Pedir um carro pelo celular virou gesto automático para milhões de brasileiros, mas por trás da tela, a engrenagem dos aplicativos de transporte está sendo desmontada e remontada ao mesmo tempo. Duas frentes disputam o rumo da mudança: de um lado, a tecnologia de segurança que as próprias plataformas já embarcaram nos apps; do outro, um Congresso que não consegue fechar consenso sobre direitos e deveres de quem dirige e quem embarca.
PIN, áudio criptografado e IA: o que já funciona dentro do carro
Antes mesmo de qualquer lei nova, Uber, 99 e InDrive trataram de blindar suas corridas com recursos próprios. A Uber expandiu o U-Código, um PIN que o passageiro informa ao motorista para confirmar a identidade antes de o carro sair do lugar. Some a isso o U-Audio: uma ferramenta de inteligência artificial que grava trechos de áudio criptografado e analisa padrões sonoros em busca de sinais de conflito.
A 99 seguiu caminho parecido, apostando em monitoramento contínuo por IA. Se o veículo para em local inesperado ou muda de rota sem motivo aparente, o sistema dispara contato imediato com o passageiro. São soluções que já operam no dia a dia, sem depender de votação em Brasília.

O projeto das câmeras que corre na frente do marco regulatório
Enquanto as plataformas inovam sozinhas, o PL 692/2025 quer transformar o videomonitoramento das corridas em obrigação legal. O texto já foi aprovado pela Comissão de Viação e Transportes e pela Comissão de Comunicação da Câmara dos Deputados. Agora falta a análise da CCJ e, em seguida, a aprovação do Senado.
Um detalhe prático chama atenção: o projeto autoriza que o próprio celular do motorista funcione como câmera, dispensando equipamentos extras. Isso reduz o custo de adesão e pode acelerar a implantação caso a lei entre em vigor.
Piso salarial, teto de taxa e os nós que paralisaram o PLP 152
O PLP 152/2025 é o projeto mais ambicioso em tramitação: pretende criar um marco regulatório completo para motoristas de aplicativo, cobrindo remuneração, direitos trabalhistas e limites para as plataformas. A votação estava agendada para 14 de abril de 2026, mas o líder do governo na Câmara, deputado José Guimarães, pediu a retirada de pauta diante de protestos da categoria em capitais como São Paulo e da falta de acordo com o relator, deputado Augusto Coutinho. O debate não tem nova data e a expectativa é de retomada apenas após as eleições de outubro.
Os principais pontos de atrito envolvem mudanças que afetam diretamente o bolso de todas as partes. Veja o que está em discussão:
- Piso por corrida: o relator propôs R$ 8,50, enquanto o governo federal defende R$ 10. A diferença é um dos motivos centrais do impasse.
- Teto de 30% na taxa de intermediação: as plataformas não poderiam reter mais do que esse percentual sobre o valor pago pelo passageiro.
- Verificação de identidade reforçada: documento oficial com foto seria exigido para motoristas e passageiros, com eliminação obrigatória de perfis falsos.
- Proteção das gravações pela LGPD: imagens e áudios das corridas só poderiam ser acessados em caso de denúncia ou investigação, conforme a Lei Geral de Proteção de Dados.

Corrida mais cara ou mais confiável? A conta que o passageiro vai fazer
Câmeras, piso salarial e novas obrigações de segurança custam dinheiro. Especialistas não descartam que parte desses custos chegue ao valor final da corrida. Ao mesmo tempo, o teto de 30% na taxa de intermediação pode redistribuir melhor o que o passageiro já paga, canalizando mais renda para o motorista sem necessariamente inflar o preço.
A equação que cada usuário terá de resolver é simples: pagar um pouco mais por um serviço em que ambos os lados sabem que a viagem está sendo monitorada, ou manter o modelo atual com menos garantias. Essa troca entre custo e confiança será o termômetro do próximo capítulo da mobilidade urbana no país.
Pontos de descanso e transparência: as medidas que já saíram do papel
Fora do Congresso, o Governo Federal começou a agir em frentes menores. Em março de 2026, anunciou a criação de pontos de apoio para descanso de motoristas e maior transparência sobre como o dinheiro de cada corrida é dividido entre plataforma e condutor. São passos discretos, mas que sinalizam uma direção: o transporte por aplicativo no Brasil está amadurecendo, e quem usa Uber, 99 ou InDrive no dia a dia ganha ao acompanhar cada capítulo dessa transformação.
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