A hortelã aparece em muitas receitas caseiras para picadas de insetos, principalmente por causa da sensação gelada deixada na pele. Existe ciência por trás do mentol contra coceira, mas isso não significa que amassar uma folha e colocá-la sobre qualquer picada produza alívio instantâneo ou tenha eficácia comprovada como tratamento.
Como o mentol contra coceira produz aquela sensação gelada na pele?
O mentol é um composto encontrado principalmente em espécies de menta, como a Mentha × piperita. Quando entra em contato com receptores sensoriais da pele, ele ativa canais chamados TRPM8, envolvidos na percepção de temperaturas frias. Por isso, sentimos frescor mesmo sem uma queda equivalente na temperatura da pele.
Esse mecanismo também ajuda a explicar o interesse pelo mentol em produtos contra prurido. Estudos mostram que a ativação do TRPM8 pode interferir temporariamente na transmissão da sensação de coceira. Em outras palavras, não é correto dizer simplesmente que o composto “anestesia” a picada ou interrompe os sinais enviados ao cérebro.
Por que uma picada começa a coçar e ficar inchada?
Picadas de diferentes insetos provocam reações distintas, mas vermelhidão, coceira e inchaço localizado são respostas frequentes. O organismo reage a substâncias introduzidas durante a picada, desencadeando processos inflamatórios que estimulam terminações nervosas presentes na pele.
Alguns pontos ajudam a entender o desconforto:
- A Coceira surge pela ativação de vias sensoriais da pele.
- O Inchaço faz parte da resposta inflamatória local.
- A Intensidade varia conforme o inseto e a sensibilidade da pessoa.
- O Resfriamento pode proporcionar alívio temporário da coceira.
O vídeo educativo do TED-Ed, apresentado por Emma Bryce, explica de maneira visual como a coceira nasce na pele e chega ao sistema nervoso. Embora não ensine a usar hortelã, ele complementa a matéria ao mostrar justamente o mecanismo sobre o qual substâncias refrescantes, como o mentol, podem atuar.
O mentol contra coceira funciona da mesma maneira que uma folha amassada?
Não. Esse é o ponto mais importante da história. Evidências sobre mentol e coceira geralmente envolvem substâncias ou formulações com concentrações controladas. Uma folha recém-colhida contém uma mistura complexa de componentes em quantidades variáveis, portanto seu efeito não pode ser equiparado ao de um produto tópico estudado.
Uma revisão disponível no PubMed descreve o resfriamento como forma temporária de aliviar diferentes tipos de coceira e relaciona o efeito semelhante do mentol à ativação do TRPM8. A publicação, porém, não demonstra que esfregar folhas de hortelã sobre uma picada seja um tratamento validado.
Por que não é correto prometer alívio instantâneo com hortelã?
A expressão “instantaneamente” transforma uma possibilidade biológica em uma garantia que a evidência não sustenta. Algumas pessoas podem perceber frescor ou redução momentânea do incômodo, enquanto outras podem não sentir benefício. Além disso, plantas e óleos essenciais também podem provocar irritação ou reação em peles sensíveis.
Também não existe uma única “hortelã” com composição química idêntica. O gênero Mentha reúne diferentes espécies e híbridos, e a presença e a proporção de mentol variam. Por isso, extrapolar dados obtidos com mentol purificado ou óleo de hortelã-pimenta para qualquer folha cultivada em casa seria impreciso.
Quando o mentol contra coceira deixa de ser apenas uma curiosidade?
O mecanismo é interessante porque mostra como uma molécula vegetal consegue alterar nossa percepção sensorial. Experimentos identificaram o TRPM8 como peça importante no alívio provocado pelo frio e pelo mentol, abrindo caminho para pesquisas sobre substâncias capazes de modular a coceira de maneira mais controlada.
Isso é diferente de afirmar que a hortelã cura a inflamação causada por uma picada. O mentol pode atuar sobre a percepção do desconforto, mas a causa da reação continua presente. Dependendo do tipo de acidente, o tratamento e os cuidados necessários também mudam.

Em quais picadas a hortelã não deve virar solução caseira?
Picadas acompanhadas de dor ou inchaço que pioram progressivamente, mal-estar, náuseas, vômitos, manchas pelo corpo ou outros sintomas sistêmicos não devem ser tratadas apenas com soluções domésticas. O Instituto Butantan recomenda atenção especial quando a lesão evolui em vez de melhorar.
Para reações locais simples, medidas como higienização e resfriamento costumam aparecer nas orientações de primeiros cuidados, dependendo do agente envolvido. A hortelã continua interessante por revelar a química do mentol, mas a ciência disponível sustenta melhor o mecanismo refrescante do composto do que a promessa de que uma folha amassada resolverá qualquer picada.


