Melissa Fernandes - especial para o Estado de Minas
No início do ano, período em que a saúde mental ganha mais espaço nas conversas, impulsionada pelo Janeiro Branco, muita gente decide “mudar de vida” e estabelece metas para meditar mais, treinar com regularidade, dormir melhor ou organizar o tempo. O problema é que, na prática, há um abismo entre intenção e execução. Um levantamento da Forbes Health, baseado em pesquisa com adultos nos Estados Unidos, mostra que a duração média de uma resolução de Ano Novo, por exemplo, é de apenas 3,74 meses. Esse cenário, no entanto, começa a mudar com a convergência entre inteligência artificial e neurociência, cuja aplicação prática já permite transformar intenções em hábitos por meio de dados.
Ao contrário das abordagens tradicionais, baseadas em força de vontade ou disciplina genérica, a aplicação de IA ao comportamento humano parte de dados reais sobre atenção, carga cognitiva e padrões mentais. Sensores, registros fisiológicos e modelos de aprendizado de máquina permitem identificar quando o cérebro está mais propenso ao foco, ao cansaço ou à dispersão, informações-chave para criar rotinas que respeitam limites individuais.
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Para o engenheiro da computação e cofundador da Autonomic, startup que integra IA e neurociência, Gabriel Rodrigues, na maioria das vezes a construção de hábitos falha, porque as pessoas tentam repetir modelos que não consideram o funcionamento real do cérebro. “A tecnologia permite sair da ideia do ‘tente mais’ e entrar na lógica do ‘ajuste melhor’, usando dados para orientar pequenas mudanças no momento certo”, afirma.
Inteligência artificial a favor da rotina humana
Ele explica que, na prática, soluções baseadas em IA conseguem personalizar estímulos cognitivos, sugerir pausas estratégicas, reorganizar tarefas e adaptar treinos mentais conforme o desempenho observado. “Em vez de cobrar constância irrestrita, os sistemas aprendem com o usuário e ajustam o ritmo, reduzindo a frustração que normalmente leva ao abandono das metas”, completa.
Esse movimento ganha força em um contexto em que a tecnologia vem se consolidando como aliada do cuidado em saúde mental. Pesquisas recentes publicadas em periódicos científicos indicam que soluções digitais voltadas ao bem-estar psicológico já conseguem promover melhorias significativas em sintomas de ansiedade e estresse. De acordo com projeções da consultoria Mordor Intelligence, o segmento global de IA cognitiva deve mais que triplicar de tamanho, passando de cerca de US$ 33,8 bilhões em 2025 para aproximadamente US$ 110,4 bilhões até 2030.
Conhecimento, critérios e intervenções
Mas o engenheiro alerta que a proposta de uso da inteligência artificial no cuidado com a saúde mental e na mudança de comportamento exige critério e orientação técnica. Ele destaca que não se trata de recorrer a ferramentas genéricas e pedir respostas prontas, pois a IA não substitui o conhecimento clínico e neurocientífico. “Ela é uma ferramenta de apoio aos especialistas, potencializando diagnósticos, acompanhamentos e ajustes finos. É justamente essa mediação qualificada que transforma a tecnologia em um suporte de melhoria contínua, e não em mais uma promessa rápida fadada ao abandono”, frisa.
Para Gabriel, o diferencial da união de IA e neurociência orientada por especialistas está no foco em intervenções pequenas e consistentes, orientadas por dados, e não em mudanças radicais. É essa combinação que aumenta a chance de uma meta definida em dezembro ainda fazer parte da rotina em março, julho ou no fim do ano seguinte.
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“No mundo da tecnologia, já entendemos que sistemas precisam de monitoramento contínuo para performar bem. O que está mudando agora é a aplicação dessa mesma lógica ao desempenho humano. Quando a IA ajuda a identificar sinais precoces de sobrecarga ou queda de atenção, ela contribui diretamente para hábitos mais sustentáveis e decisões melhores ao longo do tempo”, destaca.
