Direito, vida, arte e psicanálise

Nosso desafio: permitir que o sujeito de direito não desapareça atrás da norma; que o sujeito desejante não desapareça atrás do sintoma

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Rita Andréa Guimarães

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Psicanalista e mediadora de conflitos


O Congresso “Direito, Vida e Arte” realizado pelo Tribunal Regional Federal da 6ª Região revelou sua importância ao propor um encontro raro entre diferentes formas de compreender o humano. O Inhotim – museu a céu aberto – foi o espaço escolhido no qual arte, natureza, silêncio e experiência convivem. Pouco a pouco, percebi ser preciso falar das questões que insistem na minha própria travessia. Da arte que atravessa meus dias: a arte da escuta.

Imaginamos que usamos as palavras, mas, muitas vezes, somos usadas por elas. Estamos em um Congresso de Direito, Vida e Arte justamente porque há dimensões da experiência humana que nenhuma área, sozinha, consiga alcançar. Em tempos de discursos endurecidos e respostas prontas, encontros como este tornam-se profundamente importantes, porque permitem que diferentes linguagens se entrelacem e nos autorizem à ousadia de experimentar a arte de escutar o sussurro da voz humana.

A arte entra exatamente aí: como território simbólico capaz de devolver sensibilidade àquilo que os discursos endurecem. É nesse espaço que Direito, psicanálise e arte se entrelaçam, lançando-nos um desafio: como não perder o humano enquanto tentamos organizar a vida humana.

O Direito nos apresenta o sujeito de direito: aquele que possui nome, identidade, direitos e proteção normativa. A psicanálise introduz outra dimensão: a do sujeito de desejo. Um sujeito atravessado por faltas, afetos, memórias e silêncios. O desejo nos move mesmo quando não sabemos nomeá-lo. Ele escapa nas entrelinhas da linguagem. Nos tribunais, nas mediações, nos consultórios, escutamos histórias. Algumas chegam organizadas; outras, fragmentadas. E, pouco a pouco, percebemos que aquilo que comparece na linguagem nunca é apenas informação.

A fala humana carrega marcas de memória, perda, desejo e reconhecimento. Às vezes, uma demanda aparece vestida de conflito patrimonial ou familiar, encoberta outra: demandas de reconhecimento, dignidade, amor ou luto. Como diz Rodrigo da Cunha Pereira: “São os restos de amor que batem às portas do Judiciário”. Aqui a arte nos evoca. O poeta trabalha com pausas, ritmos, repetições e silêncios porque sabe que o sentido não está apenas no conteúdo objetivo da frase. E talvez a psicanálise tenha percebido algo semelhante: o inconsciente também fala por repetições, deslocamentos e lapsos.

A psicanálise, assim como a arte, propõe uma ética da escuta que reconhece que o humano nunca comparece inteiro nos autos ou na narrativa consciente. Escutar não é apenas ouvir. Escuta-se justamente aquilo que o sujeito ainda não consegue escutar em si mesmo. A palavra não é apenas comunicação. A palavra é acontecimento. Carlos Drummond de Andrade entrega o fecho dessa ideia: “Entre palavras e combinações de palavras circulamos, vivemos, morremos, e palavras somos, afinal”.

Retomo, então, nosso desafio: permitir que o sujeito de direito não desapareça atrás da norma; que o sujeito desejante não desapareça atrás do sintoma; e que o sujeito da relação não desapareça atrás do litígio. E não posso falar de encontro, arte e escuta sem convocar a hospitalidade. Como nos lembra Bernardo Nogueira: “A mediação é hospitalidade porque depende da inventividade, que só se compõe quando o mistério do outro se apresenta em forma de dádiva do tempo”.

Rascunhei esta prosa às vésperas de receber meu neto nos braços. E me impressiona constatar como somos capazes de amar alguém que ainda nem conhecemos. Talvez não exista imagem mais concreta da hospitalidade do que esta: manter aberta a porta da alma para a chegada do outro. Gostaria de concluir convocando a alteridade, a hospitalidade, o ato poético, a mediação e a escuta. O gesto ético de sustentar a existência do outro sem aprisioná-lo em uma definição definitiva. Talvez toda arte se assente aí... Afinal, a palavra se presta a tudo, inclusive a mudar histórias.

“As palavras me antecedem e ultrapassam. Elas me tentam e me modificam. E, se eu não tomo cuidado, será tarde demais: as coisas serão ditas sem eu as ter dito”

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(Clarice Lispector)

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