Depois de apresentar em Belo Horizonte, no último fim de semana, "Lia Lia", mais recente espetáculo de sua companhia, a Teatrofilme, Bete Coelho volta à cena nesta quinta-feira (17/9) para mostrar o trabalho que o precedeu, em uma espécie de trilogia criada em parceria com o escritor e tradutor Caetano Galindo.


Bete divide com Georgette Fadel o palco do Teatro Sesiminas, na peça "Ana Lívia", que estreou em 2023, com direção de Daniela Thomas. Ambas as montagens integram a 3ª edição do Festival Sesi em Cena.


Trata-se do primeiro texto escrito para teatro por Galindo. Bete conta que o procurou após a experiência bem-sucedida de "Molly Bloom", espetáculo criado em 2022 a partir do último capítulo da tradução que ele fez de "Ulysses", de James Joyce.


Ela achou a parceria fecunda e propôs ao escritor que assinasse a dramaturgia original de uma nova peça para a Teatrofilme. "Caetano me apresentou três temáticas, ideias bem rabiscadas, e eu gostei das três. Só disse a ele que queria uma voz feminina", conta.


"Ana Lívia" apresenta o encontro entre duas atrizes que compartilham uma história marcada por afetos, conflitos e incertezas. Ana precisa contar algo terrível, mas Lívia não quer deixá-la falar. Enquanto Lívia deseja conversar sobre uma nova peça, Ana sente que chegou ao seu terceiro e último ato.


Bete acredita que Galindo tenha escrito o texto inspirado por "Finnegans Wake", também de Joyce, que estava traduzindo à época, e criou uma história que trata, na essência, do ciclo contínuo da vida.


ETERNO RETORNO

"Caetano trouxe essas duas mulheres que habitam um teatro, atrizes que têm um tipo de relacionamento e que a gente descobre que elas são uma só, uma é o espelho negativo da outra; uma está morrendo e a outra não quer ouvir o que ela tem a dizer. É um mote para falar sobre vida e morte, o eterno retorno", diz.


A atriz ressalta que "Ana Lívia" trabalha com a metalinguagem – uma peça sobre teatro, "uma espécie de 'Esperando Godot' feminino, com a repetição de palavras que saem de um lugar doméstico e ganham significados múltiplos".


O espetáculo tem, de um lado, a tragédia, representada por ela própria, e, de outro, algo de comédia, que a personagem de Georgette encarna, segundo aponta. Codiretora da peça ao lado de Gabriel Fernandes, seu parceiro na fundação da Teatrofilme, Bete explica que essas colaborações com o escritor resultam de um desejo da companhia de investigar o encontro entre a literatura e as artes cênicas. Ela diz que o teatro está sempre namorando a literatura, seja em Shakespeare, Beckett ou Caetano Galindo.


"Quando a palavra se torna carne, se torna ao vivo, ganha uma outra dimensão, que é a do teatro. É uma arte que requer o encontro com o outro, requer fala e escuta, então o texto vira outra coisa ao sair do papel", afirma.


Ela admite que, até pelo caráter metalinguístico de "Ana Lívia", sua personagem guarda muito de si. "O nome da peça poderia ser 'Bete Georgette'. Qualquer personagem, por mais vil, sempre vai ter elementos do ator. Óbvio que você se reorganiza, mas é o corpo e a emoção do ator que estão ali", pontua.


CONVERGÊNCIAS E DIFERENÇAS

Bete ressalta que essa é a grandeza do teatro: deixar o espectador na dúvida quanto ao que é verdade e o que é mentira. Ela observa que "Ana Lívia" tem pontos de convergência com "Lia Lia", mas também guarda diferenças significativas. Ambas as montagens tratam, pelas vozes femininas, de uma mesma temática, mas de formas distintas. "Em 'Lia Lia', temos uma personagem que são múltiplas; em 'Ana Lívia', são duas personagens que se tornam uma", compara.


Ela também chama a atenção para a questão da autoria. "Ana Lívia" é um texto de Galindo, ao passo que "Lia Lia" tem dramaturgia assinada por Bete a partir do primeiro romance lançado pelo escritor, "Lia: Cem vistas do Monte Fuji". "Tudo vem dos textos dele, então tem sempre a palavra impressa com uma força teatral saída de lugares absolutamente comuns da vida diária, acessíveis a todos nós, com a diferença de que 'Ana Lívia' é um pouco mais metafórica do que 'Lia Lia', que cai mais na nossa vida doméstica, cotidiana", observa.


Um dado curioso sobre "Ana Lívia" é que a peça estreou com Georgette Fadel se alternando, em algumas apresentações, com Iara Jamra, em razão de outros compromissos que tinha. Em um certo momento, nenhuma das duas pôde contracenar com Bete, e ela chamou Vera Zimmermann. "Essas trocas acabaram sendo uma experiência muito rica, porque cada uma traz a sua experiência, suas referências, o timbre de voz, o jeito de interpretar, então a personagem ficou matizada", diz.

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“ANA LÍVIA”
Espetáculo do Festival Sesi em Cena, com Bete Coelho e Georgette Fadel, nesta quinta-feira (17/9), às 20h, no Teatro Sesiminas (Rua Padre Marinho, 60, Santa Efigênia) . Ingressos a R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia).

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