“É fundamental nós nunca esquecermos das nossas origens.” Essa é uma fala que Angélica Salvador repete várias vezes na entrevista para o podcast Degusta. Talvez porque isso seja ainda mais importante no momento em que a chef do restaurante In Diferente, na cidade do Porto, em Portugal, colhe os frutos de uma conquista muito especial: ela foi a primeira brasileira a ganhar uma estrela Michelin fora do Brasil – e a quarta mulher a alcançar esse desejado reconhecimento no país europeu.
Angélica nasceu em Engenheiro Beltrão, no interior do Paraná, e teve uma passagem por Rondônia, onde jogou handebol por seis anos. Ela trabalhava em uma locadora de filmes e tinha acabado de prestar vestibular para educação física quando, em um mês e meio, decidiu embarcar em uma aventura com uma amiga e se mudar para Portugal. A proximidade com a língua a encorajou, assim como o apoio da mãe dessa amiga, que já morava na região do Algarve.
As opções de trabalho eram serviço de quarto ou copa de restaurante. Angélica, então, começou sua carreira na cozinha lavando pratos em um hotel cinco estrelas – ela era tão fora desse universo que chegou a achar que copa tinha a ver com Copa do Mundo.
“Não tive oportunidade de estudar porque fui para lá imigrante e tinha um objetivo, que era pagar minha passagem primeiro. Comecei na copa e depois ou estudava ou trabalhava. Então, optei por trabalhar e tive pessoas que me ajudaram imensamente nisso”, pontua a chef, que teve grandes experiências na hotelaria e aprendeu o que precisava na prática, com a ajuda dos colegas. Entre eles, o português Tiago Bonito, que se tornaria seu marido e sócio.
O casal sempre teve vontade de tocar um projeto próprio, mas aquilo parecia um sonho distante. Até que, em 2018, ela foi trabalhar em um restaurante no Porto e, duas ruas acima, encontrou o imóvel onde hoje funciona o In Diferente.
“Cinco ou seis meses depois, abrimos o In Diferente, sem objetivos de estrela, um sonho realizado. Criamos ali uma coisa que nos deu muito gosto, muito desafios, altos e baixos, e fomos evoluindo”, comenta Angélica, que é quem comanda a cozinha – o marido trabalha atualmente no Éon Restaurant, também no Porto.
Do básico ao contemporâneo
A casa começou servindo um menu de cozinha básica portuguesa, no almoço e no jantar. Depois da pandemia, concentrou-se no turno da noite e foi chegando ao que ela chama de “gastronomia portuguesa contemporânea com toque brasileiro”.
Na entrevista para o podcast Degusta, Angélica revela que seu próximo objetivo não é a segunda estrela Michelin
São duas sugestões de menu degustação – “Homenagem” (dedicado ao mar) e “In Diferente” (que conta a história do restaurante) –, além do à la carte. Em todos eles, Angélica dá um jeito de misturar Brasil e Portugal, por isso trabalha atualmente com tucupi e bacalhau. “O que quero é preservar e manter as coisas típicas de Portugal, que é o país que me acolheu, mas também juntando o meu Brasil. Acho que faz um casamento perfeito.”
Um dos pratos mais icônicos do restaurante é uma releitura do pastel de nata. A chef transforma o doce em petit gateau, servido com sorvete de canela, creme de limão e vinho do Porto. Ao mesmo tempo em que apresenta um clássico português de forma diferente, faz uma sobremesa que resgata memórias das festas juninas brasileiras, um doce em formato de pipoca recheada com caramelo salgado e missô, sorvete de milho verde, algodão-doce e pipoca doce.
Essa foi a primeira vez de Angélica em Minas Gerais e ela já pensa em como levar um pouco do estado para os seus menus – já passou por lá uma versão de pão de queijo. A paranaense ficou muito interessada pela jabuticaba e está empolgada em usar a pamonha – ambos agora podem ser encontrados em Portugal. “Isso é muito bom tanto para nós, que somos imigrantes e queremos matar a saudade, como para quem está aqui e consegue fazer com que esses produtos cheguem lá.”
Leia Mais
Um passo de cada vez
O In Diferente foi crescendo na avaliação do Guia Michelin ao longo dos anos. Logo que abriu, recebeu o selo Bib Gourmand, que reúne casas com bom custo-benefício. Seis anos depois, entrou na lista de recomendações. Em março de 2026, veio a desejada, mas não esperada estrela.
“Não sei como é que se faz para ganhar uma estrela, mas sei que a nossa dedicação e a nossa evolução fizeram parte desse percurso”, destaca a chef, que alcançou outro feito inédito com o marido – eles são o primeiro casal a receber estrelas na mesma noite, ele pelo Éon Restaurant.
O que mudou depois da conquista? “A estrela me trouxe agenda cheia, ausências, mas acho que nos abre as portas. Dorme-se uma horinha ou duas a menos e vamos casando as coisas. E o mais importante, olha, vou dizer de novo, é ter sempre o pé no chão e não nos esquecermos de tudo para trás, o que nos trouxe até aqui.”
Hoje Angélica está em uma posição de destaque, mas não quer se esquecer de onde veio. Nessa hora, ela resgata memórias de infância ao lado da avó na cozinha, lá no interior do Paraná. “A minha avó me ensinou a fazer o arroz soltinho. Então, me lembro perfeitamente dela me explicar como é que se abria uma lata de óleo. Recordo-me disso perfeitamente, como se fosse hoje, num fogão a lenha, a cozinhar um arroz com a minha avó.”
Segunda estrela?
O próximo objetivo, garante Angélica, não é a segunda estrela Michelin. O que ela busca no momento é continuar a evoluir na cozinha e no salão. “Vamos continuar a fazer exatamente igual, porque isso que nós fizemos foi o que nos trouxe aonde nós estamos agora. Vamos melhorar o que a gente conseguir, mas também com calma e sem dar tiros no pé”, avisa a chef, que sempre faz questão de citar a sua equipe como corresponsável pela conquista.
Para receber Angélica Salvador, que estava em Minas pela primeira vez, montamos uma mesa com uma seleção de produtos que são a cara do nosso estado
Em paralelo, ela já planeja mudar o menu para ter sempre novidades. “Tenho uma coisa boa que é o cliente que volta. Ele quer comer o queijinho, mas também quer ver uma outra coisa que você tem ali de diferente. E acho que isso faz parte também do projeto, da história e até mesmo para nós ganharmos a ambição de estarmos a fazer outras coisas”, pontua. Por fim, Angélica deixa no ar a possibilidade de abrir outro restaurante. “Quem sabe?”.
Mesa mineira
Para receber Angélica Salvador, que estava em Minas pela primeira vez, montamos uma mesa com uma seleção de produtos que são a cara do nosso estado. “Estamos aqui numa mesa que faz me lembrar muita infância”, comentou a chef.
Na ordem da degustação, ela provou pão de queijo Dona Regina; Jabuticabão, refrigerante de jabuticaba da Guaramão; jiló empanado com molho de limão capeta e empadinha de queijo do restaurante Cozinha Santo Antônio; quatro variedades de queijos Bello; café coado, rolinho de canela com doce de leite e broa de fubá com calda de goiabada da cafeteria Coisa de Vó; canudinho, pé de moleque, ambrosia e doce de abacaxi da Rapa do Tacho; e licor de pequi Cristal Brasil.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Serviço
O programa é quinzenal e vai ao ar sempre às segundas. Acesse o canal do Portal UAI no YouTube ou o Spotify para assistir ao episódio completo.
