"Café do sertão": grão brota no semiárido e muda rota de plantio e migração
Novas tecnologias e uso racional da água fazem lavoura florescer no Norte de Minas, atraindo trabalhadores que haviam partido e até gente de outros estados
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Grão Mogol – A cafeicultura avança no Norte de Minas e o produto que não pode faltar em uma boa mesa mineira convida para o retorno ao lar trabalhadores que antes eram obrigados a sair em busca de renda nas colheitas do Sul do estado e do Alto Paranaíba. Em nova reportagem da série “De volta para casa”, o Estado de Minas mostra como o “café do sertão”, adubado com novas tecnologias, controle biológico de pragas e práticas conservacionistas, além de captação e uso racional da água, vem vencendo a seca e obtendo altos índices de produtividade e qualidade no semiárido. De quebra, os avanços ajudam a fixar moradores na terra natal e até atrair gente de fora ou que havia partido.
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O Norte do estado expande suas áreas de plantio recebendo investimentos com a chegada de grandes agricultores originários de terras com tradição na cafeicultura, que agora apostam no potencial do “café do sertão”. Entre eles estão nomes conhecidos da atividade, que contribuíram para que Minas Gerais se tornasse o maior produtor nacional de café, como José Carlos Grossi e José Paulo Roquetto, da empresa Bem Brasil. A região recebe plantios de variedades cafeeiras desenvolvidas com orientação técnica dos pesquisadores Roberto Santinato e José Braz Matiello, que se destacam pelos estudos sobre o cultivo em nível mundial.
Entre as novas técnicas que amenizam a carência de chuvas, viabilizam e impulsionam a produção cafeeira e outras culturas em Grão Mogol, no Norte do estado, estão os chamados “piscinões”, que armazenam água para uso na estiagem, aumentando a regularidade da produção durante o ano inteiro. São reservatórios artificiais, com revestimento de geomembrana sintética (mantas impermeáveis que evitam a infiltração). “A água é captada nos períodos de chuva em rios, lagoas e outros mananciais e levada aos piscinões, em pontos mais altos da propriedade, o que facilita a irrigação”, explica o produtor Walter Abreu, integrante de um grupo de investimentos que aposta no potencial do “café do sertão”.
A inovação dá segurança hídrica ao produtor no semiárido no período crítico da seca, que dura em torno de seis meses na região, de abril a outubro. Os produtores de café do Norte de Minas também adotam a irrigação por gotejamento (feita no pé da planta), sistema de alta eficiência que permite reduzir o consumo de água em até 30% em comparação com métodos tradicionais. “Com o café irrigado por gotejamento, os cafeicultores de Grão Mogol vêm alcançando produtividade média de 50 sacas por hectare, enquanto a média nacional é de 34,2 sacas/hectare”, informa Abreu.
Nova tecnologia também nas mudas
Um novo modelo de produção de mudas de café, que garante melhor custo-benefício, germinação e sustentabilidade ambiental é outra inovação que vem sendo usada em Grão Mogol. No sistema paper pot, a planta é cultivada em um papel biodegradável –– em substituição ao antigo saquinho plástico, que polui o ambiente –, germinando em um substrato (conjunto de nutrientes) específico, conjunto preparado em máquina fabricada exclusivamente para o sistema.
A técnica é adotada pelo agrônomo Iago Aguiar, de 28 anos, cuja família deixou Patrocínio, no Alto Paranaíba, para se dedicar à cultura no Norte de Minas. O avô materno dele, José Gonçalves Dias, foi pioneiro da cafeicultura no cerrado mineiro, onde iniciou a atividade na década de 1960. A família mudou-se para Grão Mogol em 2020 e já tem uma área plantada de 145 hectares na Fazenda Aguiar.
Com o novo sistema, o agrônomo fornece mudas de café para agricultores de todo o estado, atuando como um multiplicador. Ele salienta que o uso do substrato no lugar da terra elimina a transmissão de doenças para viveiros e cafezais, entre outras vantagens. “O transporte é mais barato, e a muda no paper pot tem um desenvolvimento radicular (ramificação das raízes no solo) extremamente positivo, garantindo também maior rapidez no crescimento da planta”, explica Iago.
Outra inovação usada pela família é a biofábrica, pequena unidade instalada na própria fazenda que produz defensivos biológicos obtidos a partir de micro-organismos, usados no controle de pragas e doenças das plantas. A iniciativa elimina a contaminação do meio ambiente e diminui consideravelmente o uso de agrotóxicos nas lavouras. A produção sustentável também se dá com o consumo de energia solar, gerada a partir de placas fotovoltaicas instaladas na propriedade.
Iago Aguiar afirma que recorre à água de poço tubular para irrigar a lavoura quando falta chuva e na época da floração. “Mas temos que levar em consideração que o café não exige um grande consumo de água em comparação com outras culturas”, afirma.
O agricultor Charles Jackson Costa de Aguiar, pai de Iago, conta que, antes, família plantou café no Alto Paranaíba por décadas. “Fizemos a mudança por dois motivos: as geadas e o preço alto da terra na região de Patrocínio”, explica ele, que tinha uma área relativamente pequena, de 19 hectares, e era obrigado a arrendar terrenos para expandir o plantio.
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O cafeicultor decidiu em definitivo seguir para o Norte de Minas depois de uma forte geada que atingiu os cafezais em Patrocínio, em 2020, além de sofrer prejuízos com granizo. Na época, já tinha conhecimento das vantagens de Grão Mogol para a cafeicultura, como a boa condição de altitude e terras mais baratas.