O “drama” de Itabira, na Região Central de Minas Gerais, cidade mineradora que tem apenas mais 15 anos de produção de minério de ferro pela Vale, é o desafio do prefeito reeleito Marco Antônio Lage (PSB). Os projetos em curso para reinventar o município a partir da escassez mineral foram o tema principal da entrevista para o EM Minas, da TV Alterosa, do jornal Estado de Minas e do Portal UAI .

O case de Itabira – de onde foram extraídos bilhões de toneladas de minério nos últimos 84 anos e que abriga a maior barragem do mundo, com 20 vezes do volume de rejeitos do rompimento de Brumadinho – também levou Marco Antônio à presidência da Associação Brasileira dos Municípios Mineradores (Amig Brasil). Sobre política, ele defende o fim da polarização entre esquerda e direita.

Depois de 80 anos de mineração, Itabira está rica? Não tem mais nenhum problema?
A cidade vai fazer 84 anos, e essa é a imagem que um município minerador tem. De fato, são cidades que produzem muitas riquezas. O extrativismo mineral em Itabira vem contribuindo com a industrialização de Minas, do Brasil e do mundo, com mais de 2 bilhões de toneladas de minério de ferro extraídas nesse período todo.

Você tem o bônus, que é a produção de riquezas, mas, ao mesmo tempo, você tem muitos problemas, e nós estamos tratando disso agora, como prefeito da cidade e como presidente da Associação Brasileira de Municípios Mineradores, para que esse emblema chamado Itabira lance experiências que possam contribuir com a mineração brasileira do ponto de vista de modelo de extrativismo mineral.

Como está a situação das barragens em Itabira?
Só da mineração são 15 barragens. Não é para assustar, mas são 500 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério depositados nessas barragens. Para você ter uma ideia, em Brumadinho foram 12 milhões de metros cúbicos que vazaram pelo território. Nós temos a maior barragem do mundo, que é a Barragem do Pontal, que está sendo descomissionada, com 240 milhões de metros cúbicos de rejeitos, 20 vezes o tamanho da que rompeu em Brumadinho.

Elas estão seguras?
Eu diria com muita tranquilidade, como prefeito, que as barragens em Itabira não são um problema. O maior problema da cidade é a exaustão mineral, o término do minério de ferro sem a cidade se preparar para a diversificação econômica. Segundo o relatório que a Vale emite para a Bolsa de Nova York, temos minério até 2041. Isso é amanhã!

O que está sendo feito hoje para o dia em que o minério acabar?
Nós propusemos à Vale, assim que nós assumimos, em 2021, a criação de um programa de planejamento estratégico de curto, médio e longo prazo. O nome é “Itabira Sustentável”. A Vale contratou uma consultoria internacional que trabalha conosco para estruturar todo esse programa junto com a sociedade civil organizada. Isso é muito importante para que não seja um projeto de governo, de uma prefeitura, de um prefeito. Esse programa envolve uma revisão do plano diretor, envolve uma gestão de resíduos sólidos, mobilidade urbana, uma organização mais ampla da cidade em 360 graus. Isso tudo significa atração de investimento.

Itabira convive com uma crise hídrica há três décadas. Nesse momento, a Vale está investindo R$ 1,2 bilhão para captar água no Rio Tanque, a 30 quilômetros, para uma nova estação de tratamento em Itabira, o que vai garantir abastecimento, pelo menos, para as próximas cinco décadas. Aí, sim, nós vamos poder pensar numa nova indústria, além, claro, do abastecimento de uma população de 120 mil habitantes.

A melhoria do acesso viário para Itabira também é um dos projetos mais importantes para o desenvolvimento da cidade. Nós temos 100 quilômetros entre BH e Itabira, sendo 36 quilômetros de rodovia estadual. Isso vai colocar Itabira na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Essa é a grande estratégia para a diversificação econômica de Itabira.

Dentro desse programa, Itabira vai virar uma cidade de agronegócio, de turismo? O que vai ser?
São pelo menos seis vertentes econômicas. A primeira é a criação de um polo universitário. Nós já conseguimos levar uma faculdade de medicina para Itabira, graças a um esforço que tivemos junto ao governo federal. Nós já estamos desenvolvendo um polo médico, e essa faculdade de medicina vai formar os futuros médicos para esse desenvolvimento de um macropolo de saúde para toda aquela região, que hoje depende de Belo Horizonte.

O agro é uma terceira vertente, e nós precisamos desenvolver isso, já que o setor participa com pouco mais de 1% do PIB de Itabira. Depois, temos o polo tecnológico, a partir da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), da qual nós temos um campus avançado que ficou adormecido por 18 anos, e agora estamos avançando para trazer cursos e investimentos em novas estruturas.

Temos também um grande potencial logístico, porque a ferrovia Vitória-Minas nasce em Itabira e vai dar em Vitória (ES). Por isso, a estrada também é importante, para poder se transformar numa alternativa logística para a indústria exportadora de Belo Horizonte e da Região Metropolitana.

E o turismo também. É a terra de Carlos Drummond de Andrade é uma cidade literária, uma cidade cultural. Nós já estamos fazendo vários projetos lá, atraindo o turista. Temos uma região rural riquíssima de beleza natural, eu digo que é a Chapada Diamantina de Minas Gerais. É uma das regiões mais belas do Brasil, com cachoeiras, cânions, a natureza nos presenteou com isso. E aí entra o desenvolvimento do turismo ecológico, do turismo rural e do turismo cultural.

Para isso, nós estamos criando também um master plan para o turismo, com investimentos importantes, inclusive o Museu Geológico, para a gente conhecer o que é a Geologia, o que é a exploração minerária vista do alto. Então, Itabira pode se transformar no maior museu da mineração a céu aberto do mundo.

O senhor só falou de investimentos da Vale até agora. O governo federal e o governo do estado não estão nem aí?
Absolutamente. O presidente Lula esteve em Itabira para inaugurar a radioterapia mais moderna do Brasil, e nós entregamos para o governo uma carta da própria Associação Brasileira dos Municípios Mineradores, exatamente para discutir essas novas condutas, o novo modelo de relacionamento da mineradora com as comunidades, além de cobrar a participação do governo federal nesta luta de Itabira pela sua reinvenção, pela criação de uma nova matriz econômica. E do governo do estado, a mesma coisa.

E como você concilia a agenda de prefeito de um dos maiores municípios mineradores do Brasil com a agenda de presidente da Amig Brasil?
Essa é uma conexão interessante, e os prefeitos das cidades mineradoras entenderam isso para fazerem esse convite, essa escolha para que eu presidisse a Amig Brasil agora. Eu trago a experiência de Itabira para alertar os municípios, alertar as comunidades e as lideranças políticas sobre aquilo que não deve ser feito ou aquilo que precisa ser feito durante o período da mineração.

O erro desse modelo tem origem nas empresas mineradoras ou na gestão pública?
Eu uso muito uma frase do ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill, que falou o seguinte: “Faça o mais difícil no momento mais fácil”. O que é difícil para qualquer cidade é o desenvolvimento econômico. Todas as cidades, todos os prefeitos, todas as comunidades buscam desenvolvimento econômico para promover desenvolvimento social, promover qualidade de vida.


E quando tem dinheiro? Quando a mineração está pujante, está produzindo muito, as atenções se voltam para aquele território. É o momento de pensar que, como o minério acaba, o minério não dá duas safras, é preciso aproveitar esse período da exploração mineral para desenvolver outras vertentes econômicas. E isso não foi feito. Então, é um planejamento de sustentabilidade. A mineração é importante, a Amig Brasil é a favor da mineração. É um setor econômico fundamental, e nós defendemos a indústria minerária brasileira.

Vamos falar de política. Este é um ano de eleição. O senhor deixa a prefeitura este ano?
Eu não deixo a prefeitura este ano, embora tenha sido bastante pressionado. Eu tenho um compromisso de concluir esse projeto. O projeto de Itabira é muito importante para mim, como itabirano, como cidadão e para a cidade. E eu fui eleito para concluir esse projeto, que é efetivamente evitar o desastre da exaustão mineral em Itabira. Fico para concluir os 8 anos, o segundo mandato, e deixar esse trabalho concluído.

Como você avalia a sucessão estadual e o cenário nacional?
Olha, com uma certa preocupação. Vejo que esse antagonismo de direita e esquerda precisa acabar no Brasil. Isso tem prejudicado as relações sociais e as relações políticas no nosso país. Então, torço para que a sociedade entenda um pouco mais, escute um pouco mais sobre um projeto de nação, que isso venha à tona. Em vez das guerras vazias das redes sociais, que a gente possa discutir o Brasil.

As eleições de Minas Gerais estão confusas. Tem muito candidato, muita gente vai para lá, vai para cá…
Eu torço para que a gente tenha um próximo governador que realmente tenha uma visão estratégica, que consiga negociar, que tenha habilidade de negociação sobre essa dívida bilionária de Minas Gerais, que não deveria ter. Se o minério de ferro fosse taxado devidamente... A Lei Kandir, por exemplo, exonerou de imposto a exportação. Todo o minério que nós exportamos, a gente não ganha um real, não é? Então é uma dívida que não deveria existir.

Eu torço para que haja um governador com habilidade para negociar, para compor isso. Porque Minas Gerais também é um estado que define uma eleição nacional. Então, é importante essa composição política, e é importante um governador que tenha essa visão também de gestão e de articulação econômica e política.

Existem nomes para isso na sua avaliação?
Eu torço muito pelo Rodrigo Pacheco. Tenho uma proximidade com ele que não é por amizade, é por conhecer a competência, a capacidade de gestão, de articulação. É um mineiro, agora duas vezes presidente do Congresso Nacional, com essa experiência política, um jurista, conhece profundamente as leis deste país, com articulações internacionais. Entendo que ele é o mais preparado para uma nova fase, para essa fase que Minas Gerais vive hoje. Vejo com apreensão esse recuo dele, porque acho que é o melhor nome para Minas Gerais nesse momento. É o melhor nome para realmente virar essa página da crise fiscal do estado e colocar Minas de novo no trilho do desenvolvimento. 

“Eu diria com muita tranquilidade, como prefeito, que as barragens em Itabira não são um problema.
O maior problema da cidade é a exaustão mineral”

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“É a terra de Carlos Drummond de Andrade, é uma cidade literária, uma cidade cultural.
Nós já estamos fazendo vários projetos lá, atraindo o turista. Temos uma região rural riquíssima de beleza natural”

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