Lírio-da-paz, clorofito, jiboia e algumas dracenas aparecem há décadas em listas relacionadas à qualidade do ar dentro de casa. A origem dessa fama está principalmente em experimentos realizados em câmaras fechadas, nos quais plantas e seus substratos conseguiram reduzir concentrações de determinados compostos orgânicos voláteis. O problema surge quando esses resultados são transformados na promessa de que alguns vasos conseguem “purificar” uma sala inteira, algo que os estudos em condições reais não demonstram.
O que os estudos sobre plantas e qualidade do ar realmente descobriram?
Um conhecido trabalho da NASA publicado em 1989 avaliou plantas em câmaras experimentais contendo compostos como benzeno, formaldeído e tricloroetileno. Nessas condições controladas, diferentes sistemas formados por planta, raízes, substrato e microrganismos associados conseguiram reduzir parte desses compostos ao longo do experimento.
Isso demonstrou que existe um mecanismo real de remoção, mas o ambiente do teste era muito diferente de uma casa. Uma sala recebe continuamente ar externo, possui volume muito maior e contém móveis, materiais de construção, produtos domésticos e diversas fontes de compostos voláteis. Por isso, resultados obtidos em recipientes fechados não podem ser simplesmente transferidos para uma residência.
Quais plantas aparecem com frequência nos experimentos sobre o ar interno?
Diversas espécies ornamentais foram utilizadas em estudos laboratoriais ao longo das últimas décadas. Algumas ficaram famosas justamente por aparecerem nesses trabalhos, embora isso não signifique que sejam “purificadores naturais” capazes de substituir medidas convencionais de controle da poluição interna.
- Lírio-da-paz (Spathiphyllum spp.) apareceu em testes envolvendo diferentes compostos orgânicos.
- Clorofito (Chlorophytum comosum) foi estudado em experimentos com poluentes gasosos.
- Jiboia (Epipremnum aureum) aparece em pesquisas sobre remoção de compostos voláteis.
- Dracenas (Dracaena spp.) foram incluídas em estudos clássicos de câmaras fechadas.
- Espada-de-são-jorge (Dracaena trifasciata) também é frequentemente associada a esse tema.
O vídeo abaixo apresenta algumas das espécies popularmente relacionadas ao estudo da NASA. É importante assistir mantendo a ressalva de que a remoção observada em laboratório não equivale à capacidade de limpar rapidamente o ar de uma residência comum.
Por que vasos comuns têm pouco impacto na qualidade do ar de uma casa?
Uma revisão científica publicada em 2019 analisou 12 estudos e 196 resultados experimentais sobre remoção de compostos orgânicos voláteis por plantas. Ao converter os dados para uma medida comparável à utilizada em purificadores, os pesquisadores concluíram que o desempenho passivo de um único vaso era extremamente pequeno diante da renovação de ar existente em construções normais.
A estimativa indicou que seriam necessárias aproximadamente 10 a 1.000 plantas por metro quadrado de piso para alcançar uma taxa de remoção semelhante à proporcionada pela troca normal de ar entre interior e exterior. A revisão publicada no Journal of Exposure Science & Environmental Epidemiology detalha essa comparação.
Como folhas, raízes e substrato participam da captura desses compostos?
A remoção observada nos experimentos não acontece exclusivamente pelas folhas. Alguns compostos podem entrar na planta através dos estômatos ou interagir com superfícies vegetais, enquanto raízes, substrato e microrganismos presentes no vaso também participam de processos de absorção e transformação química.
Isso ajuda a explicar por que tecnologias experimentais de biofiltração utilizam ventiladores para forçar o ar através das raízes e do substrato. Esses sistemas ativos são muito diferentes de simplesmente deixar uma planta parada sobre uma mesa e podem apresentar taxas de tratamento maiores, embora ainda dependam de projeto, manutenção e validação adequada.

O que melhora de verdade a qualidade do ar dentro de casa?
A medida mais eficaz depende do poluente. Ventilação adequada pode reduzir a concentração de muitos contaminantes gerados no interior, enquanto eliminar ou diminuir a fonte costuma ser ainda mais importante. Produtos com solventes, fumaça, combustão, determinados materiais e atividades domésticas podem liberar compostos para o ambiente.
| Medida | Função principal |
|---|---|
| Ventilação | Dilui diversos contaminantes internos |
| Controle da fonte | Evita que determinados poluentes sejam liberados |
| Purificador adequado | Pode remover partículas ou gases conforme a tecnologia |
| Plantas em vasos | Têm efeito limitado sobre poluentes em ambientes reais |
Plantas podem continuar fazendo parte de um ambiente agradável, mas não devem servir como justificativa para manter janelas permanentemente fechadas ou ignorar fontes de poluição. Purificadores também precisam ser escolhidos conforme o contaminante: filtros HEPA, por exemplo, atuam principalmente sobre partículas e não removem todos os gases.
Então vale a pena ter plantas dentro de casa?
Sim, desde que o motivo seja realista. Elas trazem vegetação para os ambientes, podem contribuir para decoração e bem-estar percebido e tornam espaços internos visualmente mais agradáveis. Estudos sobre biofiltração também continuam investigando maneiras de aproveitar plantas e microrganismos de forma mais eficiente.
O que deve ser abandonado é a promessa de que alguns vasos funcionam como equipamentos de purificação. Os estudos demonstram capacidade de capturar determinados compostos em condições controladas, mas uma residência possui ventilação, volume e fontes de poluentes muito diferentes. Plantas são excelentes elementos do ambiente doméstico; sistema de ventilação, controle de fontes e filtragem apropriada continuam cumprindo outra função.




