Já contando com os tradicionais saldões de Natal, a recepcionista Cláudia Araújo Barbosa foi ao comércio de rua de Belo Horizonte nesta sexta-feira (2/1) para comprar um liquidificador e uma airfryer: “Sempre tem um fim de estoque que eles costumam colocar em promoção, por isso eu vim hoje. Os preços estão bons, uma diferença de R$ 100 em relação à outra loja que acabei de ir”. Ela diz que prefere comprar em lojas físicas porquê gosta “de ver o produto com os olhos e com as mão”, além de já sair de posse do produto.
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O vigilante Emar Francisco saiu de uma loja da Rua Curitiba, na Região Central da capital, com um televisor grande nas mãos. “Estava esperando uma condição melhor agora. Vim aqui na loja antes, mas estava muito cheio e um vendedor falou que depois do Natal entram as promoções”, explicou. Ele conseguiu comprar o produto que queria parcelado em 10 vezes sem juros.
Na companhia da filha Larissa, o assessor parlamentar Bruno Soares foi ao Shopping Boulevard, na Região Leste de Belo Horizonte, para trocar presentes de Natal. “Vimos que algumas lojas estão em promoção, aí aproveitamos para comprar alguns presentes que faltaram. Acabei de comprar uma camisa com 40% de desconto. Tinha comprado a mesma camisa para presente de Natal e agora está com esse desconto”, relatou.
Leonardo da Cunha Diniz Pereira, gerente da loja Ponto (antigo Ponto Frio) da Rua Curitiba, disse que o saldão da rede está previsto para a próxima semana. “Já começamos a ser abastecidos. O megaparcelamento será o diferencial, com até 24 vezes fixas no carnê. Alguns produtos serão vendidos sem juros, mas também tem desconto para quem quiser comprar à vista”, explicou. O gerente espera um crescimento de 15% no faturamento em relação à mesma ação do ano passado.
Igor de Souza Mota, gerente das Casas Bahia da Rua Curitiba, garantiu que a loja já está com seu saldão de Natal. Como exemplo, ele mostra um televisor que estava sendo vendido a R$ 1.599, e a partir de hoje passou a custar R$ 1.299. Além dos televisores, ele conta que os produtos mais procurados são as fritadeiras e smartphones. “Na nossa Superliquidação Fantástica teremos preços bons, parcelamento no cartão da loja em até 30 vezes fixas, além do nosso tradicional carnê. Queremos deixar a loja cheia, com pilhas de produtos, para que o cliente possa comprar e levar na hora”, explicou.
Luciana Rezende, vendedora da loja de calçados femininos Constance, no Boulevard Shopping, disse que a loja sempre inicia o ano com promoções: “Esse ano temos calçados com até 50% de desconto. As bolsas também estão em promoção. São produtos selecionados, inclusive de coleção nova. Quem viaja para o exterior aproveita para comprar botas, e que vai para o litoral, ou mesmo no calor de BH, costuma comprar as rasteirinhas”.
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As estratégias por trás do saldão
“O saldão de Natal e as liquidações de janeiro são momentos fundamentais para a sustentabilidade do comércio varejista, especialmente após o supertrimestre de vendas (com o Dia das Crianças, a Black Friday e o Natal), que concentra maior volume de estoques entre outubro e dezembro. Esse período promocional permite aos lojistas escoar produtos que não tiveram a saída esperada, liberar espaço para novas coleções e lançamentos e recompor o fluxo de caixa, fortalecendo a saúde financeira dos negócios”, explicou Marcelo de Souza e Silva, presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH)
Fernanda Gonçalves, economista da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Minas Gerais (Fecomércio MG), explica que os saldões pós-natal têm uma forte motivação econômica: “Esta é uma estratégia para liquidar os estoques que sobraram das festas, liberar espaço para novas coleções e gerar caixa rapidamente. No entanto, é fundamental que o valor final das vendas dos produtos em promoção não fique abaixo do custo inicial das mercadorias, para evitar prejuízos no fluxo de caixa”.
Marcelo de Souza e Silva complementa falando que, além de beneficiar as empresas, as liquidações exercem papel relevante na movimentação da economia da capital em um mês tradicionalmente marcado pela retração do consumo, em função das férias. Com preços mais atrativos, os consumidores se programam para aproveitar as ofertas adquirindo itens que ficaram fora do orçamento no Natal.
“Para uma cidade cuja principal atividade econômica é o comércio e os serviços, o saldão de Natal e as liquidações de janeiro cumprem um papel estratégico: estimulam o consumo consciente, ajudam a manter empregos, fortalecem o varejo local e contribuem para a dinamização da economia no início do ano, consolidando Belo Horizonte como um polo comercial ativo e resiliente”, disse o presidente da CDL/BH.
A economista da Fecomércio explica que, diferente do período natalino, o foco dos saldões está na venda de produtos de coleções passadas, com descontos e variedade reduzida. No entanto, essas liquidações são uma excelente oportunidade para atrair clientes à loja, oferecendo preços atrativos e criando senso de urgência, o que pode fidelizar consumidores e aumentar o movimento, especialmente em um mês de despesas sazonais.
“Com estratégias comerciais e financeiras bem planejadas e uma experiência de compra positiva, os empresários podem transformar o desafio do excesso de estoque em uma vantagem competitiva e conquistar melhores resultados financeiros, renovando o ciclo de vendas para o novo ano”, destaca Fernanda Gonçalves.
Calorão impulsiona venda de ventiladores
A onda de calor que estacionou sobre a capital na última semana também movimentou os produtos ligados à climatização de ambientes. A doméstica Érica Maria Francisco saiu de casa disposta a comprar três ventiladores e dois umidificadores de ar. “Está muito calor. Vim por necessidade. Independente de estar em promoção, eu preciso comprar. Mas os preços estão dentro das expectativas, eu acompanho sempre”, relatou. Ela conta que, para levar tantos produtos de uma só vez, precisa recorrer ao carnê. “Sai um pouquinho mais caro, mas é a opção que a gente tem”. Para Èrica, o parcelamento em quatro prestações ficou na medida, já que não eleva muito os juros e cabe em sua rotina econômica.
Outra que não pôde esperar por promoções foi a doméstica Cláudia Ribeiro da Silva, já que seu ventilador “resolveu estragar” no ápice do calor: “Não estava aguentando de calor e vim correndo, para aproveitar o feriado emendado. Nem sabia do saldão, o calor me obrigou a comprar”. Ainda assim, antes de bater o martelo, Cláudia pesquisou três lojas e comprou o ventilador por R$ 170.
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Vendas do Natal ficaram estáveis para a maioria dos empresários mineiros
De forma geral, 43,4% do comércio varejista de Minas Gerais considerou que as vendas de Natal alcançaram as expectativas, sendo que, desses, 15,6% disseram que elas foram superadas. Para outros 23,3% as expectativas não foram alcançadas, enquanto 32,8% dos avaliaram que elas foram parcialmente atendidas. Estas impressões foram coletadas pelo Núcleo de Estudos Econômicos e de Inteligência da Fecomércio MG.
Para a maioria dos comerciantes entrevistados (42,8%) as vendas foram iguais ao Natal de 2024, enquanto 35% calcularam que o desempenho foi superior e outros 21,7% responderam que as vendas caíram. Entre os empresários que comemoram o desempenho do Natal de 2025, 37,9% perceberam aumento entre 10% e 20%, e 34,5% indicaram aumento de até 10% nas vendas. Entre os que não alcançaram bons resultados, a queda mais comum (35,1%) ficou entre 10% e 20%.
Segundo a economista da Fecomércio MG, Fernanda Gonçalves, o Natal de 2025 foi marcado por cautela, tanto do lado do consumidor quanto das empresas. “Os dados mostram um comércio que conseguiu se manter estável, mesmo diante de um consumidor mais cauteloso. O crédito teve papel central, assim como o 13º salário, que concentrou as compras na reta final do mês”, afirma.
As justificativas mais citadas na pesquisa para explicar o mau desempenho foram o baixo fluxo de pessoas (33,3%), o endividamento do consumidor (25,6%), a concorrência desleal (20,5%) e o consumidor mais cauteloso (20,5%). O baixo fluxo de clientes foi umas das impressões do gerente da varejista Ponto, Leonardo da Cunha Diniz Pereira: “O Natal não foi de crescimento para a loja, mas foi desafiador. Estávamos preparados, com muito produto, parcelamento elástico, mas o fluxo de clientes decepcionou”.
Já para os empresários que tiveram bons resultados com o Natal, as justificativas mais apresentadas foram as ações realizadas nas lojas (27%), a visibilidade da loja (19%), as promoções (12,7%) e o valor afetivo da data (12,7%). Para Luciana Rezende, vendedora da Constance, o Natal foi bem produtivo, com vendas dentro do esperado, mas poderia ter sido melhor: “No ano passado, muita gente investiu na Black Friday para as compras de Natal. Pode ser até por este motivo que as promoções de agora estão mais agressivas”.
A pesquisa da Fecomércio MG ainda revela o comportamento dos consumidores mineiros durante a data. O levantamento aponta que 58,3% das compras ocorreram às vésperas do Natal, após o pagamento da segunda parcela do 13º salário. O cartão de crédito parcelado foi o meio de pagamento mais utilizado, presente em 36,5% das transações, reforçando a estratégia dos consumidores de diluir os gastos.
O ticket médio ficou em R$ 200,31, com maior concentração de compras entre R$ 100 e R$ 200. Para Fernanda Gonçalves, as estratégias adotadas pelas empresas fizeram diferença no desempenho. “Ações realizadas dentro das lojas, promoções bem direcionadas e maior visibilidade foram determinantes para sustentar as vendas. O consumidor pesquisou mais, comparou preços e comprou quando encontrou condições viáveis”, avaliou.
O estudo ainda mostrou que, para atender à demanda sazonal, 15% das empresas contrataram funcionários temporários, reforçando o papel do Natal na geração de empregos pontuais no comércio. A economista explica que os resultados das vendas do Natal em Minas Gerais mostram como esse período é essencial para o comércio varejista, estimulando o consumo das famílias em todo o estado, mesmo diante de desafios econômicos.
