WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - O FMI (Fundo Monetário Internacional) reduziu a previsão de crescimento da maioria dos países em meio à guerra contra o Irã, iniciada no fim de fevereiro com ataques coordenados dos Estados Unidos e Israel. A previsão global é de 3,1% de crescimento, uma retração de 0,2% em comparação com a projeção de janeiro.
Apesar da tendência de queda global, Brasil, que antes tinha a perspectiva de 1,6% pelas projeções do Fundo em janeiro, ganhou 0,3% ponto percentual, e agora deve ter uma expansão de 1,9%. O país, assim como a América Latina, acaba sendo um dos que caminha contrário à tendência de outras nações, como EUA e China, que tiveram uma queda na projeção do crescimento.
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Ambas as potências retraíram 0,1% - Estados Unidos foi de 2,4% para 2,3% e a China de 4,5% para 4,4%. Os dados constam no relatório Perspectivas Econômicas Mundiais de abril, que foram revisados em comparação ao mesmo documento lançado em janeiro deste ano.
Pierre-Olivier Gourinchas, economista-chefe do FMI, nesta terça (14), destacou que o Brasil é um exportador de energia. Portanto, está se beneficiando em 2026 do aumento dos preços da commodity. "No entanto, esperamos que, seja por meio de um aperto das condições financeiras ou de um aumento da inflação, possa haver uma leve desaceleração em 2027", disse ele.
Petya Koeva Brooks, diretora adjunta no Departamento de Pesquisa do FMI, afirmou que a revisão positiva do Brasil está relacionada também a um forte segundo semestre que o país apresentou, e ao impulso que os resultados econômicos trouxeram para este ano. "É importante destacar que o Brasil é um dos países com uma participação muito alta de energia renovável", afirmou ela.
Em relação a guerra, Gourinchas afirmou que o conflito interrompeu o impulso recente da economia global, que vinha mostrando resiliência apesar das tensões comerciais e da incerteza política.
Ele detalhou que o choque provocado pela alta nos preços de energia - impulsionada pelo fechamento de rotas estratégicas, como estreito de Hormuz, e por danos à infraestrutura energética- já pressiona custos em diversos setores e pode desencadear uma crise mais ampla caso o conflito se prolongue.
Gourinchas disse ainda que o impacto econômico depende da duração e da intensidade do choque, com três cenários projetados. No cenário-base, de conflito curto, o crescimento global cairia para 3,1% e a inflação subiria para 4,4%.
Em um cenário adverso, com maior persistência das tensões e aperto financeiro, o crescimento recuaria para 2,5% e a inflação alcançaria 5,4%. Já no cenário severo, com interrupções prolongadas no fornecimento de energia, o crescimento global ficaria em torno de 2% neste ano e no próximo, com inflação acima de 6%.
O economista alertou que os efeitos serão desiguais entre países, atingindo com mais força economias de baixa renda dependentes de importação de energia e, em especial, alguns países do Golfo. Ele também comparou o choque atual à crise de commodities de 2022, mas ressaltou que o contexto é menos favorável para uma desinflação sem custos econômicos, já que a inflação segue acima da meta em várias economias e a capacidade de absorção de choques é menor.
Diante desse cenário, Gourinchas defendeu cautela dos bancos centrais, que devem evitar respostas precipitadas enquanto as expectativas de inflação permanecerem ancoradas, mas mantendo comunicação clara sobre disposição de agir se necessário. Na política fiscal, ele criticou medidas amplas como subsídios generalizados e controle de preços, defendendo apoio apenas direcionado e temporário às populações mais vulneráveis.
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Também afirmou que o choque energético reforça a necessidade de acelerar a transição para fontes renováveis, como forma de aumentar a segurança energética e reduzir vulnerabilidades futuras. E destacou o papel da inteligência artificial como potencial vetor de ganhos de produtividade, embora com impactos de transição no mercado de trabalho, e alertou para o risco de fragmentação do comércio global em meio ao avanço de políticas protecionistas.
