Um encontro entre um psicólogo em fim de carreira e um jovem decidido a interromper a própria vida abre espaço para uma investigação delicada sobre culpa, autocrítica e a forma como cada pessoa se enxerga nas relações. A situação extrema funciona como espelho de experiências comuns: diálogos interrompidos, frases repetidas mentalmente e a sensação de ter decepcionado alguém, abrindo caminho para uma questão central na psicologia contemporânea: por que tantas pessoas acreditam que são menos queridas do que realmente são?
O que é a autocrítica excessiva nas relações sociais
Para aprofundar essas ideias, o vídeo do @Nós da Questão analisa como a autocrítica, o liking gap e a distorção da autoimagem aparecem em situações extremas e cotidianas, conectando evidências científicas a reflexões emocionais sobre culpa, pertencimento e valor pessoal.
Nesse cenário, a ideia de autocrítica excessiva aparece como um personagem invisível, porém influente. Ela se manifesta em pensamentos automáticos, na revisão mental de situações sociais e na tendência de amplificar pequenos deslizes.
Em vez de apenas avaliar comportamentos, essa voz interna passa a julgar a pessoa inteira, alimentando culpa e vergonha. Em muitos casos, a dificuldade não está em como o mundo responde, mas em como cada um interpreta essas respostas e constrói sua autoimagem.
Quais evidências científicas sustentam o liking gap
Pesquisas em universidades como Essex, Harvard e Cornell deram consistência a essa ideia. Em experimentos, desconhecidos eram convidados a conversar por alguns minutos e, em seguida, avaliavam o quanto gostaram do interlocutor e quanto acreditavam ter sido apreciados.
Os resultados mostraram um padrão estável: em média, as pessoas gostaram mais umas das outras do que imaginaram ser gostadas. Esse gap indica que o cérebro tende a ser mais severo na autoavaliação do que na avaliação de terceiros, reforçando um viés de autocrítica.
Por que a mente insiste em acreditar no pior sobre si
A origem desse erro de percepção está, em grande parte, no foco de atenção durante a interação social. Enquanto a outra pessoa costuma se concentrar no conteúdo da conversa e na conexão, quem fala tende a monitorar a própria performance em detalhes.
Essa observação minuciosa de si mesmo cria uma espécie de lupa sobre supostos defeitos, que para o outro quase sempre passam despercebidos. Assim, pequenas falhas são superdimensionadas e transformadas em “provas” de inadequação pessoal.
Como o efeito holofote distorce a percepção de si
É nesse contexto que aparece o chamado efeito holofote, a crença de que todos estão atentos a cada passo, erro ou expressão. Um café derramado na camisa ou um silêncio mais longo do que o previsto podem parecer desastres para quem vive o momento.
Do lado de fora, essas situações tendem a ser vistas como ocorrências comuns, rapidamente esquecidas. A dificuldade está em convencer a mente de que ela não é o centro permanente da atenção alheia, reduzindo assim a vergonha e a ruminação.
Como autocrítica, ansiedade social e perfeccionismo se conectam
A ansiedade social atua como combustível para esse tipo de leitura distorcida. Quando a ideia de perfeição se instala como requisito para ser aceito, qualquer falha é interpretada como prova de inadequação ou rejeição iminente.
Em ambientes profissionais, acadêmicos ou afetivos, o medo de parecer desinteressante, fraco ou “estranho” leva muitas pessoas a uma vigilância constante sobre o próprio comportamento. Isso aumenta o desconforto e, em alguns casos, conduz ao isolamento e à autossabotagem.
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Como o efeito tropeço aumenta a conexão entre pessoas
Paralelamente, a psicologia da atração social aponta um dado relevante: a conexão não se dá pela imagem de impecabilidade, mas pela sensação de humanidade compartilhada. Nesse ponto entra o chamado efeito tropeço, estudado em contextos acadêmicos e organizacionais.
Indivíduos vistos como competentes tendem a se tornar ainda mais atraentes quando cometem pequenos erros. Esses deslizes, quando não comprometem a competência, podem aproximar e gerar empatia, em vez de afastar.
- Pequenos deslizes sugerem espontaneidade e autenticidade.
- Imperfeições facilitam identificação e empatia mútua.
- Performance impecável e constante pode gerar distância emocional.
De que modo a vulnerabilidade pode ser um ponto de contato
A vulnerabilidade, frequentemente tratada como defeito, aparece na literatura científica como um possível recurso de conexão. Quando alguém admite medo, arrependimento ou incerteza, abre espaço para que o outro reconheça vivências semelhantes.
Em interações terapêuticas, diálogos familiares ou conversas informais, momentos de exposição genuína costumam marcar a memória justamente por revelarem a pessoa além dos papéis que exerce. Isso reduz a solidão e cria vínculos mais autênticos.
Por que a autocrítica exagerada dificulta vínculos saudáveis

Nesse cenário, a autocrítica exagerada pode ser compreendida como uma tentativa de autoproteção. Ao fiscalizar cada gesto e antecipar rejeições, a mente procura evitar críticas, constrangimentos ou perdas afetivas.
O problema é que essa estratégia muitas vezes gera o efeito contrário: em vez de facilitar vínculos, enfraquece a espontaneidade e aumenta a sensação de solidão. Ao acreditar que é menos apreciado do que realmente é, o indivíduo tende a recuar e se expor menos.
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Quais caminhos podem aliviar culpa e autoexigência
A partir dessas evidências, diferentes abordagens em psicologia sugerem práticas simples para lidar com o liking gap e com a autocrítica severa. O objetivo não é negar erros, mas ajustar a lente por meio da qual cada situação é observada.
Relatos de obras teatrais, como a história do psicólogo e do jovem em crise, ilustram como a culpa e o medo de decepcionar podem levar pensamentos ao extremo. Reconhecer esse abismo de afinidade já representa um passo importante para questionar a narrativa interna e construir vínculos com mais autenticidade.




