Como o café venceu a seca no Norte de Minas e mudou sina de retirantes
Com a expansão do "café do sertão" graças a inovações no semiárido, filhos da terra retornam e prosperidade atrai até lavradores de áreas mais tradicionais
O tratorista João Otávio dos Reis Moreira saiu para trabalhar em colheita no Alto Paranaíba e agora retornou para perto da família, no Norte crédito: Luiz Ribeiro/EM/D.A Press
Grão Mogol – A produção de café, que se expande e supera as adversidades climáticas no Norte de Minas adotando novas tecnologias, criou oportunidades de emprego e renda melhorando a vida dos moradores da região, que, ao longo de décadas, eram obrigados a se deslocar em busca de trabalho em outras terras. Uma inversão do processo migratório que fica evidente na mudança de vida de trabalhadores como o tratorista João Otávio dos Reis Moreira, de 29 anos.
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Atualmente, ele trabalha em uma fazenda de café no município de Grão Mogol, a 50 quilômetros de Francisco Sá, cidade em que nasceu e onde mora sua família. João Otávio conta que saiu de casa aos 22 anos. Durante cerca de cinco anos, labutou em lavouras de café em Patrocínio, no Alto Paranaíba, e em plantações de laranja e criação de suínos em Monte Alegre de Minas, no Triângulo.
“Trabalhar na minha região é a melhor coisa que existe. A vida é bem mais barata, pois temos menos custos”, explica o tratorista. “Espero que o plantio de café na nossa região continue crescendo e que o povo daqui não tenha mais que ir pra longe para procurar emprego”, completa João Otávio, que concluiu o ensino médio, é casado e pai de um filho de 3 anos.
Marli Santos Azevedo destaca as oportunidades que vieram com a cultura, inclusive para a mão de obra feminina Luiz Ribeiro/EM/D.A Press
Do mato às oportunidades
“Antes, aqui era só mato. Ninguém entrava. Quem conheceu este lugar antes e vem aqui hoje, não acredita. Tudo mudou mesmo, trazendo mais oportunidades.” O testemunho é da lavradora Marli Santos Azevedo, moradora da zona rural de Grão Mogol, ao se referir à plantação de café no município onde está trabalhando. “Aqui era um lugar que não tinha emprego. Hoje, tem muito. Deus ajude que essa prosperidade continue”, completa a lavradora, cujo marido segue dando duro em uma carvoaria, que, antes da cafeicultura, era das poucas opções de trabalho da região. Ela, que atua no plantio com mais sete mulheres, lembra ainda que a cafeicultura abriu oportunidades para o público feminino.
O agrônomo e produtor Iago Aguiar salienta que o fato de o Norte de Minas contar com pessoas que saíram paraabalhar nas lavouras cafeeiras em outras regiões representa um ponto positivo para os investidores do “café do sertão”. “É interessante que a região já tenha uma mão de obra preparada. O cultivo do café não é só plantar. É preciso que as pessoas conheçam técnicas para que a planta tenha um desenvolvimento radicular satisfatório”, explica Iago. “Na hora da colheita, se a pessoa já tem o costume de praticar o serviço, o trabalho fica mais fácil e mais rápido”, acrescenta.
Experiência germinaem novas terras
Mas nem só de filhos da terra vive a cafeicultura de Grão Mogol, cujo sucesso atrai também gente de fora, como Jusciney Alves de Oliveira. Ele é natural de João Pinheiro, no Noroeste do estado, área de destaque na produção de grãos. Com experiência no segmento, há pouco mais de um ano deixou a região de origem para gerenciar uma fazenda de café na cidade do Norte de Minas. “A gente veio pra cá em busca de novas oportunidades e melhoria na vida profissional”, afirma, destacando que trabalha para uma empresa que prioriza a contratação de pessoas com certa afinidade com a cafeicultura.
O gerente já trabalhou em terras de clima ameno, como na Serra da Canastra. Porém, não encontrou dificuldades para se adaptar ao calor do Norte de Minas. E ressalta o potencial da região. “Acredito que esta região é muito promissora para o cultivo do café, contando com terras com preços atrativos e uma amplitude térmica muito boa, com mais luminosidade”, diz ele, lembrando da necessidade de irrigação para superar a carência hídrica.
“A cafeicultura hoje saiu um pouco daquele sistema familiar e conta com grandes grupos empresariais, sendo feita com muita tecnologia”, afirma Jusciney, que gerencia uma fazenda que iniciou recentemente a produção de café em Grão Mogol. A área é de propriedade de José Carlos Grossi, produtor tradicional da região de Patrocínio, que está apostando no novo polo da cultura no sertão mineiro.
Jusciney cita como uma das inovações implementadas na cultura cafeeira no Norte de Minas a telemetria: um computador de bordo instalado nos tratores, que monitora todo o funcionamento da máquina. “Com a telemetria, dá para acompanhar todas as interrupções de funcionamento do trator e qual o motivo da parada: se foi um pneu furado ou a quebra de alguma peça. Assim, no fim do dia, a gente consegue entender a eficiência operacional e a eficiência energética”, explica o gerente, destacando que a inovação tem como principal resultado o ganho financeiro, por possibilitar o controle e a redução de custos.
Com experiência em outras regiões, Jusciney Oliveira hoje gerencia fazenda de café no Norte de Minas Luiz Ribeiro/EM/D.A Press
De olho no céu e cuidando da água
O gerente Jusciney Oliveira explica que outro recurso tecnológico instalado na fazenda é uma estação meteorológica, que acompanha com precisão as temperaturas e o regime de chuvas durante todo o ano. A partir dos dados, é feito o controle da irrigação e da adubação da cultura. A propriedade já conta com 300 hectares plantados de café, com a maior parte do cultivo na fase inicial. A fazenda gera 50 empregos diretos, ocupando 100 pessoas nas épocas de colheita.
O plantio de café é irrigado por sistema de gotejamento, com água de uma barragem construída na própria fazenda. A lavoura também recebe a fertirrigação, técnica agrícola que consiste em aplicar fertilizantes dissolvidos diretamente na água de irrigação, garantindo que os nutrientes cheguem de forma fracionada e mais precisa às raízes da planta.
Os novos cafezais do semiárido mineiro atraem também a força de trabalho vinda de outros estados. José Anísio dos Santos, de 34 anos, se deslocou do município de Cedro de São João, em Sergipe, para trabalhar na plantação de café em Grão Mogol. “Eu gosto de ‘correr trecho’. Mas estou gostando muito daqui. Vim sozinho, mas quero trazer minha família toda”, declara Anísio, casado e pai de seis filhos.
José Anísio dos Santos: de Sergipe para o cultivo de café em Grão Mogol, no Norte MINEIRO Luiz Ribeiro/EM/D.A Press
Resistência e produção sustentável no semiárido
Além das novas tecnologias, o bom desempenho da cafeicultura no sertão mineiro é favorecido pelo cultivo de variedades da planta mais resistentes ao clima semiárido. É o que destaca Ana Carolina Gomes, analista de Agronegócio da Federação da Agricultura do Estado de Minas Gerais (Sistema Faemg/Senar). “Hoje, graças à pesquisa, temos tecnologias adaptadas às condições locais, com variedades produtivas aptas às temperaturas mais elevadas e à menor disponibilidade hídrica. Entre as espécies mais aptas está o café conilon, que tem apresentado bom desempenho na região”, afirma Ana Carolina.
A especialista ressalta que a escolha da espécie ou variedade em combinação com outras tecnologias foi o que permitiu a expansão da cafeicultura no semiárido. “Entre elas, destacamos a irrigação de alta eficiência, sistemas de monitoramento climático, manejo da irrigação baseado em sensores e estações meteorológicas, fertirrigação, mecanização, agricultura de precisão e monitoramento por drones e imagens de satélite”, descreve a representante do Sistema Faemg/Senar, destacando a redução de desperdício, de impactos ambientais e de custos operacionais, com aumento de produtividade.
Entre as ações voltadas para a sustentabilidade na produção cafeeira, a analista cita o uso racional da água, proteção de nascentes, práticas conservacionistas de cobertura e conservação do solo e manejo da matéria orgânica, que também contribuem para aumentar a retenção de umidade e melhorar a eficiência do sistema produtivo em condições de seca.
Na mesma linha, o gerente regional do Senar Minas em Montes Claros, Luiz Rodolfo Quaresma, reforça que o plantio de café ocupa novas áreas no Norte de Minas e no Vale do Jequitinhonha graças às novas tecnologias. “Com os avanços tecnológicos, especialmente no armazenamento de água, no manejo do solo para melhor absorção de água e na gestão dessa água, permitindo uma irrigação ideal e adequada para o café, a gente consegue ter uma produtividade cada vez maior, desde os pequenos aos grandes produtores, gerando, assim, riqueza e produtividade que ajudam a manter tanto os trabalhadores como os proprietários nas áreas de café, fortalecendo a produção e evitando o êxodo rural”, conclui Quaresma.
5 mil
hectares de café estão em produção no município de Grão Mogol, situado na região da Cordilheira do Espinhaço, no Norte de Minas, segundo a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-MG). Outros 3 mil hectares estão em implantação
Com o objetivo de fortalecer a cafeicultura na região, vem sendo articulada a criação da Associação dos Produtores de Café do Norte de Minas. “Uma das primeiras ações será a realização de um estudo profundo sobre o que temos e o potencial da região para a cafeicultura”, afirma o produtor e investidor Walter Abreu, que participa da iniciativa. Abreu integra o projeto Ser-Tão Café, que envolve um grupo de empresários e produtores que investem em novos plantios do grão nos municípios de Grão Mogol, Botumirim, Cristália e Itacambira, situados na Cordilheira do Espinhaço. Segundo ele, o grupo prepara o plantio de 10 mil hectares de café, mas vislumbra alcançar 20 mil ou até 30 mil hectares em 10 anos.