A experiência da Rebound e do estúdio Det Levende Hus não se limita à porta sustentável. A mesma lógica de cultivo de materiais é estudada para painéis acústicos, elementos de teto, divisórias leves e outros componentes de interiores, com o objetivo de substituir, ao menos em parte, placas de gesso, espumas sintéticas e painéis derivados de petróleo.
À medida que mais testes forem realizados e dados de desempenho forem disponibilizados, a porta de micélio tende a servir de referência para outras aplicações de materiais biofabricados na arquitetura. Se os requisitos técnicos forem atendidos, a presença de materiais cultivados em interiores pode deixar de ser exceção e se tornar parte do repertório usual de quem projeta e constrói edifícios de habitação e trabalho alinhados às metas climáticas.




