Durante boa parte do século XX, era comum encontrar nos quintais brasileiros uma variedade de folhas, raízes e ervas que faziam parte da rotina alimentar de vegetais muitas famílias. Em vez de depender apenas do que chegava da feira ou do mercado, grande parte dos alimentos vinha desses pequenos espaços cultivados em casa, adaptados ao clima, ao solo e aos conhecimentos locais.
O que são vegetais esquecidos e por que eles ainda importam?
Quando se fala em “vegetais esquecidos”, trata-se de plantas que já foram comuns na alimentação cotidiana, mas que hoje quase não aparecem em supermercados ou hortifrutis. Em muitos casos, seguem vivas em receitas de avós, em feiras locais ou em registros de pesquisadores, ajudando a contar como cada região produzia alimento de forma diversificada.
Do ponto de vista alimentar, esses vegetais trazem fibras, vitaminas, minerais e outros compostos que complementam a dieta baseada nas hortaliças mais conhecidas. Instituições de pesquisa, como a Embrapa, estudam plantas alimentícias não convencionais (PANCs) e variedades tradicionais, buscando ampliar o repertório alimentar e reduzir a dependência de poucos cultivos centrais.

Quais PANCs brasileiras ainda resistem nos quintais?
Entre as plantas que seguem presentes, mesmo que de forma discreta, estão espécies que muitos moradores urbanos só conhecem de ouvir falar. A taioba, por exemplo, permanece associada à culinária de Minas Gerais e do Sudeste, com folhas amplas usadas em refogados, enquanto a serralha aparece em salteados simples, sobretudo em contextos rurais.
A beldroega, antes vista como “mato”, ganhou destaque por conter compostos bioativos, incluindo ácidos graxos ômega-3. Já a ora-pro-nóbis, comum em cercas vivas de cidades históricas mineiras, é estudada pelo teor de proteínas e minerais, usada em farinhas e extratos, sempre com cuidado para evitar comparações exageradas com fontes animais.
Quais raízes e tubérculos fazem parte desses vegetais esquecidos?
Algumas raízes e tubérculos também se encaixam na categoria de vegetais esquecidos, mantendo forte ligação com saberes tradicionais. A araruta já teve papel relevante na produção de fécula no Brasil, presente em mingaus e biscoitos típicos, mas foi substituída por amidos mais baratos e de manejo industrial mais simples, como o de milho.
Hoje, a araruta volta a aparecer em iniciativas que resgatam receitas antigas e sistemas agrícolas adaptados a pequenas áreas, com menos insumos externos. Outros tubérculos regionais, como certas variedades de inhame e cará, também reforçam a diversidade de sabores, texturas e possibilidades culinárias em cozinhas familiares.
Como a perda de agrobiodiversidade afeta a alimentação e a cultura?
Agrobiodiversidade é o conjunto de espécies, variedades e conhecimentos associados à produção de alimentos, que vem diminuindo em vários países. No Brasil, isso se manifesta na redução de áreas com milho crioulo e outras sementes guardadas por famílias agricultoras, que antes reuniam características adaptadas a pragas locais e solos menos férteis.
Quando variedades tradicionais são substituídas por poucas linhagens comerciais, a base genética dos cultivos se torna mais estreita e vulnerável a mudanças climáticas e novas doenças. Junto com os vegetais, também se perdem sabores, receitas, festas e modos de preparo, afetando a memória alimentar e a soberania das comunidades, que passam a depender de cadeias longas de abastecimento.
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Como resgatar alimentos que a vó cultivava no quintal?
O resgate de alimentos que a vó cultivava passa por agricultores guardiões, que mantêm sementes e mudas de variedades antigas, e por pesquisas que registram usos culinários e formas seguras de preparo, especialmente no caso das PANCs. Esse movimento fortalece a autonomia das comunidades e aproxima gerações em torno da alimentação.
Existem diferentes caminhos práticos para quem deseja conhecer, cultivar ou cozinhar com vegetais esquecidos, articulando conhecimento técnico, experiência popular e espaços de troca entre agricultores, escolas e consumidores.
- Feiras de sementes e mudas: locais onde agricultores trocam materiais tradicionais e preservam linhagens locais adaptadas ao território.
- Hortas comunitárias e escolares: ambientes para testar o cultivo de PANCs em pequena escala, estimulando educação ambiental e alimentar.
- Registros culinários: cadernos de receita, livros regionais e projetos de memória que documentam modos de preparo e histórias familiares.
- Ações de extensão rural: iniciativas que aproximam conhecimento científico, nutricional e práticas de agricultores familiares.
Qual é o futuro dos vegetais esquecidos no Brasil?
À medida que cresce a discussão sobre saúde, meio ambiente e origem dos alimentos, aumenta o espaço para que esses vegetais antigos ganhem nova função. Projetos de cozinhas escolares, restaurantes de base local e circuitos curtos de comercialização têm incluído PANCs e variedades tradicionais em cardápios e cestas de produtos.
É provável que parte dos vegetais esquecidos permaneça em nichos específicos, enquanto outros se tornem mais conhecidos nacionalmente, dependendo de pesquisa, políticas públicas, interesse de agricultores e acesso à informação clara. Cada folha, raiz ou grão resgatado contribui para ampliar o repertório alimentar, valorizar a agrobiodiversidade e preservar uma parte importante da história agrícola do país.




