Uma fotografia aérea que não pôde ser feita, um desenho improvisado e uma coincidência descoberta depois da inscrição no edital. Foi assim, quase por acaso, que nasceu "A praça é pop", exposição do artista visual, pesquisador, arquiteto e professor Ângelo Mazzuchelli, que será aberta nesta sexta-feira (18/9), às 19h, no Centro Cultural UFMG. A mostra permanece em cartaz até 23 de outubro, com entrada gratuita.



A origem do projeto está em outro trabalho. Ângelo precisava de uma fotografia aérea da Praça Raul Soares, em Belo Horizonte, para um livro de artista. A imagem seria feita por drone por um amigo da Escola de Belas Artes da UFMG, mas um problema de saúde afastou o operador. Sem a fotografia que precisava, o artista decidiu recorrer a imagens disponíveis na internet e desenhar a praça.


O que deveria ser apenas uma solução prática acabou ganhando vida própria. "Eu comecei a fazer e, de repente, comecei a brincar com cores. Aí surgiu a ideia de fazer uma exposição só com essa imagem, de desenho vetorial da Praça Raul Soares", conta.


A segunda coincidência veio depois. Quando a inscrição para a exposição já havia sido feita, Mazzuchelli descobriu que a praça completaria 90 anos justamente em 2026. O aniversário, portanto, não estava na origem do trabalho, mas acabou incorporado à leitura possível da mostra.


"Não era para ser uma coisa comemorativa. Quando eu vi que a inauguração seria em 2026, pensei: ‘Putz, 90 anos. Foi uma grande coincidência’”.



A exposição reúne 14 elementos, entre eles dez impressões em Fine Art que formam um políptico, uma animação em vídeo e um card que será distribuído como brinde. O cartão reproduz uma das versões coloridas da praça e traz, no verso, um QR Code que conduz ao vídeo publicado por Mazzuchelli no Vimeo. A animação também será exibida em uma televisão no espaço expositivo.


A própria definição do que seria "pop" e do que não seria "pop" faz parte do trabalho. Mazzuchelli preparou um texto em tom de poesia e música para acompanhar a proposta, numa espécie de brincadeira conceitual que amplia o título da exposição.


Andy Warhol


A referência à pop art, porém, não é apenas uma associação feita a partir das cores. É assumida pelo artista. O trabalho parte diretamente de procedimentos que marcaram a produção de nomes como Andy Warhol, sobretudo a repetição de uma mesma imagem com alterações cromáticas.


Warhol transformou objetos banais da cultura de massa em imagens reconhecíveis, reproduzidas em série. Em "A praça é pop", Mazzuchelli desloca esse procedimento para um dos espaços urbanos mais conhecidos de Belo Horizonte. A praça, em vez de lata de sopa ou celebridade, torna-se objeto de repetição.


"A exposição é totalmente baseada no trabalho do Andy Warhol e dos artistas pop. Essa coisa da repetição de imagens", explica. Para ele, a escolha se relaciona diretamente à cultura de massa, à reprodução e à produção em série, elementos fundamentais da pop art.



O olhar sobre a Praça Raul Soares também carrega a formação de Mazzuchelli como arquiteto. Graduado em Arquitetura nos anos 1980, ele chegou a trabalhar profissionalmente com projetos e perspectivas antes de se dedicar às artes visuais. Na Escola de Belas Artes da UFMG, onde permanece desde a década de 1990, percorreu praticamente toda a trajetória acadêmica, passando pela graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado. Hoje, é professor da instituição.


A arquitetura, contudo, aparece na exposição menos como disciplina e mais como forma particular de observar a cidade. A Praça Raul Soares exigiu visitas sucessivas para que o artista pudesse compreender seus desenhos, caminhos e detalhes.


O elemento que mais o chamou a atenção foi o mosaico português. A disposição dos desenhos no piso, segundo ele, é difícil de apreender integralmente a partir do nível da rua. A vista aérea permite perceber a praça como uma composição.


A imagem produzida por Mazzuchelli, entretanto, não pretende ser uma reprodução arquitetônica rigorosa da praça. A geometria foi deliberadamente alterada. Como a Praça Raul Soares não é perfeitamente simétrica, o artista tomou algumas liberdades, ampliando inclusive a largura dos caminhos representados.


"É um desenho que não reproduz as proporções reais. Tudo isso foi feito para destacar exatamente esse mosaico, a decoração”, diz.


A operação, portanto, combina duas maneiras de olhar para o mesmo lugar. De um lado, o arquiteto atento à geometria, à perspectiva e à organização espacial. De outro, o artista interessado na transformação de uma imagem conhecida por meio da repetição, da cor e da cultura visual de massa.

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"A PRAÇA É POP"


Exposição individual de Ângelo Mazzuchelli. No Centro Cultural UFMG (Av. Santos Dumont, 174, Centro). Abertura nesta quinta-feira (18/9), às 19h. Visitação até 23 de outubro, de terça a sexta, das 9h às 20h; sábados e domingos e feriados, de 9h às 17h. Entrada franca.


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