Braskem protocola pedido de recuperação extrajudicial
Petroquímica reconheceu dívida de aproximadamente R$ 56,2 bilhões nesta segunda-feira (24/8) e disse ter 39,6% do apoio dos credores sujeitos a receber créditos do plano
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A Braskem protocolou nesta segunda-feira (24/8) seu pedido de recuperação extrajudicial. A petroquímica reconheceu uma dívida de US$ 10,9 bilhões (aproximadamente R$ 56,2 bilhões) e disse ter 39,6% do apoio dos credores sujeitos a receber créditos do plano.
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De acordo com fato relevante, o objetivo do pedido é assegurar um ambiente jurídico estável, protegido e adequado para a negociação e implementação da reestruturação das suas obrigações financeiras.
Nos últimos dias, a companhia fechou com seus credores as linhas gerais de um acordo para renegociar os débitos, abrindo caminho para o pedido formal de recuperação extrajudicial na Justiça.
A empresa disse que a reestruturação envolverá apenas dívidas financeiras, sem afetar o fluxo de pagamentos a fornecedores e funcionários, por exemplo.
Assinam o pedido a Braskem S.A. e cinco companhias do grupo constituídas na Holanda: Braskem Netherlands B.V., Braskem Netherlands Inc. B.V., Braskem Trading & Shipping B.V. (BT&S), Braskem Netherlands Finance B.V. e Braskem America Finance Company.
O plano cobre o passivo financeiro quirografária (sem garantia real) da companhia, basicamente composto por créditos intercompany (empréstimos feitos por empresas do mesmo grupo) e títulos de renda fixa ou cartas de crédito.
A Braskem se comprometeu a atingir, em 90 dias, o quórum estabelecido por lei para homologar o plano na Justiça, que exige mais de 60% dos credores referenciando os termos propostos pela companhia.
A petroquímica é controlada pela gestora de private equity IG4 (50,1% das ações com direito a voto) e pela Petrobras (47%). Magda Chambriard, CEO da estatal, é presidente do conselho da Braskem.
Plano não definitivo
O plano protocolado hoje ainda não é o definitivo. Durante os próximos três meses, a Braskem vai negociar um plano atualizado que será submetido à 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo.
No documento inicial, a companhia explicou que passa por uma grave crise de liquidez decorrente do ciclo prolongado de baixa da indústria petroquímica global, com queda de demanda, excesso de oferta mundial, compressão de spreads e perda de competitividade dos produtores base nafta.
Além disso, pesam fatores extraordinários, como as obrigações relacionadas ao afundamento do solo em Alagoas, causado pelas atividades nas minas de sal em Maceió, o aumento de custos operacionais e a "volatilidade do mercado internacional devido às incertezas sobre a duração de tensões geopolíticas".
Todo o processo de negociação com os credores é realizado na Câmara Wind de Mediação, uma câmara privada de negociação de conflitos empresariais.
Nesta segunda, venceria uma proteção emergencial de 60 dias contra credores. Com o pedido de recuperação extrajudicial, a companhia continuará protegida contra ações de bancos e detentores de títulos.
As ações da empresa na B3 fecharam o dia em queda de 6,7%, a R$ 4,73. Na mínima da sessão, recuaram 7,3%, a R$ 4,70
Ao longo das últimas semanas, a Braskem acordou com os credores financeiros as linhas gerais do plano da recuperação extrajudicial. Num primeiro momento, a companhia pretende postergar o pagamento das dívidas, tanto do principal quanto dos juros.
Segundo pessoas com conhecimento do assunto, o projeto também vai prever como se dará uma eventual capitalização, caso apenas o adiamento das dívidas não seja suficiente para reestruturar a companhia.
Futuramente, se necessário, os principais acionistas, Petrobras e IG4, podem vir a capitalizar a companhia. Por esse pré-acordo fechado com os credores, outra opção seria trazer dinheiro novo de outros investidores por meio de uma oferta de ações. Uma eventual conversão de dívidas em capital também pode acontecer.
Nas conversas que acontecerão nas próximas semanas, Braskem e credores vão chegar a um acordo sobre quais indicadores financeiros vão determinar a necessidade, por exemplo, de uma eventual capitalização.
A ideia dos acionistas é que, em recuperação extrajudicial, a companhia consiga implementar uma reestruturação mais profunda de suas operações.
Histórico
Fundada em 2002, a empresa nasceu da consolidação de ativos petroquímicos da antiga Odebrecht (atual Novonor). Hoje avaliada em cerca de R$ 3,4 bilhões, a companhia está muito distante do auge registrado em outubro de 2017, quando seu valor de mercado superou R$ 60 bilhões.
Na última sexta-feira (21/8), a petroquímica havia afirmado ao mercado não ter se decidido sobre a possibilidade de uma recuperação extrajudicial, mas que havia intensificado a negociação com credores e avaliado medidas de proteção.
No segundo trimestre de 2026, a companhia divulgou receita líquida de R$ 21,72 bilhões, crescimento de 22% sobre o segundo trimestre de 2025, um Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de R$ 1 bilhão e um lucro líquido de R$ 3,33 bilhões, revertendo prejuízo de R$ 267 milhões registrado no mesmo período do ano anterior.
A alavancagem, um dos principais indicadores que apontam o tamanho do problema da dívida, chegou a mais de 18 vezes o Ebitda, muito acima dos limites considerados saudáveis no mercado. Ao fim de junho, o indicador estava em 6,74 vezes.
Em junho, a companhia finalizou o processo de entrada da gestora IG4 na operação. A transação foi feita a partir da venda da maior parte do controle da Novonor no negócio, que repassou 50,1% do capital votante e 34,3% do capital social da petroquímica ao fundo Shine I.
O restante das ações pertence à Petrobras, e a Novonor ainda manteve 4% das ações. A assinatura do contrato foi anunciada no dia 20 de abril.
Em dezembro do ano passado, quando anunciou a intenção de compra da fatia da Novonor, a IG4 comprou cerca de R$ 20 bilhões em dívidas da construtora com os maiores bancos do Brasil. As ações da Braskem eram dadas como garantia nesses contratos, por isso a gestora se transformou em acionista da empresa.
Cronologia da crise
Em 2015, a Braskem realizou seu último grande investimento ao anunciar a construção de uma planta fabril no México, onde hoje opera a subsidiária Braskem Idesa. O objetivo era reforçar sua presença global na indústria petroquímica através da joint venture com a mexicana Idesa.
Na ocasião, a companhia desembolsou US$ 5,2 bilhões para montar uma fábrica focada na produção de eteno base gás e três plantas de polietileno.
Acontece que, meses após a inauguração da planta mexicana, em 2016, a operação Lava Jato atingiu o coração da Odebrecht e jogou a construtora numa espiral de dívidas. Na busca por dinheiro para quitar seus passivos, a Odebrecht iniciou tratativas para vender sua participação na petroquímica.
Foram 10 anos tentando encontrar, sem sucesso, uma solução para a Braskem, que sofreu com o colapso financeiro de sua controladora justamente quando precisava de solidez financeira.
Colapso em Maceió
Dois anos depois, em março de 2018, a companhia viu o início de um dos maiores desastres ambientais do país com o afundamento de solo em bairros de Maceió (AL). A causa foi a extração inadequada de sal-gema em 35 minas subterrâneas, que causou tremores de terra, rachaduras em imóveis, fendas nas ruas e a evacuação de mais de 60 mil pessoas que moravam nos bairros do Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e Farol.
A atividade de mineração só foi interrompida na região em maio de 2019. Naquele ano, a Odebrecht entrou em recuperação judicial, o que, combinado com o passivo ambiental de Maceió, ajudou a agravar a crise financeira da Braskem.
Apesar da interrupção das atividades de mineração, em novembro de 2023 houve o aumento abrupto na velocidade de afundamento do solo. No final daquele mês, a prefeitura decretou emergência por 180 dias pelo "iminente colapso" de uma mina – o que acabou se concretizando em menos de duas semanas, quando o rompimento da Mina 18 provocou a abertura de uma cratera de 300 metros de diâmetro.
Em novembro de 2025, dois anos após o desastre, a Braskem assinou um acordo com o governo de Alagoas para o pagamento de R$ 1,2 bilhão em indenização pelos danos causados com o afundamento do solo – montante que se soma ao que já foi desembolsado anteriormente.
O valor foi dividido em parcelas anuais ao longo de 10 anos, sendo que o governo ainda complementou um pacote de investimentos de cerca de R$ 2,3 bilhões, voltado para a recuperação de 13 municípios da região metropolitana de Maceió.
O valor foi criticado por movimentos de vítimas do desastre, que se apoiavam em estimativas do próprio governo estadual indicando mais de R$ 30 bilhões somente em danos.
Nos últimos dois anos, a Braskem diz que sofreu com o excesso de oferta global de petroquímicos, o que ajudou a derrubar os preços dos produtos. Esse quadro foi agravado pelo aumento de importações baratas vindas da Ásia, produto no qual a participação da Braskem no mercado brasileiro chegou a 70%.
Fora do país, a operação mexicana entrou em dificuldades e complicou a situação da Braskem, uma vez que a companhia tinha um contrato de suporte financeiro em um empréstimo tomado pela Idesa e que poderia ser acionado caso a subsidiária entrasse em recuperação judicial nos EUA (o Chapter 11), o que aconteceu.
A companhia chegou a acordos com credores e acionistas para abater a dívida em mais de US$ 920 milhões (R$ 4,78 bilhões) e espera sair do Chapter 11 dentro de 60 a 90 dias, acrescentando que suas operações diárias continuarão funcionando normalmente. A Braskem, acionista majoritária da Braskem Idesa, informou que contribuirá com US$ 476 milhões (R$ 2,48 bilhões).
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A saída formal da Novonor e a chegada da IG4 gerou alívio momentâneo, já que a gestora é especializada em recuperar a operação de empresas em crise.