A 2 horas de Belo Horizonte, um vilarejo de ruas de pedra e igrejas barrocas repousa aos pés de uma serra com cachoeiras, trilhas e picos acima de 2 mil metros. Foi aqui que Dom Pedro II escreveu em seu diário a frase que os mineiros repetem até hoje: “Só o Caraça paga toda a viagem a Minas” Catas Altas, na Serra do Caraça, combina turismo religioso e ecológico em um mesmo fim de semana, e ainda reserva para a noite uma cena que não existe em nenhum outro lugar do mundo: lobos-guarás que sobem a escadaria de uma igreja para jantar diante dos visitantes.
Por que lobos-guarás jantam na porta de uma igreja desde 1982?
Em maio de 1982, lixeiras do santuário começaram a aparecer reviradas. Os padres achavam que eram cachorros, até descobrirem que lobos-guarás desciam da serra em busca de comida. Começaram a deixar bandejas de carne nos portões. Aos poucos, os animais se aproximaram. Hoje, o alimento é colocado no adro da Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens e os hóspedes acompanham a cena em uma tradição chamada de Hora do Lobo.
A prática é monitorada por biólogos e só persiste porque o hábito de caça dos animais não foi comprometido. O lobo-guará é o maior canídeo da América do Sul e está ameaçado de extinção. No Caraça, ele virou símbolo do santuário e atração que emociona visitantes de todo o Brasil. Dom Pedro II, ao visitar o complexo no século XIX, anotou em seu diário uma frase que se repete até hoje: “Só o Caraça paga toda a viagem a Minas”.

O que o vilarejo e o santuário guardam juntos?
Catas Altas e o Santuário do Caraça formam um roteiro que mistura arte barroca, cachoeiras e mata preservada. O Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA) tombou todo o perímetro urbano de Catas Altas. As principais atrações ficam próximas umas das outras:
- Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição: tombada pelo IPHAN desde 1939, tem interior inacabado que permite ver as etapas de construção do barroco. Abriga obras atribuídas a Aleijadinho e Mestre Ataíde.
- Santuário do Caraça: fundado em 1774, possui igreja neogótica com vitrais franceses, órgão de tubos e uma Santa Ceia pintada por Mestre Ataíde. O acervo arquitetônico foi tombado pelo IPHAN em 1955. A Prefeitura de Catas Altas mantém informações sobre o patrimônio do município.
- Cascatinha: a cachoeira mais acessível do parque, a 2 km da sede, com quatro quedas e piscinas naturais entre rochas.
- Cascatona: trilha de 6 km pela Mata Atlântica até uma queda maior, recomendada para quem tem bom preparo físico.
- Pico do Sol: com 2.072 metros, é o ponto mais alto da Serra do Espinhaço. Exige guia credenciado e preparo para a subida.
- Bicame de Pedra: aqueduto construído por escravos por volta de 1892 para conduzir água da serra até as minas. As ruínas ficam no caminho entre a cidade e o santuário.
Quem busca história e natureza perto de Belo Horizonte, vai curtir esse vídeo do canal Num Pulo, com mais de 126 mil visualizações, onde Daniel e Paula exploram o centro histórico de Catas Altas e o Santuário do Caraça, em Minas Gerais:
Um patrimônio reconhecido pela UNESCO e pelo IPHAN
A Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Santuário do Caraça abrange mais de 12 mil hectares de Mata Atlântica, campos rupestres e cerrado. A área integra duas Reservas da Biosfera reconhecidas pela UNESCO: a da Serra do Espinhaço (desde 2005) e a da Mata Atlântica. O complexo arquitetônico e paisagístico foi tombado pelo IPHAN em 1955 e faz parte do Circuito da Estrada Real. O santuário recebe cerca de 70 mil visitantes por ano.

Quando o clima favorece cada tipo de passeio na serra?
A altitude entre 1.300 e 2.000 metros garante temperaturas amenas o ano inteiro. No inverno, noites geladas e céu limpo criam a melhor condição para observar os lobos-guarás e as estrelas:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Na sede do santuário, a 1.300 m, espere temperaturas mais baixas. Condições podem variar.
Como chegar a Catas Altas saindo de BH?
Catas Altas fica a 120 km de Belo Horizonte. O acesso mais rápido é pela BR-381 sentido Vitória até o trevo de Barão de Cocais, seguindo pela MG-436 e depois pela MG-129. O trajeto leva cerca de 2 horas de carro. Quem vem de Ouro Preto ou Mariana pode seguir pela MG-129 até Catas Altas. Outra opção é o trem da Vale, que parte da Estação Central de BH às 7h e chega à Estação Dois Irmãos, em Barão de Cocais, por volta de 9h. De lá, é possível tomar um transfer até o Caraça.
O vilarejo onde o tempo ainda para
Catas Altas é o tipo de lugar onde as ruas de pedra levam a casarões do século XVIII, o sino da matriz marca o ritmo do dia e a serra do Caraça aparece no horizonte de qualquer esquina. A combinação de arte barroca, Mata Atlântica e lobos-guarás jantando na escadaria de uma igreja não existe em nenhum outro lugar do planeta.
Você precisa separar um fim de semana, subir a serra e esperar o lobo chegar. Pode demorar, pode não vir, mas a noite no Caraça já vale pela lua sobre as montanhas e pelo silêncio que faz a gente ouvir o próprio pensamento.




