Comércio tradicional do Barreiro acompanha expansão e busca oportunidades
Negócios locais mostram como o setor se adapta ao crescimento dos bairros, às mudanças no consumo e à concorrência
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Com cerca de 300 mil habitantes distribuídos por 54 bairros e 18 vilas, o Barreiro reúne um mercado consumidor expressivo em Belo Horizonte. Algumas histórias, de comércios tradicionais na região, que estão abertos há 30, 40 e até mais de 50 anos, ajudam a entender a transformação da região.
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O Estado de Minas conversou com comerciantes que começaram de forma modesta, ampliaram estruturas, diversificaram produtos e passaram a atender clientes de diferentes bairros do Barreiro. Trajetórias como a da Papelaria Tio Patinhas e do Depósito Paixão, entre outros, que revelam diferentes caminhos para empreender nessa região de BH.

Marcos e Lúcio, amigos que há 30 anos compraram juntos a loja de aviamentos no Barreiro. Iris Aguiar
Os estabelecimentos atuam em segmentos distintos, mas para quem está à frente dessas empresas, o crescimento do Barreiro representa uma oportunidade de ampliar o público e diversificar as atividades. Ao mesmo tempo, a concorrência, os custos de manutenção e as mudanças nos hábitos de compra exigem decisões constantes para manter as portas abertas.
A expansão da região aparece no cotidiano de quem acompanha o comércio local há décadas. Janine Ricardo, de 39 anos, responsável pela administração da Papelaria Tio Patinhas, conta que o estabelecimento cresceu junto com a estrutura urbana ao redor. A loja, que começou como um pequeno armarinho, ampliou o espaço físico e incorporou novas categorias de produtos conforme surgiam demandas dos consumidores.
“Minha mãe deve ter fundado a loja há mais de 40 anos. Mas ela começou pequenininha, e foi crescendo, essa rua aqui não era nem asfaltada ainda. E hoje ela trabalha com a minha irmã numa outra loja, a gente tem duas unidades, uma aqui, uma no Jatobá”, relata Janine, ao lembrar a trajetória do negócio fundado pela mãe, Rosilene das Graças. Segundo ela, a expansão também ocorreu nos bairros do entorno, de onde vem parte da clientela.

Rosilene das Graças, quando fundou a papelaria Tio Patinhas Arquivo Pessoal
“De cinco anos para cá, a gente viu o Barreiro dar um boom, por exemplo, de prédios. Então, a gente tem muitos prédios sendo construídos e prédios já entregues que têm condomínios de 300 apartamentos. Então, isso para o comércio é muito bom, fomenta demais”, afirma Janine.
No Depósito Paixão, a transformação aparece nas lembranças de Eustáquio de Fátima, de 72 anos, que vive no Barreiro há cerca de 48 anos e adquiriu o estabelecimento em 1996. Na época, o negócio já funcionava havia 11 anos, mas passava por dificuldades e precisava de investimentos. A família começou devagar e, segundo ele, levou aproximadamente cinco anos para ver retorno financeiro.
“Na rua onde eu moro, a minha casa foi a segunda casa da rua. Tem 48 anos que eu moro no bairro. Então, posso ver essa diferença, esse crescimento. E às vezes a gente passa numa casa, aí vem na memória: essa casa aqui, foi material todo do depósito paixão. Então, isso é uma alegria, né? Mas, a mudança foi muito grande ”, conta.

Eustáquio de Fátima, quando comprou o depósito Paixão em 1996 Arquivo Pessoal
Na avaliação de Marcos Bicalho e Lúcio Faria, donos da Loja do Compadre, a dimensão comercial da região foi decisiva para permanecer no Barreiro. O estabelecimento, dedicado à aviamentos e produtos para costura e artesanato, tem origem em 1970 e os atuais donos estão à frente da loja há quase três décadas.
“O Barreiro é um polo muito importante, é como se fosse uma grande cidade. Belo Horizonte tem alguns polos importantes e aqui é um dos principais. Por isso a gente fincou o pé aqui e ficou”, afirma Lúcio.
O público da loja não se limita a quem mora nas proximidades. Segundo os proprietários, o estabelecimento atende consumidores de diferentes partes da região, além de pessoas que trabalham com costura, pequenas confecções, tricô e crochê.
Negócios que crescem ao identificar novas demandas
A trajetória da Papelaria Tio Patinhas ilustra como a observação das necessidades dos clientes pode orientar a expansão de uma empresa. A mãe de Janine assumiu um armarinho que estava prestes a fechar e, aos poucos, acrescentou produtos conforme as pessoas procuravam itens que não encontravam ali.
O negócio deixou de se restringir a linhas e artigos de costura. Hoje, reúne papelaria, presentes, brinquedos, material de escritório e uniformes, além de produtos e serviços ligados a datas comemorativas e atividades escolares.
“Era para ser um armarinho, tipo costura, linhas, essas coisas, e ela foi transformando. À medida que os clientes vinham e falavam assim: ‘Ah, eu queria tal coisa’, ela falava: ‘Tá bom’. Aí ela providenciava. No outro dia, o cliente vinha”, conta Janine.
A estratégia continua presente na operação. A loja muda a disposição e o foco dos produtos ao longo do ano, acompanhando períodos como volta às aulas, festas juninas, Dia das Crianças e Natal. A oferta de serviços também busca resolver demandas práticas, como organizar listas escolares, encapar livros e cadernos e ajudar famílias a preparar atividades para a escola.
“Eu acho que o foco aqui nosso é muito o cliente. A gente não vende material, a gente vende solução”, resume Janine.
Na Nonaka Aviamentos, a ampliação do negócio também foi construída a partir de uma demanda específica. A avó de João Vitor Nonaka, que trabalhava como costureira, começou a vender linhas e botões junto com os serviços de costura. A atividade cresceu e, ao longo de cerca de cinco décadas, a loja ampliou sua estrutura e a variedade de produtos.
João Vitor, que administra a empresa desde que passou a trabalhar nela em 2019, avalia que o comércio de rua continua tendo espaço mesmo com a expansão das vendas pela internet. Para ele, o movimento de consumidores nas principais avenidas do Barreiro e a procura por produtos especializados mantêm a relevância das lojas físicas.
“O comércio de rua nunca morreu. Você vê que pode ter vindo mudança do jeito que for, essa região do Barreiro segue forte como esse polo de comércio, continua firme e forte. Apesar dessas mudanças, ele continua se mantendo ali, vai se renovando. Algumas lojas vão fechando, outras vão abrindo, vai mudando, mas continua se mantendo firme”, afirma.

João Vitor Nonaka, administrador da loja e neto da fundadora Iris Aguiar
Vendas pela internet ampliam o alcance das lojas
A adaptação ao ambiente digital aparece nas quatro histórias, ainda que cada negócio tenha seguido um caminho próprio. A Papelaria Tio Patinhas mantém site, vende por marketplaces e utiliza redes sociais e WhatsApp para divulgar produtos, atender pedidos e organizar entregas. A empresa também busca facilitar a compra de quem não consegue ir até a loja.
Para Janine, estar presente na internet deixou de ser uma escolha secundária. “A gente vai mudando com o tempo. A gente também está na internet, porque, se você não tiver na internet, você fica para trás. Então, a gente já tem o nosso site, já vende em marketplace”, explica.
Na Nonaka Aviamentos, as plataformas digitais ajudam a chegar a consumidores de outros municípios, inclusive onde não há lojas com a mesma variedade de materiais. A produção de vídeos e conteúdos para as redes sociais também faz parte da estratégia de divulgação.
João Vitor observa que a internet não serve apenas para vender produtos que já eram procurados. Ela também ajuda a apresentar atividades manuais a novos públicos. Segundo ele, o crochê e o tricô passaram a ser vistos por muitos jovens como hobbies, formas de expressão e possibilidades de renda.
“Hoje nós temos pessoas muito jovens que fazem. É um hobby muito presente na vida de muita gente. Deixou de ser essa ideia de que é só o pessoal mais velho que faz, é só uma coisa de aposentado. Não é verdade. Seja como hobby, seja como fonte de renda, foi um setor que se renovou muito nos últimos anos”, afirma.
O Depósito Paixão também incorporou ferramentas digitais à rotina, especialmente para divulgação, marketing e atendimento. A família tem transferido gradualmente parte das responsabilidades para os filhos, que, segundo Eustáquio, têm mais familiaridade com as novas tecnologias.
“É mais do que justo. Eu já tenho 30 anos de aposentadoria e já estou mais na retaguarda mesmo. Quero estar sempre junto, mas deixando que toda essa movimentação fique com eles”, conta.
Custos, concorrência e poder de compra pressionam o comércio
Se a expansão da região abre oportunidades, manter uma empresa em funcionamento também exige enfrentar dificuldades. Na Papelaria Tio Patinhas, Janine percebeu uma redução no valor gasto por parte dos clientes em 2026. Ela cita como exemplo consumidores que antes compravam mochilas de cerca de R$ 300 e que passaram a procurar opções mais baratas.
“Achei que esse ano está sendo bem mais difícil. A gente está vendo que o poder de compra das pessoas está bem menor. Um pai que comprava, por exemplo, uma mochila de R$ 300, hoje já quer uma mochila mais em conta. Então, a gente tem que mudar o nosso olhar na compra, mudar o nosso olhar na venda”, diz.
No setor de aviamentos, os amigos Marcos e Lúcio, da loja do Compadre, apontam a concorrência de produtos importados como uma preocupação. Para os proprietários, a disputa por preço torna mais difícil manter a operação e exige atenção à qualidade das mercadorias e ao atendimento.
“Em 40 anos, trabalhando juntos tem muita história, né? Planos de governo. A loja já ficou com o estoque cheio, com estoque vazio, e o estoque voltou a encher, ficou vazio novamente. Passamos por problemas de planos governamentais muito sérios, pelo cruzado, plano real, etc. Mas nós estamos aqui, enfrentando as dificuldades. Temos agora o concorrente maior da China. Produtos da China que chegam às vezes sem imposto aqui. E a gente está enfrentando isso e estamos trabalhando para que haja uma correção do rumo”, relata Marcos Bicalho.
Os desafios também incluem a necessidade de investir em novos produtos, acompanhar mudanças no setor e manter a competitividade. No Depósito Paixão, a família destaca que o mercado de materiais de construção passa por mudanças frequentes nas ferramentas e nos produtos disponíveis, o que exige atualização constante.
“A gente trabalha sempre com investimento, nunca relaxa. Igual eu falei, depósito de material de construção é um é um ramo onde evolui muito tecnicamente, em tudo, sobre material, sobre ferramenta, sobre maneira de trabalhar. Então, a gente precisa estar sempre atento a isso, buscando diversificar nossos mix de produtos, para permanecer no mercado”, finaliza Eustáquio.
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