Dois amigos poetas resolveram lançar seus respectivos livros no mesmo dia. Mônica de Aquino marcou para as 11h deste sábado (12/9), na Livraria Quixote, o lançamento de “Tomar parte no enxame”. Já Cesco Napoli vai autografar “Poesia demais cansa”, entre 16h e 20h, na Editora Impressões de Minas, no bairro Floresta.
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O livro de Mônica sai pela coleção Círculo de Poemas, da Editora Fósforo. Ao longo de 39 textos estruturados em quatro seções, “Tomar parte no enxame” procura explorar a relação entre o humano e o mundo natural. Abelhas, polvos, dinossauros, entre outros seres, servem como metáfora de temas como extinção, instinto e coletividade.
Por vezes, Mônica também faz inversão de perspectiva. Em alguns poemas, o olhar do animal prevalece sobre o humano. O homem sai da posição de observador soberano, dando protagonismo ao olhar animal.
A tentativa humana de catalogar e dominar o mundo natural é retratada com tensão e consciência de culpa. No poema “Entomologia”, a tentativa de uma aluna criar uma coleção de insetos em caixas de acrílico resulta na morte dos espécimes por falta de alimento e água, fazendo com que ela se reconheça como uma “carcereira involuntária”. Da mesma forma, a figura do “Apicultor” faz o manejo calculado da fumaça para enganar, desacelerar e capturar a colmeia e sua rainha para a extração do mel.
“Alguns desses poemas têm para mim uma ressonância biográfica, porque meu pai se aventurou como um apicultor amador por um período breve da minha infância”, conta Mônica. “Em função disso, a abelha sempre foi uma imagem muito forte para mim. Quando ela ataca a gente, metade do corpo dela sai com ferrão. Ou seja, tem metáforas muito poderosas ali”, acrescenta.
Há, no entanto, uma tentativa de dissolver as fronteiras entre o corpo humano e o animal, já que o primeiro é considerado um repositório da própria história evolutiva animal. “Essa dissolução da fronteira é uma forma de tentar sair também da perspectiva humana, sair dessa percepção que é puramente racional e se voltar mais pro corpo e para os outros sentidos”, explica.
Linguagem direta para não cansar
Cesco Napoli, por sua vez, não recorre ao mundo animal para apresentar suas angústias. Em “Poesia demais cansa”, fala diretamente com o leitor. “Você acabou de abrir o livro de poesia, começou a ler e agora eu tô te prendendo. Se virar a página…”, escreve, deixando a continuação para a página seguinte e a curiosidade em quem lê.
Editado pela Impressões de Minas, “Poesia demais cansa” é uma espécie de box, com oito pequenos livros nos quais há oito poemas. “Escrevi um primeiro conjunto de textos que coincidentemente fechou em oito pequenos poemas”, conta Cesco. “Percebi que ali tinha estrutura, ritmo e algo que fazia com que eles tivessem um começo, meio e fim. Então, veio a ideia de escrever nesse formato. Fui experimentando até que pensei que isso poderia ser um livro composto de oito partes, brincando com oito que sugere essa ideia de infinito”, acrescenta.
O título é referência direta ao poeta, professor e multiartista Marcelo Dolabela (1957-2020), de quem Cesco sempre foi muito próximo. Sempre que desenvolvia performances poéticas com alunos e colegas, Dolabela costumava adverti-los quando o roteiro se estendia demais. “Poesia demais cansa”, ele avisava.
“Eu adorava isso”, conta Cesco. “E sempre achei que o Dolabela estava repleto de razão e aí trouxe essa expressão dele, que já tem um quê de contraste, pois a sociedade contemporânea nos dá estímulos demais, o que cansa”, diz.
Cesco aposta na linguagem coloquial para não cansar o leitor e também procura estabelecer um diálogo na medida do possível com quem o lê, na tentativa de convencer que a poesia não é algo sem graça e pedante, embora possa ser de difícil entendimento. “poesia é uma trova / melhor seria se fosse prosa? / porque prosa você entende o fio da meada / poesia é telefone sem fio / e você não entende nada”, escreve em um dos pequenos livros.
“Com o excesso de informação que a gente tem e pensando na forma que lidamos com ela, decidi escrever sobre isso. Mas fiquei me perguntando: ‘Vou escrever poesia nessa altura do campeonato, por quê?’ ‘Pra quem vou escrever?’ e ‘o que eu tenho a dizer?’. Será que tudo já não foi dito?”, lembra Cesco.
A busca pela razão em escrever poemas, portanto, virou o mote de “Poesia demais cansa”. Isso não quer dizer que outras temáticas passassem pelos versos do poeta. "Tudo bem, você veio / e me leu até aqui / agora fica ou vai / agora vai ou racha", escreve ele. Em outro texto, observa: tá todo mundo tentando / ostentar a ostentação... tá todo mundo no fundo / tentando se virar / Se viralizar, viralizou ou / virilizou ou / se afogou no poço profundo".
Todos os livretos que compõem "Poesia demais cansa" contam com ilustrações diferentes. As capas e desenhos são resultado da colaboração de oito artistas visuais selecionados através de edital para participação da residência artística “A capa e o verso”, realizada em 2025, com o objetivo de desenvolver as ilustrações do livro. Participaram Arthur Moura Campos, Áster, Carolina Deptulsky, Efe Godoy, Iaci Públio Carneiro, Joana Diniz, Jorge Arndt e Yor. Todo o processo foi realizado dentro da Faculdade de Letras da UFMG e na Impressões Minas, com curadoria de Cesco, Preto Mateus e Emília Mendes.
“TOMAR PARTE NO ENXAME”
. De Mônica de Aquino
. Editora Fósforo
. 104 páginas
. R$ 74,90
. Lançamento neste sábado (12/9), às 11h, na Livraria Quixote (Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi)
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“POESIA DEMAIS CANSA”
. De Cesco Napoli
. Impressões de Minas
. 32 páginas cada um dos 8 livretos
. R$ 99
. Lançamento neste sábado, a partir das 16h, na Impressões de Minas (R. Bueno Brandão, 80 – 02, Floresta)
