Entrevista

OS DESAFIOS DO MAIOR TRIBUNAL DO MUNDO

"Nesse contexto, a valorização da carreira é essencial. Hoje se verifica uma defasagem aproximada de 55% nos vencimentos em relação ao que foi estabelecido

Publicidade
Carregando...

HERALDO DE OLIVEIRA SILVA
Desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover


O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) é considerado o maior tribunal do mundo, com 360 desembargadores, onde desaguam em grau de recurso os mais de 21 milhões de processos que tramitam, atualmente, no Judiciário paulista. Quais as maiores dificuldades e desafios de uma Corte de Justiça de tal magnitude?


É um trabalho que exige muito equilíbrio. Mesmo diante de um volume extremamente elevado – com milhões de processos em tramitação e a chegada diária de cerca de 800 recursos especiais e extraordinários –, é preciso lembrar que cada feito representa uma história concreta, alguém aguardando uma resposta da Justiça. O cuidado é justamente não perder essa dimensão humana, analisando cada caso com atenção, serenidade e responsabilidade.

Além disso, existe a preocupação permanente de que as decisões transmitam segurança e previsibilidade, para que o cidadão sinta confiança no Judiciário. A tecnologia tem contribuído para tornar o trabalho mais ágil, mas não substitui a experiência e a sensibilidade do julgador. No final, o que se busca é sempre uma Justiça eficiente, mas, acima de tudo, próxima das pessoas e atenta às realidades que chegam ao Tribunal.

O senhor até o ano passado presidiu a importante Seção de Direito Privado do TJSP, que reúne 190 desembargadores. Qual acredita tenha sido o legado deixado perante seus pares e para os jurisdicionados?

Procurei deixar um legado pautado no diálogo, no respeito institucional e na valorização das pessoas. A Seção de Direito Privado reúne, além dos 190 desembargadores, 100 juízes substitutos de segundo grau, dos quais 40 atuam na justiça 4.0, com diferentes experiências e visões jurídicas, e minha preocupação sempre foi fortalecer a construção coletiva da jurisprudência, estimulando o debate qualificado e a colegialidade.

Também busquei valorizar os colaboradores, reconhecendo que o trabalho jurisdicional é essencialmente construído em equipe, com dedicação diária de servidores comprometidos com a eficiência e a qualidade da prestação jurisdicional. Da mesma forma, procurei manter uma relação de respeito e abertura com a advocacia, com atendimento constante e escuta ativa, pois entendo que o diálogo institucional com os advogados é fundamental para o aperfeiçoamento da Justiça e para a adequada compreensão das demandas trazidas ao Tribunal.

Além disso, busquei aproximar o Tribunal do jurisdicionado, reforçando a ideia de que cada processo representa uma história real, com impacto direto na vida das pessoas e das empresas. Se consegui contribuir para decisões mais claras, estáveis, humanas e previsíveis, considero que o objetivo foi alcançado.

O senhor recebeu há 10 dias a Medalha do Centro Cultural da Justiça Federal, no Rio de Janeiro, das mãos do desembargador federal Theóphilo Miguel, diretor-geral do Centro Cultural, o que mostra que sua liderança extrapola os limites da magistratura de São Paulo. O que significou esse reconhecimento após 43 anos de magistratura? Estimula a buscar novos desafios?

Recebi essa homenagem com muita emoção e, sobretudo, com gratidão. Após 43 anos de magistratura, esse reconhecimento não é percebido como uma conquista pessoal isolada, mas como o resultado de uma caminhada construída ao lado de colegas, servidores, advogados e de todos aqueles que, de alguma forma, participaram dessa trajetória. Ao longo da carreira, procurei exercer a função com serenidade, respeito às pessoas e consciência de que cada decisão impacta vidas reais.

A medalha representa também uma oportunidade de olhar para trás com humildade e reconhecer o quanto ainda há para aprender. A magistratura é uma missão que nos transforma diariamente, e cada experiência vivida reforça o compromisso com uma Justiça mais acessível, equilibrada e humana.

Mais do que estimular novos desafios, essa homenagem renova o sentido daquilo que sempre me motivou: continuar contribuindo, compartilhando experiências e apoiando o aprimoramento institucional do Judiciário. Enquanto houver a possibilidade de colaborar, dialogar e servir à sociedade, sigo com a mesma disposição e responsabilidade que marcaram toda a minha trajetória.

Em 2026 o senhor completa 20 anos como desembargador do TJSP. Como o senhor enxerga a Justiça de hoje e de 20 anos atrás? A recente decisão do STF sobre teto salarial poderá ser um desestímulo para a carreira de magistrado e do Ministério Público? Qual sua expectativa a respeito?

Em 21 de março de 2026, completei 20 anos como desembargador e, ao olhar para trás, percebo que a Justiça de hoje é muito mais aberta, transparente e próxima da sociedade do que era há 20 anos. O processo eletrônico, a comunicação mais direta e a própria evolução institucional tornaram o Judiciário mais acessível. Por outro lado, também aumentaram significativamente a complexidade das demandas e a pressão por respostas rápidas. Isso exige do magistrado ainda mais preparo, equilíbrio emocional e sensibilidade, porque por trás de cada processo há histórias humanas que merecem atenção e respeito.

A magistratura exige dedicação integral, responsabilidade permanente e, muitas vezes, renúncias pessoais relevantes. O juiz decide conflitos sensíveis, lida diariamente com situações humanas complexas e assume decisões que impactam diretamente a vida das pessoas e o próprio funcionamento da sociedade.

Nesse contexto, a valorização da carreira é essencial. Hoje se verifica uma defasagem aproximada de 55% nos vencimentos em relação ao que foi estabelecido há duas décadas, o que evidencia a necessidade de uma reflexão responsável sobre o tema. Para manter uma magistratura vocacionada, preparada e plenamente dedicada, diante do elevado volume de processos e do peso das decisões, é indispensável o reconhecimento institucional, com remuneração compatível com a relevância e a responsabilidade da função.

Quanto ao teto remuneratório, o tema deve ser analisado com equilíbrio. Medidas que impactam a carreira precisam considerar não apenas o aspecto financeiro, mas também a necessidade de manter a magistratura e o Ministério Público como carreiras atrativas para profissionais vocacionados, independentes e qualificados. A valorização institucional contribui para fortalecer a independência judicial e a confiança da sociedade na Justiça.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Minha expectativa é que o debate avance com serenidade, preservando o respeito às instituições e reconhecendo que uma magistratura forte, valorizada e independente é fundamental para a estabilidade jurídica e para a própria democracia.

Tópicos relacionados:

equilibrio trabalho

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay