O excelente trabalho visual do novo stop motion do estúdio Laika, responsável por “Coraline e o mundo secreto” (2009) e “Kubo e as cordas mágicas” (2016), esconde uma narrativa simples, mas potente. “É um épico”, define Thiago Calçado, mineiro de Uberaba, animador que integra a equipe de “O bosque selvagem” (2026), estreia desta quinta-feira (29/10) em BH.

Dirigida por Travis Knight, responsável por “Mestres do universo” (2026), a animação acompanha a jornada de Prue McKeel, jovem moradora de Portland, no Oregon (EUA), cujo irmão caçula foi levado por um bando de corvos. Ao lado do colega Curtis Mehlberg, ela se vê obrigada a entrar na Floresta Impenetrável, um lugar proibido de acordo com as histórias contadas por seu pai.

Porém, a floresta revela para a dupla uma sociedade de animais falantes e humanos com suas próprias regras, que, no fim das contas, não são tão diferentes daquelas de Portland.

O premiado animador Thiago Calçado diz que tocar o coração das pessoas com 'O bosque selvagem' é mais importante do que ganhar o Oscar, troféu já conquistado por ele

Instagram/reprodução

Entre políticos faladores e líderes comunitários, os jovens enfrentam Alexandra, a governadora viúva. O desejo dela de ter o filho morto de volta e o de Prue de recuperar o irmão remetem a um desafio: até onde vale a pena passar por cima de outros?

“Curtis vai tendo de se aventurar e enfrentar desafios. Vai ganhando confiança em si e, no final, é um personagem completamente diferente”, diz Pedro Bulgarelli, o dublador brasileiro do garoto.

Odisseia

A transformação do menino tímido, secretamente apaixonado por Prue, em guerreiro com muitos amigos extrapola o próprio Curtis. “Esta é meio a mensagem do filme. Os personagens passam por muitas lições”, adianta Pedro.

Ao longo da trama, os personagens se aventuram, se confortam e percebem que podem estar errados. Quase vivem uma odisseia. Aliás, as sequências do confronto final podem até lembrar a Troia de “Odisseia”, novo longa de Christopher Nolan.

“Ele (o filme) tem uma curva dramática muito clara da protagonista e de Curtis. Um arco forte e poderoso”, comenta o animador Thiago Calçado.

Integrante da equipe de “Pinóquio” (2022), animação de Guillermo del Toro que levou o Oscar em 2023, Thiago destaca que o trabalho é dividido por sequências para cada um dos animadores. “Pedi as sequências de cavalos para Travis, porque já tinha animado a Morte em 'Pinóquio', um quadrúpede, e queria aperfeiçoar a mecânica de toda a anatomia do animal. Peguei as cenas de fuga, de perseguição e de batalha”, explica.

A divisão, porém, não impede que animadores troquem informações sobre erros e acertos e trabalhem em grupo. Reuniões semanais e uma “bíblia”, com referências sobre os personagens e o contexto do projeto, alinham as expectativas.

“Na 'bíblia de animação', a gente basicamente desenvolve não só visualmente, mas textualmente como os personagens pensam e reagem, que bagagem eles carregam”, detalha. O animador revela que a cantora americana Janis Joplin (1943-1970) foi uma das principais referências para a mãe de Prue.

“Fui estudar a Janis, por achá-la visualmente parecida. Assisti a entrevistas, vi suas poses, entonações. Busquei a fonte dos hippies dos anos 70 para entender como os pais de Prue se comportariam”, relembra.

Thiago afirma que as vozes originais, a dublagem e o trabalho de animação têm igual importância. “Nosso trabalho é 200%: 100% imagem e 100% áudio. Não é 50/50.” No processo de produção, antes de animar, o profissional recebe a dublagem (áudio original) para encaixá-la da melhor forma nos personagens.

“Estava acostumado a ver cenas em inglês, quando vi dublado não perdeu nada. É a terceira camada que o filme ganha: vem o áudio original, a animação e depois a dublagem. Isso faz crescer a obra. Em sua língua, você consegue desligar e focar apenas no visual deslumbrante”, explica o animador.

Desafios

Bulgarelli, que dubla o longa em português ao lado de Giulia Benite (Prue), vê a animação como desafiadora. “Dublamos com algumas partes não finalizadas ainda. Muita coisa ainda vai ser feita. Então, vemos onde tem fundo preto ou é o estúdio. A gente percebe quanta coisa ali é resina, plástico, e não efeito digital. É absurdo”, exalta.

“A fidelidade à movimentação da boca do personagem é muito difícil nesse tipo de animação. Isso pode ser uma desvantagem, mas também gera maior cuidado”, observa.

“É como se você estivesse vendo o filme pela primeira vez, é meio mágico”, relata o animador ao comentar o sentimento ao ver o produto finalizado.

Nas últimas semanas, o longa ganhou repercussão nas redes, chegando a alcançar 100% de aprovação no agregador de notas Rotten Tomatoes. Tudo isso chama a atenção, mas não é o foco deste trabalho pensado durante 16 anos e filmado em cinco.

“Nunca é o nosso objetivo. O Oscar, por exemplo, é reconhecimento válido para a indústria, saber que as pessoas gostaram do filme. Mas o mais importante é a capacidade que o filme tem de penetrar no coração das pessoas”, comenta Thiago Calçado, que já tem o cobiçado troféu em casa, por seu trabalho em “Pinóquio”.

“O reconhecimento é legal, mas o importante é a gente se orgulhar do trabalho, independente do pensamento alheio”, afirma o dublador Pedro Bulgarelli.

“O BOSQUE SELVAGEM”

EUA, 2026, 130 min. Animação dirigida por Travis Knight. Estreia nesta quinta-feira (29/10) em BH, nas salas das redes Cineart, Cinemark e Cinesercla, além do Cine Belas Artes

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* Estagiário sob supervisão da editora-assistente Ângela Faria

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